Diagnóstico estrutural – psicose
Primeiramente, vale dizer a partir do que se parte para um diagnóstico estrutural. Segundo Calligaris (1989, pág. 9),
A clínica psicanalítica não é uma clínica descritiva, nem fenomenológica, mas é uma clínica estrutural, na medida em que o diagnóstico se estabelece na transferência. O que não quer dizer que o diagnóstico seja um diagnóstico sobre a transferência do sujeito, considerando a transferência que ele organiza como um fenômeno a mais. Não é disso que se trata. Trata-se do fato que na transferência que o discurso do paciente organiza, a partir do lugar no qual o paciente coloca o “terapeuta” é que um diagnóstico é possível .
Diante do que esclarece Calligaris, resta, então, refletir acerca do lugar no qual Leo adulto e narrador coloca o interlocutor a quem endereça sua narrativa. No caso da análise do filme, não se tem clareza sobre a quem Leo fala. O espectador fica em uma posição de interlocutor mudo, talvez de mero observador das falas do narrador endereçadas a um analista. Ao longo do filme, percebe-se que Leo contou a sua versão de como foi a infância, até a adolescência. A impressão que se tem é de que ele está tentando constituir um delírio, usando seu interlocutor para isso; constituir a metáfora delirante, que o sustenta como sujeito, defendendo-o da Demanda imaginária do Outro, que vai cedendo diante da construção do delírio (Calligaris, 1989). Como se vê, ainda nas primeiras cenas do filme, Leo conta ao seu interlocutor uma parte do delírio: “aqueles que só acreditam em suas verdades me chamam de Leo Lozeau. Dizem que ele é meu pai. Mas eu sei que não sou filho porque esse homem é louco, e eu não sou.” Pode-se observar que além de valer-se do interlocutor para contar a sua verdade, fica claro o caráter de certeza que a sua interpretação idiossincrática do mundo. A certeza possibilita um lugar para o sujeito do inconsciente. É Leo que detém o saber, o que é uma das características do discurso psicótico. Com relação a isso, Calligaris coloca que
sempre há, para o neurótico, um sujeito suposto cujo domínio da situação permite descansar. O pai, referência central do saber do sujeito, é suposto saber. Daí uma significação é garantida ao sujeito sem que um esforço no campo do saber seja necessário: referir-se ao pai é suficiente, visto que ele é suposto se encarregar do saber. Mas para o psicótico, relacionado a um saber sem sujeito suposto, é certo que a tarefa de sustentar este saber cabe ao sujeito mesmo. Ele só pode sustentá-lo assim, com a sua pessoa, então com a sua certeza egóica. (…) A problemática psicótica é autenticamente uma problemática de saber, é como percorrer e construir, mesmo que seja com a errância física, a rede de um saber total. (1989, p. 24-25).
E justamente percorrendo e construindo uma metáfora delirante que Leo conta sua pequena saga. Em uma cena ainda do início do filme, o personagem diz: “não procuro lembrar o que acontece em um livro. Tudo o que peço a um livro é que me dê energia e coragem, que me diga se há mais vida do que posso ter e que me lembre de que é urgente agir”. Interessante que o livro que ele utiliza para alimentar-se de “energia e coragem” é o livro que ele mesmo escreve. Ou seja, havia um outro livro, que ele lia. Ele gostava do livro. Mas Leo passa o filme todo escrevendo o seu próprio livro, e fica claro que o que fornece “energia e coragem” é o que ele mesmo escreve, não aquele que ele lê. Novamente, o seu saber é o que ocupa o lugar do suposto saber de um outro sujeito, como se daria na neurose. Isso fica mais evidente em uma outra cena, em que ele fala sobre seus sentimentos após ter começado o processo de escrita: “Comecei a escrever tudo o que me vinha à cabeça. Minha família se tornara personagem fictícia. Eu falava deles como se fossem estrangeiros.” Vê-se que seu livro, que é produção sua, ganha ares de realidade mesmo se contraposto à sua vida.
