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A SEDUÇÃO COMO PROCEDIMENTO DA COMUNICAÇÃO

Por Nísia Martins do Rosário:

Em outro texto, neste blog, escrevi sobre o jogo na comunicação. Desta vez, passo a explorar a sedução, outro procedimento comunicativo que funciona a partir de estratégias próprias. Antes de aprofundar essas questões, entretanto, é necessário abordar os sentidos atribuídos à sedução, que se manifestam, muitas vezes, de forma imprecisa, confusa e contraditória. Por isso, talvez, o mais conveniente seja, inicialmente, reportar-se às suas origens etimológicas. “Sedução” vem do latim seduco (se, duco). O radical duco (ducere), em sua acepção mais geral, significa conduzir, comandar, ir à frente (Ferreira, s/d). O prefixo ‘se’ indica partilha, separação, afastamento, divisão, desvio. Assim, sedução, inicialmente, designa a divisão ou a partilha de comando, de condução.

Buscando despir a sedução de sentidos moralistas ou profanos, o termo pode ser tratado como uma ação exercida sobre outra pessoa por meio de sugestão, buscando direcionar determinadas condutas. A sedução, portanto, pode ser entendida como um procedimento da comunicação aplicado em todas as ordem da vida, valendo-se tanto de sinceridade, como do engano e da ambiguidade. Nessa via, a sedução pode tanto partilhar, argumentar, entreter, ensinar, quanto manipular, ludibriar e enganar, desde que a manifestação desses modos de ação não se constitua em uma forma clara de controle e/ou imposição, mas, sim, como convencimento.

A sedução funda sua forma de convencimento na paixão, no interesse, no ímpeto. Oferece como finalidade o prazer, pressupondo um discurso dialógico e, por conta disso, a interação entre os sujeitos. O sedutor, portanto, tem que encantar e, para isso, pode mentir sobre si mesmo e para si mesmo, “pois o sedutor, não se esqueçam (…), é aquele que passou a vida renunciando a ser, em troca de parecer” (Kehl, 1988, p. 422). Por sua vez, “o seduzido não sabe onde pisa – e pensa que o sedutor sabe. Antecipa prazer e dor, pois, ao mesmo tempo que espera o gozo prometido pelo sedutor, já sabe que se aproxima a catástrofe” (Kehl, 1988, p. 411).



Outra característica importante da sedução é que ela se sustenta e se utiliza da fantasia, permitindo que a fronteira da realidade seja ultrapassada, mas jamais deve ser confrontada com o real. A fantasia responde a certos vazios do sujeito; é criação que visa preencher a ruptura, a fenda do ser e do desejo inconsciente. Não se pode jamais admitir que ela seja capaz de seduzir, pois isso a destruiria – pode-se apenas aceitar que a fantasia se constitua a partir de um ato de sedução.

O desejo também anda sempre rodeando a sedução, é o responsável por arrancar o sujeito do lugar comum, separá-lo dele mesmo para confrontá-lo com aquilo que lhe falta. O discurso se presta bem para alavancar esse desmantelamento, articulando estratégias sedutoras, assim como mantendo aberto o canal que permite reativar constantemente a incitação do desejo.

O segredo do discurso sedutor, aliás, é desviar-se da verdade – que o destruiria – e constituir-se na aparência, na simulação, sem tornar-se totalmente mentiroso. Construir-se como excesso, como falta, como superficialidade, como ritualidade, mas nunca como sentido profundo e único, nunca como interpretação completa. Observe-se que o discurso sedutor opera sobre o reverso, sobre o mascaramento dos sentidos. Dessa forma, é cúmplice de um encantamento próprio. Esse é também o material do discurso midiático – a priori em todos os seus gêneros – que toma o signo como meio de se concretizar. Os signos, afinal, estão ligados à representação e à aparência e, portanto, sempre propensos à sedução. Ora, o signo só se constitui como tal ao separar-se do objeto, ao separar-se do original – só assim é signo de alguma coisa. Ele seduz porque, na verdade, ele é a aparência daquilo que representa.



De forma geral, a comunicação, especialmente as midiáticas, começa a seduzir através de um convite: para que seus conteúdos sejam vistos, observados, apreciados ou até mesmo criticados. E, como quem convida tem algo a oferecer, é preciso que ela se utilize dos recursos da tentação, da exibição, da aposta, do prazer, do desejo. O êxito do convite vale-se muito do fascínio do público pelo mundo oferecido.

A simulação é outro recurso potente da sedução, consubstanciada não apenas como representação, mas como simulacro, como aparência sem realidade. Ela, afinal, encanta e presenteia com o sonho e com a fantasia. A simulação permite tudo, ou quase tudo. Através da violação da fronteira da realidade, é possível mais do que representar, do que “fazer-de-conta”: é possível quase vivenciar aquilo que não tem existência. Dessa maneira, o público midiático é estimulado a recorrer a sua capacidade de fantasiar, de preencher vazios de sentidos com desejos e prazeres, de preencher os tristes vazios do mundo com sonhos encantados.

