Por Julio Alberto Alegre Stelzer, Raquel Freiry, Luana Bauer e Alexandre Arenzon
Em muitos países o ensaio de toxicidade agudo com peixes é considerado obrigatório para a avaliação do risco de efluentes e / ou o monitoramento ecotoxicológico. Dentro deste cenário um número relevante de países baseiam-se nos protocolos ISO 7346-1 ou OECD 203, ou ainda protocolos nacionais com pequenas diferenças. Esses dois protocolos determinam o uso de peixes na fase juvenil/adulta, em uma faixa de comprimento de 2 ± 1 cm, a qual não é diretamente associada à idade do organismo. Devido aos altos custos envolvidos em um cultivo em laboratório e ao tempo de manutenção necessário para estes atingirem o comprimento de exposição requerido (± 60 dias), a terceirização da fonte de peixes tornou-se uma prática regular nos laboratórios de ecotoxicologia. Com frequência a qualidade dos peixes terceirizados é geralmente desconhecida, assim como sua idade, sensibilidade, seleção artificial prévia ou ainda a exposição primária a substâncias tóxicas e / ou farmacêuticas. Diante dessa complicada realidade uma questão persiste: O quão confiáveis são estes lotes comerciais para ensaios de toxicidade aguda?
Comparamos a sensibilidade de exemplares de zebrafish (Danio rerio) provenientes de cultivos em laboratório com a sensibilidade de exemplares obtidos de um distribuidor comercial que, com frequência, fornece organismos para laboratórios de ecotoxicologia. Executamos 4 baterias de ensaios usando larvas (de laboratório), juvenis (de laboratório) e juvenis comerciais com 3 substâncias de referência (NaCl, KCl e CuSO4) para determinar as LC50 seguindo a OECD 203.
Como resultado observou-se uma significativa redução na sensibilidade dos exemplares provenientes de fonte comercial. Para as três soluções ensaiadas os peixes comerciais apresentaram um sensibilidade 1,4 a 5 vezes menor quando comparadas aos ensaios com larvas de zebrafish criadas em laboratório. Da mesma forma, a sensibilidade dos peixes de origem comercial foram de 1,1 a 2,5 vezes menos sensíveis que os juvenis provenientes de laboratório.
Embora existam critérios genéricos para a obtenção de organismos de fontes externas para ensaios de toxicidade, este controle pode não ser muito eficiente e, em alguns casos, de difícil implantação. Não podemos esquecer que estes organismos atuam como modelos para prever os efeitos que as espécies naturais do ambiente podem sofrer. Assim, como consequência do uso de organismos menos sensíveis, podemos perder o poder preditivo na avaliação do risco de efluentes e no controle geral da poluição. Você ou o Órgão de Fiscalização Ambiental de sua região avaliam de forma crítica a origem de seus organismos-teste para ensaios de toxicidade como uma prática de rotina?
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