Corpos feridos: o retrato da violência obstétrica
O projeto “1:4 Retratos da Violência Obstétrica”, da fotógrafa paulista Carla Raiter, escancara com imagens e palavras um assunto pouco pautado na mídia brasileira.
A violência obstétrica caracteriza-se[1] por procedimentos médicos que causam tratamentos desumanizados e uso de medicalização sem necessidade clínica. Incluem-se agressões verbais, impedimento da entrada de acompanhante escolhido pela mulher, jejum obrigatório, cesariana sem indicação clínica ou sem o consentimento da gestante (atendendo aos interesses do médico), privação do contato da mãe com o bebê e procedimentos que causem dor ou dano físico – como, por exemplo, aplicação de ocitocina para acelerar o trabalho de parto (por conveniência médica) e episiotomia sem necessidade (corte feito entre a vagina e o ânus para facilitar a saída do bebê).
As fotografias de Carla Raiter mostram partes dos corpos de mulheres vítimas de violência obstétrica, com tatuagens temporárias contendo seus depoimentos.


São fotografias que, para além de evidenciarem sofrimento, dor e violência, expõem a patologização das condições naturais de parto em favor do sistema médico – muitas vezes, é mais conveniente para os médicos e médicas agendarem cesarianas, já que o trabalho de parto, quando natural, geralmente leva de 12 a 16 horas. O Brasil é o líder mundial em realização do procedimento: 84,6% dos partos na rede particular são cesáreas[2]. A Organização Mundial da Saúde, no entanto, recomenda que esta taxa esteja entre 10% e 15%.
É preciso lembrar que existe uma parcela grande de mulheres que escolhem a cesárea, devido a fatores como o de não sentir dor e a praticidade de agendar a cirurgia. Mas também cabe questionar: até que ponto não vem sendo construída no Brasil uma cultura de pragmatização excessiva do parto? Até que ponto os sentidos atribuídos ao parto não vêm sendo reconfigurados para a prevalência das noções de dor insuportável, sofrimento absurdo e até mesmo de medo de sofrer violência?
O que se vê nessas fotos não é somente negligência e mau atendimento médico. As palavras inscritas nos corpos das mulheres, mais suas cicatrizes físicas e simbólicas, evidenciam problemas estruturais ainda mais profundos: o preconceito de gênero, o machismo, o androcentrismo, a subjugação da mulher e de seu corpo.
São imagens que clamam por atenção. Pedem que se chegue perto para ler, pedem que se pense, que se pratique a empatia. Pedem, como o fazem as próprias mulheres, que se lhes ouça. Aí estão corpos feridos, mas que expostos através da fotografia cumprem uma função nobre: a de agentes de transformação social.
[1] De acordo com a Defensoria Pública de São Paulo. Definição publicada em http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/41/violencia%20obstetrica.pdf
[2] Dados da Organização Mundial da Saúde
TEXTO
Mariana Somariva
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