Dalgalarrondo (2000) divide as funções psíquicas em consciência, atenção, orientação, vivências do tempo e do espaço, sensopercepção, memória, afetividade, vontade e psicomotricidade, pensamento, juízo de realidade, linguagem. Além das funções psíquicas compostas, que são consciência e valoração do eu, esquema corporal e identidade, personalidade e inteligência.
Dalgalarrondo chama de consciência o estado de estar acordado, desperto, vigil. É a capacidade do indivíduo entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os seus objetos. Leo parece não ter nenhuma alteração em sua consciência, durante sua infância. Ele apresenta um quadro em que parece manter seu estado de vigília sempre ativo, pois o filme nos mostra o personagem desperto a noite escrevendo sentado em sua cama enquanto seu irmão mais velho (Fernand) dormia, o que pode se constituir em uma alteração. Entretanto, em um momento, talvez depois de não conseguir responder psiquicamente a certos acontecimentos, Leo fica catatônico. Porém, esse fenômeno não é citado como uma alteração da consciência.
A atenção pode ser definida como a direção da consciência, o estado de concentração da atividade mental sobre determinado objeto. Podemos discernir dois tipos básicos de atenção: a atenção voluntária, que é aquela onde escolhemos o objeto sobre o qual vamos focar nossa atenção, e a atenção espontânea, que é aquele tipo de atenção suscitado pelo interesse momentâneo. Quanto à direção da atenção, ela pode ser externa: projetada para fora do mundo subjetivo; ou interna, que se volta para os processos mentais do próprio indivíduo. Das alterações da atenção temos a diminuição global da atenção chamada de hipoprosexia, na qual se verifica uma perda básica da capacidade de concentração, com fadigabilidade aumentada, o que dificulta a percepção dos estímulos ambientais e a compreensão. A perda total da capacidade de atenção denomina-se aprosexia. A distração é um sinal não de déficit propriamente dito, mas de superconcentração ativa da atenção sobre determinados conteúdos ou objetos. A distraibilidade, ao contrário, é um estado patológico que á caracterizado por uma instabilidade e mobilidade a atenção voluntária, como dificuldade de se manter em qualquer coisa que implique um esforço produtivo. No filme, o personagem parece apresentar apenas um facilidade de distração e não uma distraibilidade propriamente dita, tendo em vista que Leo, apesar de ser sonhador, como ele mesmo diz, escrevia muito, o que requer um esforço produtivo, incapaz de ser dado quando se tem uma distraibilidade.
A orientação, para Dalgalarrondo (2000), é um elemento básico da atividade mental. A orientação é a capacidade de situar-se quanto a si mesmo e ao mundo. Temos vários tipos de orientação: a orientação autopsíquica, que é a orientação do indivíduo em relação a si mesmo; a orientação alopsíquica, que diz respeito à capacidade de se orientar em relação ao mundo; a orientação temporal, que indica se o paciente sabe em que momento cronológico estamos vivendo (hora do dia, que dia é hoje); e a orientação espacial, que é a capacidade de saber onde está, o estado que mora, o país. Quanto à orientação espacial, temporal e alopsíquica, Leo parece muito bem durante a sua infância (já que os elementos que aparecem no filme retratam uma época que supostamente está sendo lembrada por um Leo adulto), pois sabe muito bem onde mora, apesar de querer estar na Sicília, sabe, também em que época está, em que dia e mês se encontra. Porém, em relação à orientação auto psíquica, poderíamos inferir que Leo apresenta algumas alterações, uma vez que nega a sua origem (seu pai) e afirma ter um nome diferente (Léolo Lauzonne) daquele que foi dado por seus pais (Leo Lozeau).
As vivências de tempo e do espaço constituem dimensões fundamentais de todas as experiências humanas. O ser, de modo geral, só é possível nas dimensões reais e objetivas do espaço e do tempo. Leo parece se encontrar muito bem nessa percepção do tempo e do espaço, embora, por vez, o personagem tenha se queixado de como percebia os dias, via-os igual, como uma repetição e uma espera, talvez pela morte, ou pela loucura da qual Leo parece querer fugir arduamente. Embora também, Leo sente o espaço onde vivia como um espaço hostil, sempre se sentindo ameaçado pela loucura que beirava. Uma coisa que aparece no filme que pode nos deixar em dúvida sobre a vivência de tempo de Leo é a de que via, às vezes, seus irmãos já crescidos e, depois, ainda pequenos, sendo que a cena dos irmãos menores seria a sucessão da cena na qual os irmãos estão maiores.