O procedimento da sedução, contudo, precisa se valer também do efeito de realidade para, nesse cenário, motivar o espectador a se integrar ao discurso. O efeito de realidade é sutil, aplica pequenas ou grandes doses de realismo, de naturalidade, de lei para compensar as altas doses de aparência, de simulação e de fantasia do processo sedutor. O efeito de realidade perpassa todos os conteúdos midiáticos. Afinal, alguma verossimilhança é necessária, e é por essa via que se cria familiaridade com os públicos. Ela se infiltra com tanta naturalidade que se confunde com o público, ambos fazem parte um do outro. Sua presença é endêmica, como diz Baudrillard (1991).

As formas construídas na aparência, no exterior, na superfície têm, assim, uma função inegável e sua eficácia está em mostrar a efervescência contínua da vida social. Não se pode negar, entretanto, que o traço da aparência, inserido no procedimento da sedução, pode se conformar num elemento alienante (é, por assim dizer, o que G. Debord chamou de Sociedade do espetáculo). Os ídolos criados e articulados pela tela seduzem, justamente, pelo uso da aparência – para a alienação ou para a resistência –, uma vez que seu poder está justamente na imagem que eles conseguem engendrar. Assim, cada parte do seu corpo não é seu reflexo verdadeiro, mas o reflexo de uma encenação ritualizada. Baudrillard (1991b, p.108) afirma que os ídolos são “… a única grande constelação coletiva da sedução que os tempos modernos produziram”.



Sinteticamente, sugiro quatro estratégias da sedução, começando pelo encantamento. Dessa forma, torna-se pressuposto que a sedução se constrói na comunicação de forma mais convincente quando sua meta é o encantamento. Seja através do simbólico, do artificial, da reversibilidade, do ritual, do desafio, do engodo, da simulação, da fantasia, o encantador tem o papel de maravilhar o outro e fazê-lo aceitar ser enfeitiçado. Assim, a sedução empresta à comunicação um caráter um tanto mágico, conseguindo perpassar as esferas de ações midiáticas, adequando seus percursos, cenários e estratégias de acordo com as necessidades que se apresentam. Essa é a estratégia da ilusão consentida e solicitada; ilusão que se vale de uma certa dose de ignorância do encantado e de outra dose de mistério jogada nos meandros do discurso. É a versão mais doce do engano.

A sedução opera, também, com a criação de identidades, exigindo sempre reciprocidade e, dessa forma, permitindo que o sujeito se reproduza no outro, encontrando nele partes de si mesmo. É nesse quadro – em que se projetam os reflexos de identificação – que se constitui a estratégia da reflexividade, ativando não somente o imaginário, mas, ainda, a construção dos sentidos. A reflexividade carrega elementos latentes dos sujeitos envolvidos no processo comunicativo e, ao projetar luz sobre esses elementos, consegue ativar a ação de resposta. Nos reflexos dos corpos que aparecem na tela se configuram signos capazes de sustentar o desafio de manter o público em conexão. Contudo, as identidades geradas nesse processo devem se submeter, também, às diferenças, com o propósito de que nenhuma delas seja unicamente sustentável. A estratégia da reflexividade, portanto, se articula, também, pelas diferenças, considerando a identidade impossível – para que a sedução não se esvaneça.

Uma das estratégias fundamentais da sedução, capaz de sustentar seu desenvolvimento, é o segredo. Quando a ação de “segredar” é implantada, mais importante do que omitir aspectos da verdade, é fazer com que o outro saiba que há algo sigiloso, cujo acesso lhe é negado total ou parcialmente. Por outras palavras, seduzir pelo segredo é construir uma aura de mistério, apresentar um simulacro sobre um “não contado” ou um “não contável”, gerando o suspense e despertando a curiosidade. O segredo tem a aura do enigma e da cumplicidade. Exige confiança, reciprocidade, por isso, faz-se sedução. Na visão de Baudrillard (1991), seduzir é desviar (o outro) da verdade e, assim, a verdade se torna um segredo, porque escapa desse outro.

Os conteúdos construídos sobre a ambiguidade permitem sempre que mais de um sentido seja detectado para o mesmo signo e que o percurso de significação seja revertido no decorrer do processo. Nessa estratégia, são elementos cruciais: a simulação e a construção da aparência, bem como a polissemia. Uma vez alcançado o prazer da construção de sentidos simulados, atingido o imaginário e a fantasia, é possível retornar a outra aparência, a outra simulação e, portanto, a outro significante. Dessa forma, a ambiguidade torna-se peça chave nos significados dos corpos, uma vez que utiliza-se da flutuação e da metamorfose dos significantes e dos significados, podendo criar o que Sodré (1996) chama de identidades comutáveis ou alternativas.


Referências

BAUDRILLARD, Jean. Da sedução. Campinas: Papirus, 1991.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio D’Água, 1991b.

FERREIRA, Antonio Gomes. Dicionário de latim português. Porto: Porto Editora, s.d.

KEHL, Maria Rita. Masculino/feminino: o olhar da sedução. In: NOVAES, Adauto et al. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.411-23.

SIBONY, Daniel. Sedução – amor inconsciente. São Paulo: Brasiliense, 1991.

SODRE, Muniz. Reinventando a cultura: a comunicação e seus produtos. Petrópolis: Vozes, 1996. p.169-79.

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