Os mecanismos de defesa são, de certa forma, uma proteção do ego contra as exigências pulsionais. Todas as pessoas possuem mecanismos de defesa atuando em seu comportamento e pensamentos. O excesso desses mecanismos podem ser a indicação de sintomas neuróticos ou até de sintomas psicóticos, nesse segundo caso, principalmente, o excesso dos mecanismos de projeção, negação da realidade e divisão do eu.
“Podemos perceber que há uma relação importante entre defesa e divisão do eu. A constituição do sujeito como neurótico ou como psicótico, isto é, a estrutura constituinte, estaria relacionada ao modo como se operou primordialmente essa defesa do eu: essa seria a cisão constituinte” (D’agord, 2004). O que é referido aí são os dois processos pelo qual se inscreve o Nome-do-Pai no sujeito. “Tratando-se da neurose, o que está em jogo é o recalcamento, cujo retorno se constitui num sintoma; já, no caso do desmentido ou da recusa, estratégia do sujeito da perversão, o retorno é o fetiche; e o mecanismo de defesa da psicose é a foraclusão, tendo a alucinação como aquilo que retorna” (Aragão & Ramirez, 2004, p-101), ou seja, no caso da foraclusão o retorno é no real.
No presente trabalho, defendemos a hipótese de que Leo é um sujeito psicótico, defendendo também aí, a hipótese de que Leo foracluiu o Nome-do-pai.. Como podemos ver elementos no filme que nos deem indícios que esse mecanismo de defesa “primário” tenha operado no personagem? Pelo fato de Leo negar sua origem paterna – e aí temos um outro mecanismo de defesa operando: a negação – não se identificando com nenhuma das características do seu pai e não aceitando o nome (sobrenome) que viria a corroborar essa origem, ele nos dá pistas de que a função paterna não tenha sido exercida por esse pai, que parece incapaz de entrar, interditando a relação dual de Leo com a sua mãe, acaba assim se dando a foraclusão do Nome-do-pai.
A negação aparece, como mencionamos acima, na história de Leo quando ele, para solucionar a questão do seu nascimento, nega sua origem como advinda de seu pai real, criando assim uma história em que seu pai é um siciliano que se masturbava atrás de uma caixa de tomates que iam para a América. “O desenvolvimento gradativo do ego e do princípio de realidade reforça a experiência e a memória, lentamente enfraquecendo a tendência à negação” (Fenichel, 1981, p. 134). Na infância, essa negação tem um caráter importante, contemplada nos jogos infantis com um caráter lúdico e fantástico; nos adultos é só quando está severamente transtornada a função de juízo da realidade é que se mostram vitoriosas as negações sérias e importantes. Se pensarmos que Leo, ainda adulto, permanece negando sua origem, assim como fazia quando era criança, ele provavelmente esteja, a partir do que foi dito acima, com o juízo de realidade bem afetado.
Leo usa também o mecanismo da projeção em sua infância. Quando ele vai ao hospital visitar a sua família inteira que está internada, presume-se que quem verdadeiramente está internado no hospital é Leo e que a sua concepção não passa de uma projeção. “Na projeção as emoções ou excitações que o ego tenta rejeitar são “cuspidas” e depois sentidas como estando fora do ego” (Fenichel, 1981, p. 136). Isso só ocorre quando não se demarca com nitidez a linha que separa o ego e o não-ego, o que é próprio das psicoses e dos primeiros anos da infância
A sublimação não é um mecanismo de defesa propriamente dito, ou melhor, ela pode ser considerada um mecanismo de defesa bem sucedido, onde, segundo Fenichell (1981), sob influência do ego, a finalidade ou objeto se transformam sem bloquear a descarga adequada. “Na sublimação cessa o impulso original pelo fato de que a respectiva energia é retirada em beneficio da catexia de seu substituto” (Fenichell, 1981, p. 131-132). Poderíamos dizer que Leolo usa o mecanismo da sublimação na medida que usa escrita como uma forma de escapar de sua loucura. Como podemos ver, atuavam em Leo diversos tipos de mecanismos de defesa de uma maneira que fica marcado o seu fraco princípio de realidade como, por exemplo, na projeção, onde o personagem deixa bem marcado a sua não divisão nítida entre o eu e o não-eu. Podemos perceber que os principais mecanismos de defesa que atuam em Leo são aqueles que mencionamos acima como os que, em demasia, caracterizam as estruturas psicóticas.
