A bruxinha dos telhados e o tigre Aleph [Histórias para os netos 3 – De sangue e de coração]

Kanka oferece esta história para Nina,
neta do coração, com amor.
Porto Alegre, 19 de junho de 2020.
Quarentena

Era uma vez uma época, situada no futuro, em não existia mais o maldito Coronavírus. Nessa época, na Cidade Alegre, vivia uma menina chamada Nina, que também era chamada de Felipa ou de Eisinha, dependendo da hora do dia. Ela era muito posicionada e inteligente: sabia desenhar, cantar, dançar e fazer perguntas difíceis. Nina descendia de uma Raça Antiga, muito importante para a Terra e para a humanidade, que era o Povo das Bruxas. Por haver nascido com um Espírito Antigo, Eisinha era uma menina difícil, pois tinha um problema, o qual, dependendo como se olhasse, poderia ser visto como uma rara qualidade, que era o seguinte: ela “não gostava de autorizar”. A mãe de Nina era uma bailarina francesa e o pai era um poeta uruguaio. Quando aconteceu esta nossa história, Nina tinha quase 4 anos de idade e muitos segredos, dos quais vou contar só um.

Desde antes de Nina nascer, seus pais tinham duas cachorrinhas, a Nice e a Nicinha. Então, quando completou dois anos, Felipa disse que queria de presente um animal de estimação só para si. Ela ganhou um Coelhinho Chinês, de pelo branquinho, que jogava xadrez, contava até três e só falou uma vez. Esta única vez em que o Coelhinho falou foi assim: certa noite, depois do jantar, Nina e o Coelhinho foram dormir. Eles dormiam na cama da menina, cada um com o seu cobertorzinho. Depois de falar, pela primeira vez, no ouvido de Nina “Eu te amo”, o Coelhinho desmaiou e morreu do coração, de tanto amor. Nina chorou durante muitas horas de saudades do seu amigo. Quando o dia estava quase clareando, e ela estava exausta de tanto chorar, ouviu um barulhinho embaixo da sua cama. Olhou, e, então, o que a Bruxinha viu?

Ela viu o seu primeiro Amigo Imaginário. Adivinhem qual era ele? Um lindo filhote de Tigre de Bengala, com o pelo formado por listras pretas e amarelas e carinhosos olhos verdes. Era um Tigre que sabia falar com as crianças. A primeira coisa que o Tigre disse à Nina foi a seguinte: – Oi, muito prazer. O meu nome é Aleph e tenho três tigres irmãos que comem três pratos de trigo cada um, e eu também. Vim para morar contigo e ser o teu Amigo Imaginário, que somente tu verás. Sou um filhote, mas já sei muitas coisas, porque a vida dos Tigres Imaginários é muito diferente da vida de todos os outros seres. Ficarei morando contigo e sendo teu Amigo, mediante três condições: a primeira é que o teu pai e a tua mãe não podem saber que eu sou o teu Amigo Imaginário; a segunda é que eles não podem nunca perceber que viverei debaixo da tua cama; a terceira é que, em alguma noite de algum dia do mês, quando houver lua cheia, nós dois partiremos numa aventura, para aprenderes a coisa mais importante da vida de qualquer pessoa; só que não posso dizer o que será. Quando eu estiver debaixo da tua cama, vou me transformar, ora em um ser invisível, ora em uma esfera, de cor indefinida, de 2 a 3 centímetros de diâmetro, onde cabem todos os lugares do mundo e é possível vê-los de todos os ângulos. Por isso, o meu nome é Aleph. Terás de trazer, para eu comer, três pratos de trigo por dia e três bacias de água para eu beber. Queres e consegues fazer isso, Felipa?  – Quero muito, respondeu Nina, que mores comigo e que nunca me deixes, prometes? – Sim, eu te prometo, pela luz da floresta, respondeu Aleph.

Nina engoliu o choro, que ainda restava, porque ficou faceira pelo Amigo Imaginário. A bailarina, o poeta e Eisinha enterraram o Coelhinho Chinês no pátio da casa e a menina lhe levava uma florzinha todo o dia. Quanto ao novo Amigo, durante o dia, ficava quietinho e quentinho debaixo da cama de Felipa, às vezes, invisível; e, quando queria visitar os lugares do mundo, entrava na bolinha Aleph. Quando a menina saía para passear com os pais ou com os avós, Aleph (invisível para todos, menos para Eisinha), também fazia seus passeios, corridas e exercícios, além de visitar os outros Amigos Imaginários, espalhados pelo mundo, e tomar sol no pátio. Porém, muitas vezes, Aleph também ia passear ou viajar junto com a família de Nina, sob a forma de bolinha, dentro da sua mochila…

Quando eles retornavam, Aleph voltava ao esconderijo e Nina arrumava um jeito de levar-lhe trigo e água, sem ninguém ver. Um dia, sua mãe disse:  – Felipa, tenho sentido um cheiro estranho de animal em teu quarto… Nina respondeu: – Mãe, só pode ser fantasia tua. Vai ver é porque eu tenho desenhado muitos felinos da floresta. Deve ser isso… A mãe não ficou lá muito satisfeita com a explicação de Felipa, mas fez uma faxina no quarto e, não encontrando nada, achou que fosse impressão dela própria ou que o cheiro viesse das cachorrinhas, que foram eram então levadas ao banho.

