
Por Dr. Alexandre Arenzon – 10/07/25
Ele pode não ser um modelo de beleza, mas certamente é um excelente modelo de organismo-teste.
Na ecotoxicologia aquática, escolher a espécie modelo ideal pode fazer toda a diferença — seja porque sua sensibilidade representa os demais organismos do ambiente aquático, seja por permitir que diferentes métodos de ensaio sejam empregados, gerando resultados representativos.
Originário da América do Norte e adaptado a condições de laboratório, o fathead minnow (Pimephales promelas) tem desempenhado um papel crucial na compreensão dos efeitos de substâncias químicas nos ecossistemas aquáticos de água doce. Sua importância está relacionada a uma série de características que o tornam ideal para ensaios padronizados: ciclo de vida curto, facilidade de cultivo em laboratório, sensibilidade a contaminantes e ampla base de dados toxicológicos disponíveis.
Apesar de sua ampla utilização regulatória na América do Norte — onde é um dos pilares para a avaliação de risco ambiental —, a aplicação do Pimephales promelas no Brasil ainda enfrenta desafios. Duas normas da ABNT o indicam como organismo-teste para ensaios de toxicidade aguda e crônica. Contudo, sendo uma espécie exótica, sua importação requer processos de autorização prévia complexos. Isso contrasta com o peixe-zebra (Danio rerio), de origem asiática e igualmente presente nas normas da ABNT, mas comercializado livremente no Brasil.
Os métodos de cultivo do P. promelas são bem definidos e viáveis para implementação em laboratório. Essa característica permite uma produção eficiente de organismos, suprindo a demanda para os mais diversos tipos de ensaios toxicológicos.
Do ponto de vista regulatório, a United States Environmental Protection Agency (USEPA) emprega amplamente ensaios de toxicidade aguda (sobrevivência) e crônica (sobrevivência e crescimento corporal) com Pimephales promelas. Além disso, metodologias estão disponíveis para avaliação de estágios iniciais do desenvolvimento, reprodução e para investigar os efeitos de substâncias químicas classificadas como desreguladores endócrinos. A robustez e a aceitação internacional desses métodos reforçam a credibilidade dos dados gerados por meio deste modelo.
No Laboratório de Ecotoxicologia da UFRGS, aprimoramos constantemente o método de cultivo do Pimephales promelas, garantindo maior taxa de eclosão e sobrevivência dos alevinos produzidos. Além disso, estamos implementando o método de avaliação com os estágios iniciais do desenvolvimento e desenvolvendo ensaios comportamentais de fácil implementação, contribuindo para ampliar o uso dessa espécie em estudos ecotoxicológicos no Brasil.
Referências:
- Ankley, G.T., Jensen, K.M., Kahl, M.D., Korte, J.J. and Makynen, E.A. (2001). Description and evaluation of a short-term reproduction test with the fathead minnow (Pimephales promelas). Environmental Toxicology and Chemistry, 20: 1276-1290. https://doi.org/10.1002/etc.5620200616
- Ankley GT, Villeneuve DL. The fathead minnow in aquatic toxicology: past, present and future. Aquatic Toxicology. 2006 Jun 10;78(1):91-102. doi: 10.1016/j.aquatox.2006.01.018.
- S. Environmental Protection Agency. (2002). Method 1001.0: Fathead Minnow, Pimephales promelas, Larval Survival and Teratogenicity Test; Chronic Toxicity. EPA-821-R-02-013.
- S. Environmental Protection Agency. (2002). Fathead Minnow (Pimephales promelas) Larval Survival and Growth Toxicity Tests. EPA-821-R-02-013.
