Fama, política e intelectualidade nas corporalidades de Jean Wyllys

Em 2005, a quinta edição brasileira do reality show Big Brother Brasil contou com um participante que escapava ao perfil convencional dos integrantes das edições anteriores. Aos 30 anos, o professor universitário Jean Wyllys de Matos Santos, interessado em estudar os reality shows, viu-se inserido em um novo contexto, vivenciando diretamente a experiência de se confinar em uma casa durante três meses, sendo permanentemente vigiado, através de câmeras, por milhões de telespectadores. Fugindo ao estereótipo dos participantes jovens e com belos corpos, que viam no programa uma oportunidade de alcançar fama e riqueza em poucos meses, ao participar do BBB, Jean rompeu com os próprios sentidos, enquanto professor e pesquisador, ao mesmo tempo em que a atração televisiva rompeu com a própria imagem, ao abrigar um integrante com elementos destoantes do perfil convencional dos Brothers.
Esse cuidado em mostrar-se inserido em um determinado ambiente, identificando-se com um público amplo, tem relação com a análise semiótica do corpo feita por Cleide Riva Campelo em Cal(e)idoscorpos: um estudo semiótico do corpo e seus códigos, em que a autora destaca que o corpo humano “existe num tempo e espaço físico determinado. Sofre os efeitos deste tempo e deste espaço e toda sua luta de sobrevivência é realizada na interação com estes dois elementos” (CAMPELO, 1994, p. 27). Além disso, essa inserção do indivíduo e seu corpo em um determinado contexto faz com que forjemos nosso corpo por uma moldura e nos comuniquemos a partir de um determinado reportório (CAMPELO, 1994, p. 77).
“Quem aposta que o primeiro professor universitário a participar do BBB vai tirar uma onda de intelectual para cima dos outros participantes pode se surpreender. Especialista em cultura brasileira e baiana, Jean está longe de ser um intelectual típico”. Como anunciava o texto de apresentação de Jean Wyllys, publicado no site oficial do Big Brother Brasil, em janeiro de 2005, o baiano era um integrante diferenciado. Três meses depois, Jean sagrou-se campeão do programa e cultivou uma fama de forma diferente de boa parte dos ex-BBB´s.
Avesso aos holofotes, ganhou visibilidade com um perfil mais discreto, tanto sobre sua sexualidade (mesmo se assumindo homossexual logo no início do programa) como em relação a seu perfil de professor universitário, sem se posicionar como intelectualmente superior aos demais participantes do programa. Esta imagem, construída durante meses de confinamento, permitiu que Jean ganhasse o respaldo do maior canal de televisão do país e o carisma do público, faturando o prêmio milionário. Anos depois, ainda conhecido como um dos vencedores do BBB, Wyllys foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro.
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Ainda que estejamos numa sociedade na qual as pessoas são, em grande parte dos casos, educadas para se relacionarem sexualmente com indivíduos do sexo oposto, Reinaldo Pamplona da Costa destaca, no livro Os 11 Sexos, que “os homens homossexuais poderão não ter conflito quanto à sua identidade de gênero” (COSTA, 1994, p. 87), como no caso de Jean, que assumiu publicamente sua homossexualidade e sempre mostrou desembaraço ao falar sobre o tema. No mesmo ano, o professor publicou o livro Ainda Lembro pela Editora Globo, do mesmo grupo empresarial do canal televisivo, o que demonstra a preocupação da emissora em aproveitar a fama e o carisma conquistados por Wyllys de forma diferente à costumeira em relação aos ex-BBBs.
Segundo a crítica de Sérgio Ripardo, publicada em 09 de junho de 2005 na Folha de São Paulo, “o lançamento do livro faz parte da estratégia da Globo de explorar comercialmente o fenômeno “Jean” por meio do apelo “intelectual” do moço, em vez do destino tradicional dessas celebridades instântaneas –os ensaios sensuais ou de nudez. Ele é produto “cérebro”, e não “corpo””. Sobre a sua homossexualidade, Ripardo afirma que o baiano representa o perfil “do gay assumido que o mundo heterossexual leva a sério e o anunciante tolera: dócil, sutil, até puritano e só perturbado com questões existenciais comuns a todos (desilusão amorosa, solidão, desesperança, melancolia, vaidade e injustiça social), sem risco à ordem estabelecida”.
Após trabalhar como roteirista e repórter em programas da Globo, Jean foi aos poucos se afastando das atenções midiáticas, dedicando-se às aulas e pesquisas em universidades. No entanto, sempre que era entrevistado e perguntado sobre o sucesso ou questões relacionadas com a vida pessoal, como no vídeo abaixo, o professor parece preocupado em reforçar a imagem de alguém humilde, de origem simples, comum a grande parte da população brasileira, e avesso a expor aspectos particulares, como situação financeira.
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Esse cuidado com a manutenção de uma imagem pública “bom mocista” se tornou ainda maior em 2010, quando Jean lançou-se deputado federal pelo PSOL fluminense. Meses antes de se candidatar, em entrevista ao jornal baiano Correio, o ex-BBB comentou sobre a final do programa, que ocorria na época, e sobre a provável candidatura política, que poderia adiar a defesa de sua tese de doutorado sobre o Big Brother, motivo principal da entrada do professor no programa, anos antes. Segundo ele, se decidisse se candidatar a deputado, “terei que me engajar numa campanha eleitoral… Então, a defesa da tese, cujo foco principal é uma análise dos significados nascidos do consumo do BBB, terá de ser adiada”. Meses depois, já candidato, podemos notar a estratégia de consolidar a imagem pública cultivada há anos, em entrevistas como esta:
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Referências
Crítica: Livro de Jean expõe o gay que a Globo leva a sério: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u51219.shtml. Visualizado em 03 de julho de 2013.
Jean Wyllys: de vencedor a analista do BBB comenta sobre programa: http://www.correio24horas.com.br/agenda-cultural/detalhes/detalhes-4/artigo/jean-wyllys-de-vencedor-a-analista-do-bbb-comenta-sobre-programa/. Visualizado em 12 de julho de 2013.
Professor adora novela e candomblé: http://bbb.globo.com/BBB5/0,24118,NBO889015-4051,00.html. Visualizado em 25 de março de 2013.
COSTA, Ronaldo Pamplona da. Os onze sexos: as faces múltiplas da sexualidade humana. São Paulo, Editora Gente, 1994.
Campelo, Cleide Riva. Cal(e)idoscorpos: um estudo semiótico do corpo e seus códigos. São Paulo: ANNABLUME, 1996.
Texto
Nísia Martins do Rosário
Guilherme Almeida
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