A sensopercepção é a tomada se consciência, pelo indivíduo, do estímulo sensorial. Atribui-se a sensação à dimensão neuronal, ainda não plenamente consciente, no processo de sensopercepção. Já a percepção diz respeito à dimensão propriamente neuropsicológica e psicológica do processo, à transformação de estímulos puramente sensoriais em fenômenos perceptivos conscientes. O elemento básico do processo da sensopercepção é a imagem perceptiva real, ou simplesmente imagem. Não podemos confundir a imagem perceptiva real com a representação que caracteriza-se por ser apenas uma revivescência de uma imagem sensorial determinada, sem que esteja presente o objeto real que a produziu. A imaginação já é uma atividade psíquica voluntária, que consiste na evocação de imagens percebidas no passado ou na criação de novas imagens e ocorre na ausência de estímulos. A fantasia é uma produção imaginativa, um produto minimamente organizado da imaginação. O narrador (Leo adulto) afirma que suas lembranças mais remotas são marcadas pelo cheiro e pela luz (referindo-se à lembrança de sua mãe ensinando-lhe a usar o pinico), o que indica uma certa preservação desse processo. A sensopercepção pode ter alterações tanto quantitativas como qualitativas, sendo interessantes para nós as alterações qualitativas. Uma dessas alterações qualitativa é a ilusão, que é a percepção deformada de um objeto real e presente.
Outras alterações qualitativas da sensopercepção são as alucinações. Alucinação é a percepção clara, definida de um objeto sem a presença do objeto estimulante real. Não estamos certos se poderíamos classificar, por exemplo, o fato de Leolo pensar que Bianca cantava para ele de dentro do roupeiro enquanto ele escrevia como uma alucinação, como delírio ou fantasia, pois o filme nos deixa em dúvida sobre esse aspecto. Se fosse, realmente, uma alucinação de Leolo, poderíamos pensar em alguns tipos específicos de alucinação para esse fato. O principal tipo seria de alucinações combinadas ou sinestesias, que são experiências alucinatórias nas quais ocorrem alucinações de várias modalidades sensoriais ao mesmo tempo (já que Leolo ouvia e, às vezes, via Bianca cantando para ele). Outro tipo que podemos pensar é na alucinação auditiva em que o indivíduo geralmente ouve vozes que o insultam (diferente do caso apresentado, em que o paciente escuta a moça cantar), ou então em alucinação musical, que é descrita como a audição de tons musicais e melodias sem o correspondente estímulo externo. Esse tipo de alucinação é relativamente raro.
A memória é a capacidade de registrar, manter e evocar os fatos já ocorridos. As alterações quantitativas da memória são: hipermnésias, onde as representações afluem rapidamente, ganhando em número, porém perdendo em clareza e precisão; amnésias, perda da capacidade de fixar ou da capacidade de manter e evocar antigos conteúdos mnêmicos. Alterações qualitativas da memória envolvem principalmente a deformação do processo de evocação de conteúdos mnêmicos fixados. São exemplos dessas alterações as ilusões mnêmicas onde há lembrança de caráter fictício, pois há o acréscimo de elementos falsos a um núcleo verdadeiro da memória. Ocorre na esquizofrenia, paranoia, histeria grave e em transtornos de personalidade; as alucinações mnêmicas são criações imaginativas com a aparência de lembranças ou reminiscências e não correspondem a nenhuma lembrança verdadeira. Constituem o material básico para a formação de delírio; as fabulações, elementos da imaginação, completam artificialmente as lacunas deixadas pela memória. Há incapacidade do doente reconhecer como falsas as imagens produzidas pela fantasia. As criptomnésias são um falseamento da memória na qual as lembranças aparecem como fatos novos ao paciente que não as reconhece, vivendo como uma descoberta nova.
Podemos analisar o caso do Leo, já que o filme gera muitas dúvidas do que realmente são fatos que realmente aconteceram e o que não passa de “coisas da cabeça do personagem”, como algo relatado muitos anos depois que “acontecera” e não como uma história vivida em tempo real. Nesse caso, pode haver no personagem alguma dessas alterações qualitativas da memória, já que trás, também elementos fantásticos em seu “relato”. Poderíamos pensar, principalmente, numa alteração de memória do tipo ilusões mnêmicas, já que Leo lembra de seu passado amarrado a um fundo de realidade, mas trás muitas lembranças, talvez, criadas por ele. Gostaríamos de ressaltar que as especulações feitas até aqui não passam de hipóteses do que pode ser pensado no caso analisado.