Uma figura enigmática no filme é a de um senhor a quem Leo chama de Domador de Vermes. Dele, Leo diz “custei a entender que ele era a reencarnação de Dom Quixote, que estava lutando contra o hilotismo e queria me proteger da minha família”. Dom Quixote de la Mancha, personagem do livro homônimo de Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), remete-nos a delírios e alucinações.
Em outra cena, que ganha destaque por ser, segundo o narrador (Leo adulto), a primeira vez em que via a “brancura daquela luz” (uma luz que recorrentemente aparece a Leo), o avô tenta matá-lo, afogando-o em uma piscina. O que se destaca é que Leo não se refere de maneira negativa a esse episódio. Ele diz: “Lembro que não tive medo e que sonhei com a beleza do tesouro, talvez porque já soubesse que estava morto”. Em uma situação de iminência de morte, provavelmente muito desagradável, de que um neurótico certamente tentaria desvencilhar-se, Leo entende que apenas foi a outro lugar, ou seja, descobriu o fundo da piscina (com tesouros). Como ocorre para o psicótico fora de crise (aquela era a primeira vez em que via a luz), supõe-se que Leo “estaria num mundo no qual existe significação. Mas, no final das contas, todas as significações são significações em si mesmas, não se medem a uma significação que distribui as significações no mundo” (Calligaris, 1989, pág. 12), ou seja, brincar ou ser afogado na piscina têm o mesmo valor.
Considerando que
evocar a foraclusão do Nome-do-Pai como processo indutor de psicoses é enfatizar o fato da impossibilidade em que se encontra a criança de poder se referir ao Pai simbólico. Em consequência, fizer que o Nome-do-Pai está foracluído é dizer que o Pai real não emergiu na qualidade e lugar de Pai simbólico. (…) o Nome-do-Pai está foracluído quando este significante é renegado no discurso da mãe (Dor, 1991, p. 106-107),
pode-se analisar trechos do filme em que a mãe é referida, o que pode dar algum entendimento sobre a relação imaginária de Leo e sua progenitora.
A mãe é quem salva Leo de ser assassinado pelo avô. Leo, ao contar isso, diz que “minha mãe tinha a força de um navio em um mar revolto”, em uma evidente demonstração de admiração. Em outra cena, aparece a grotesca mãe de Leo, enquanto este afunda o rosto entre seus seios, dizendo que “ela era quente e amorosa. Eu adorava me enterrar em sua gordura. O cheiro de suor me acalmava.” Além disso, ao contar sua história, Leo coloca a mãe como a única figura de amor, salvo o delírio com Bianca (de que se tratará mais adiante) e uma única cena com a Rainha Rita (sua irmã).
Sobre o pai, Leo diz que “era um homem comum. Um cão que mordia sua desgraçada vida. Ele era baixinho, corpudo, com as faces rosadas. Algumas rugas lhe marcavam o rosto. Elas revelavam apenas a sua idade. Algum lugar entre o ‘bom dia’ e ‘adeus’, um meio-dia eterno tocado por um punhado de tempo. Uma testa que se prolongava além do seu queixo, sobre um pescoço que emergia de ombros bojudos”. Há um nítido contraste entre a descrição da mãe e a do pai. Enquanto a mãe parece bondosa, quente etc., o pai aparece cobrando-lhe as fezes. Além disso, Leo não aceita que seu pai seja, de fato seu pai. Ele acredita que sua mãe foi fecundada por um tomate em que estava depositado esperma de um siciliano. Isso, segundo Leo, lhe foi revelado em um sonho. Por seu pai ser italiano, Leo Lozeau muda seu nome para Léolo Lauzonne, e sempre que lhe chamam de Leo ele grita dizendo que seu nome é Léolo Lauzonne – Léolo Lozeau-ne: não Lozeau, o que significa que seu novo sobrenome é um “não” ao sobrenome do pai. Pode-se depreender disso que Leo não aceitou a penetração da mãe. A mãe fora penetrada por um tomate, não por um pênis. Ela não precisou ser tocada por homem para concebê-lo. Não houve, então, desejo da mãe por homem algum para que Leo fosse gerado. Começa a delinear-se o caráter sexual do delírio.
