Estudante de enfermagem realiza estágio curricular no Distrito Sanitário Indígena – Relato de experiência

Trajeto entre a Escola de Enfermagem e a aldeia Anhetengua

A estudante de graduação em enfermagem da UFRGS, Araci da Silva (Ywa Mbya), é a primeira a realizar o estágio curricular da nona etapa da graduação em enfermagem na atenção básica do Distrito Sanitário Indígena localizado em Viamão, o qual atende uma grande área geográfica, que vai de Palmares à Itapuã. O estágio conta com o acompanhamento do enfermeiro Geraldo Schneider de Mello, que tem grande experiência na saúde indígena.

As atividades iniciaram em 17 de novembro de 2022, com o semestre de 2022/2 e vêm se desenvolvendo nas aldeias indígenas compreendidas no território geográfico. A equipe tem um repertório de visitas semanais às comunidades, que envolvem áreas demarcadas e também áreas de retomada, com acampamentos.

No dia 25 de janeiro de 2023, a professora Daniela Dallegrave, orientadora e supervisora do estágio, acompanhou as atividades realizadas na comunidade Anhetengua, localizada no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. No local, vivem aproximadamente 50 famílias, providas de escola e unidade de saúde. A equipe sempre é acompanhada por Zico da Silva, que é enfermeiro, chefe da equipe, cacique na sua comunidade e irmão da estudante Araci. A comunidade reconhece a importância de ter um profissional da saúde que conheça seus costumes, sua cultura e, principalmente, que saiba falar a língua guarani, para que seus sofrimentos e necessidades de cuidado sejam traduzidos para o português, para compreensão dos demais profissionais.

A dinâmica de trabalho envolve busca espontânea pelo atendimento. O acolhimento é realizado por todos, com um “javyju” (saudação em guarani). Os enfermeiros são o primeiro contato, com a coleta da demanda de maneira informal, mas sistemática e organizada. Há um grande enfoque na atualização das carteiras vacinais das crianças e também em situações agudas, como foram alguns atendimentos realizados na manhã da saída de campo, em que foram identificadas pessoas com sintomas semelhantes, indicando algo de transmissibilidade familiar. O técnico de enfermagem realiza a triagem e encaminha para o atendimento com enfermeiro ou médico, conforme a demanda. Há também os profissionais odontologia. Compõem a equipe dois motoristas, um deles é egresso do curso de fisioterapia da UFRGS, não indígena e fluente em guarani.

Para a professora Daniela, a oportunidade de acompanhar um estágio com essas características e especificidades é um grande motivo de alegria, desestabilizando formas cristalizadas de tratamento na racionalidade biomédica, pouco efetivas em contextos como este e produzindo reflexões sobre composições complexas de cuidado, algo imprescindível na formação de profissionais da enfermagem. Ainda, a integração de saberes, reconhecendo a riqueza da cultura dos povos originários e seus conhecimentos sobre uso medicinal de ervas, requer um profissional sensível e aberto, portanto, ter uma estudante indígena neste espaço garante a integralidade do cuidado.

De acordo com a estudante Araci da Silva (Ywa Mbya), a escolha de estagiar na SESAI foi muito assertiva. “Na faculdade fala-se muito pouco sobre a saúde indígena, acredito que deveriam falar mais sobre essa população e mostrar mais sobre a realidade de cada aldeia. Os mbya tem sua própria visão de saúde e é diferente da visão de saúde que o jurua (aquele que não é indígena) tem. Enquanto que a saúde jurua trata a doença, a saúde mbya trata do indivíduo. Por isso, sempre falamos que o profissional jurua que for trabalhar com a saúde indígena precisa se desconstruir porque as formas de saúde são muito diferentes. Como estagiária, eu, todos os dias, equilibro aquilo que aprendi na faculdade, não posso colocar exclusivamente o conhecimento jurua nas aldeias porque nós temos nosso próprio conhecimento. Então, sempre coloco um pouco do conhecimento jurua e um pouco do conhecimento mbya. A língua também tem sido um fator muito importante, pois tem pessoas que não se expressam muito bem, tem pessoas que nem falam o português e eles sempre me chamam para explicar ao médico seus sintomas. Estou amando o estágio, agradeço a professora Daniela por estar junto comigo nessa caminhada. Ela tem sido um apoio muito importante pra mim, principalmente na faculdade, um mundo que até então não era para nós, os indígenas, e saber que tem gente que nos apoia faz com que a gente vá até o fim”.

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