Afetividade é um termo genérico, compreende várias modalidades de vivências afetivas como o humor, as emoções e os sentimentos. Leo não parece uma criança comum na sua afetividade, já que não tinha muitos amigos e parecia um tanto triste com sua vida. Com sua mãe, Leo se mostra muito afetivo, diz que a ama algumas vezes durante o filme, lhe dá alguns abraços calorosos. Por isso, talvez não poderíamos dizer que Leo sofre de um embotamento afetivo, já que esse diz respeito a uma perda profunda de todo o tipo de vivência afetiva. Talvez pudéssemos dizer que Leo sofre de uma certa apatia, que é a diminuição da excitabilidade emotiva e afetiva, na qual os pacientes queixam-se de não poderem sentir nem alegria, nem tristeza, nem raiva. Porém, nenhuma dessas hipóteses pode ser realmente comprovada.
Outras das funções psíquicas em questão são a vontade e a psicomotricidade. Alguns autores identificam a vontade ao desejo. O desejo, segundo Dalgalarrondo (2000), é um anseio de natureza consciente ou inconsciente que visa sempre a algo que busca sempre a sua satisfação. Uma diferenciação entre os transtornos de vontade é entre os atos impulsivos e os compulsivos. Uma compulsão, que talvez seja patológica na infância de Leo, é sua compulsão pela masturbação, que pode ser chamado de satiríase, que é o correspondente no homem da famosa ninfomania que aparece no sexo feminino. Essa compulsão é um desejo sexual em nível extremamente aumentado no qual não é raro a compulsão pela masturbação, “vivenciada como a intensa necessidade de realizar atividade masturbatória repetitiva, ás vezes mesmo praticada com desprazer” (Dalgalarrondo, 2000, p. 116). Podemos ver essa possível compulsão em Leo nas cenas em que, quando menino, ele se tranca no banheiro com um pedaço de carne e algumas revistas pornográficas, ou também nos momentos em que ele fica assistindo Bianca cortando as unhas do pé do seu avô com os dentes, nos quais o menino se masturba freneticamente. Essa última cena que citei, do avô com Bianca, não deixa de ser uma cena dúbia quanto a sua veracidade, mais nos parece ser da ordem do delírio de Leo do que realmente algo que aconteceu, porém a masturbação não deixa de estar presente. Já em relação às alterações da psicomotricidade, podemos pensar que no caso do personagem, ao invés de um estado de catatonia, como referimos acima, ele apresenta um estado de estupor que é “a perda de toda atividade espontânea, que atinge o indivíduo globalmente, na vigência de um nível de consciência aparentemente preservado e da capacidade sensitivo-motora de reagir ao ambiente. Tipicamente o indivíduo em estupor fica estrito ao leito, acordado, porém sem reagir de modo algum ao ambiente”(Dalgalarrondo, 2000, p. 118).
O pensamento é composto pelos conceitos, os juízos e o raciocínio. Podemos pensar no caso de Leo, partindo do pressuposto que ele está nos contando a sua história, que ele apresenta um quadro de pensamento vago que é caracterizado pela imprecisão das relações conceituais, a formação de juízos e a concatenação desses raciocínios. Onde o paciente expõe um pensamento muito ambíguo, podendo mesmo parecer obscuro, não havendo um empobrecimento do pensamento, mas muito mais uma marcante falta de clareza. Pelo menos, após ver seu relato, a sensação que temos é que as coisas ditas não estão bem claras, há algo confuso no que Leo nos conta, a temporalidade dos fatos parece estar afetada, justamente pela confusão e falta de clareza do discurso do “paciente”. Durante a sua infância, Leo parece apresentar um pensamento mágico, por exemplo, na cena da piscina em que diz que seu avô tentou matá-lo e que viu uma luz branca, além de ter viajado ao fundo do mar e visto tesouros enquanto estava sendo afogado. “O pensamento mágico é o tipo de pensamento que fere frontalmente os princípios da lógica formal e também não respeita os indicativos e imperativos da realidade. Ele segue os desígnios do desejo, fantasias e temores do sujeito, adequa a realidade ao pensamento” (Dalgalarrondo, 2000, p. 127).