Em outra cena, Leo, em uma aula sobre o corpo humano pensava que “ninguém falava daquilo que inchava entre minhas pernas. Não sabia seu nome, nem em inglês, nem em francês. Durante muito tempo, pensei que os ingleses não o tinham”. Considerando que na cena, Leo já era pré-adolescente, fica evidente a falta de diferenciação sexual que permeava o saber do menino até então. Pode-se especular uma relação entre isso e falta da função paterna, castradora.. Leo, na continuação da cena, está trancado no banheiro, com revistas pornográficas e descobrindo a masturbação. O próprio Leo, adulto, fala sobre essa descoberta: “não percebo mais a cor rosa. O rosa sujo, o rosa morto. Não sinto mais minha carne. Estou ausente. Cada vez mais vítima do prazer (…) eu estava obcecado”. Salienta-se nessa parte a relação entre uma descoberta de sua sexualidade e as alterações perceptivas descritas por Leo. Calligaris (1989, p. 36) comenta algo sobre a adolescência que merece ser citado
Sabemos com quanta facilidade crises psicóticas se desencadeiam na fase da adolescência, e podemos pensar tranqüilamente que a adolescência é um momento particular no qual o sujeito encontra uma injunção a situar-se falicamente, a tomar o falo e ir na vida, a referir-se a uma instância paterna, a entrar na vida “ativa”.
Ao longo do filme, há uma personagem por quem Leo é apaixonado. Uma menina um pouco mais velha que ele, Bianca. Ela cantava, à noite, de dentro do armário de Leo. Um delírio, obviamente. O garoto escrevia suas anotações, e ela aparecia. Ele via uma relação causal nisso. Ele diz em uma cena: “bastava eu ler e escrever, e ela voltava a cantar para mim”. Essa aparição era central no delírio do personagem. Ele importava-se muito com a menina, comparava-a à Sicília, sua “terra natal”.
Mais ao final do filme, Leo passa da masturbação à relação sexual com outra pessoa. Não com Bianca, mas com Regina, uma prostituta que iniciava sexualmente os garotos do bairro. Ele diz: “Eu não tinha coragem de assumir meu amor por Bianca. Eu me contentava com Regina”.
Logo após a iniciação por que lhe conduziu Regina, o filme mostra Leo, à noite, escrevendo, a fim de que Bianca aparecesse. O narrador, então, diz: “às vezes eu passava noites a ler e a escrever dezenas de páginas sem vê-la. Bianca tornara-se muito exigente. Ela sabia que eu a traíra com Regina e resolvera me punir”. Leo escrevia, mas Bianca não vinha; sem luzes no armário, nem Bianca cantando. Sem essa sustentação, Leo entra em uma crise catatônica.
Analisando, pode-se inferir uma relação entre a penetração que supostamente realizou em Regina (supostamente porque o filme não mostra explicitamente) e a crise que sucedeu a isso. Calligaris (1989, p. 20) refere que
No desencadeamento da crise existe sempre alguma coisa como uma injunção feita ao sujeito psicótico de referir-se a uma amaragem central, paterna. Ele não tem possibilidade de referir-se a esta amaragem que não foi simbolizada por ele, e a partir daí começa uma crise .
A partir disso, pode-se tentar compreender o que houve com Leo. Para ele, a mãe não foi penetrada por um homem. O seu pai (o siciliano) jamais penetrou a mãe. A mãe não necessitava de homem, a não ser do próprio Leo. Este, ao descobrir a masturbação, deu sinais de que algo estava ruindo: não via mais a cor rosa e houve mudanças cenestésicas. Penetrar uma mulher foi percorrer caminhos nunca percorridos pelo pai. Foi ser objeto de desejo de outra mulher, que não a mãe. Foi usar o membro que inchava entre suas pernas e de que ninguém falava. Foi assumir um lugar de homem que Leo não conhecia.