O juízo de realidade é mais uma das funções psíquicas. “Pelos juízos afirmamos nossa relação com o mundo, discernimos a verdade do erro, asseguramo-nos da existência ou não de um objeto perceptível, assim como distinguimos uma qualidade de outra qualidade” (Dalgalarrondo, 2000, p. 132). As alterações do juízo de realidade são também alterações do pensamento. A principal alteração do juízo de realidade é o delírio. O delírio são juízos patologicamente falseados. Deve-se pensar o delírio como uma construção. “Tal construção está inserida num processo de reorganização do funcionamento mental; o esforço que o aparelho psíquico do paciente empreende no sentido de lidar com a desorganização que a doença de fundo produz” (Dalgalarrondo, 2000, p. 135). Ao levarmos como verdade o fato de que Leo já adulto está nos narrando a história de sua infância, poderíamos dizer que o seu delírio pode ter como mecanismo formador a memória, constituindo-se assim um delírio mnêmico. Nesse caso, o delírio é construído a partir de recordações e elementos da memória (verdadeiros ou falsos) que ganham uma dimensão delirante. O indivíduo utiliza determinadas recordações para construir seu delírio. São utilizadas tanto recordações verdadeiras como falsificações da memória. Se pensássemos em Leo como um paciente em um consultório narrando sua história, poderíamos pensar que ele estivesse organizando seu delírio a partir dessas memórias, deixando-as com um caráter fantástico. Porém, se partirmos do pressuposto que Leo viveu exatamente o que conta, poderíamos dizer que durante a sua infância sofria de delírios fantásticos, onde o indivíduo descreve histórias fantásticas com convicção plena.
A linguagem é fundamental na elaboração e expressão dos pensamentos. Temos muitas alterações da linguagem, porém não temos dados suficientes para afirmar que Leo possua uma alteração de linguagem, pelo menos não quanto a sua forma de falar, pois o filme é em francês, o que dificulta ver se há alguma característica marcante na sua fala, ou na sua entonação de voz.
O conjunto dessas funções psíquicas combinadas forma outras funções psíquicas mais elaboradas, como a consciência e valoração do eu e o esquema corporal e a identidade, por exemplo. Leo, quanto a essas funções, parece desenvolver uma não diferenciação entre o eu e o mundo, ou seja, há uma alteração de sua consciência de oposição do eu em relação ao mundo, pois, por exemplo, na cena em que Leo vai visitar sua família inteira no hospital, supõe-se que quem, verdadeiramente está no hospital é o próprio Leo, que projeta para o mundo externo a sua condição. Esse estado de alteração é justamente caracterizado pela projeção maciça no próximo a sua experiência de estado subjetivo. Ocorre, assim a queda da barreira divisória entre o eu e o não-eu.
Já a personalidade é uma outra função psíquica composta. A personalidade pode ser definida como o “conjunto de traços psíquicos, consistindo no total das características individuais, em sua relação com o meio” (Bastos, citado por Dalgalarrondo, 2000, p. 159). Os traços de personalidade podem variar de acordo com a teoria da personalidade adotada para analisá-los. Vamos utilizar aqui a teoria da personalidade de Jung para analisar a personalidade do personagem do nosso filme. Jung organiza sua teoria a partir de dois aspectos fundamentais da personalidade: o movimento e direção da libido, que irão caracterizar os aspectos básicos da personalidade, divididos em introversão e extroversão, e as funções psíquicas básicas, que o indivíduo utiliza para se adaptar ao mundo: sensopercepção vs. intuição e pensamento vs. sentimento. Teremos então, para Jung, oito tipos básicos de personalidade. O tipo sentimento (extrovertido ou introvertido), o tipo pensamento (extrovertido ou introvertido), o tipo intuição (extrovertido ou introvertido) e o tipo percepção (extrovertido ou introvertido).Teríamos uma hipótese principal sobre a personalidade de Leo: ele seria uma pessoa que se enquadra no tipo intuição introvertido, que é aquele tipo de pessoa que se volta para experiências e intuições internas, dá mais importância às suas ilusões, sonhos e fantasias, envolve-se em experiências místicas pessoais. Isso porque Leo vive escrevendo sobre seus sentimentos, entra em fantasias da sua própria experiência subjetiva. A inteligência é um conceito fundamental da psicologia moderna, que todos utilizam, mas quase ninguém consegue definir o que realmente é. Ela pode ser definida como “a totalidade das habilidades cognitivas do indivíduo, o vetor final desses processos” (Dalgalarrondo, 2000, p. 171). As alterações da inteligência são conhecidas como retardo mental. Leo, em sua infância (pois os dados fornecidos pelo filme quanto ao personagem referem-se à esse período), nos é apresentado como um menino sem nenhum tipo de retardo mental, pelo contrário, ele parece ter uma inteligência, até um pouco superior à dos meninos da sua idade.