Após um mês, depois de Aleph ter ido morar na casa de Eisinha, o Tigre sussurrou-lhe baixinho: – Hoje é a primeira noite de lua cheia. Por isso, vamos sair juntos, pela primeira vez, para começar a nossa aventura. Nina queria que ele contasse logo o que seria, mas ele disse que não podia. Durante todo aquele longo dia, que não passava nunca, Nina não conseguiu se concentrar em nada, nem nas coisas que mais gostava de fazer, como ir ao clube, sair para comer pizza, escutar e inventar histórias, etc. Estava ultra curiosa para saber qual seria a aventura que Aleph iria ajudá-la a viver.

Mas, como sempre acontece, o dia acabou passando até chegar no banho, pijama, história, desenho, janta, escovar os dentes, xixi, boa noite. Todos da família foram dormir. Nina deitou, tapou-se e ficou de mãos dadas com o Tigre. Quando o relógio da casa bateu as 24 badaladas, da meia-noite, Aleph e Nina levantaram-se, pé-ante-pé. Nina vestiu um casaco com capuz e, seguindo o conselho do Tigre, ficou de pés descalços, para não ter perigo de escorregar dos telhados. Um atrás do outro, saíram pela porta da área interna da casa. No meio do pátio, existia um imenso pé de feijão, que a bailarina e o poeta tinham plantado em homenagem à Eisinha. A Menina e o Tigre subiram pelos galhos do pé de feijão até chegar no labirinto dos telhados das casas e dos prédios.

Lá em cima, Nina e Aleph saltitavam, com pés leves e silenciosos, sobre os telhados. De vez em quando, para espantar o medo, Nina chamava o vento ou a água; Aleph chamava o ferro ou o fogo; e, quando o medo era grande, os dois amigos juntos chamavam a madeira ou a pedra. E seus passos miúdos iam longe, mas tão longe, até que chegaram no antigo Castelo dos Livros, que ficava num lugar, chamado Chácara das Pedras. Lá, vivia a Bruxa Arcanista, que tinha 370 anos de idade, rodeada por um trilhão de livros. O maior poder dessa Bruxa (se vocês ainda não adivinharam!) era ajudar as crianças a ler e a escrever, naquele Castelo dos Livros que, como o nome diz, era todo feito de livros: o chão, os muros, as paredes, as portas, as janelas, as torres, as chaminés, os tapetes, as cortinas, os quadros, até mesmo todos os móveis, camas, mesas, cadeiras, escadas, armários, escrivaninhas, prateleiras, banheiros… tudo.

Aleph e Felipa chegaram, bateram na enorme aldrava de cobre, em formato de Cabeça de Urso. E nada, ninguém veio atender, não se ouviu nenhuma voz, nenhum som. Só restava o silêncio. A Bruxinha ficou indignada. Quanto mais a Bruxa Arcanista demorava para atender, mais Aleph tinha dificuldade de acalmar Nina que estava muito braba. Até que, de tanto baterem a aldrava, a Bruxa veio abrir o portão, com uma imensa capa feita de livros. Disse ela, irritada: – Quem bate com tanta força em meu portão, no meio da madrugada, sem ter avisado antes? Quem ousa ficar tão furiosa em meu próprio castelo? Felipa disse: – Vim com o meu Amigo Imaginário, o Tigre de Bengala, de nome Aleph, até aqui, cruzando telhados de meia cidade para lhe pedir um favor. A senhora pode me ensinar a ler e a escrever? Não aguento mais de vontade de ler todos os livros de minha casa, de todas as bibliotecas da cidade, do estado, do país, do mundo, de fora do mundo, de todos os Planetas… Mas todos dizem que ainda sou pequena demais para ler-e-escrever, só que não posso esperar nem um minuto mais! Cansei! E gritando: – Não autorizo que eu não saiba nem ler nem escrever!!!

A Bruxa Arcanista respondeu-lhe, calmamente:  – Sim, menina, por que não? Este desejo de ler-e-escrever é o mais belo de todos os desejos.  Se aprenderes o mundo das letras, milhões de outros mundos se abrirão para ti e para os outros. Eu te ensinarei, sim, com uma condição: não podes contar para os teus pais… – Mas, por que? Eles iriam ficar tão contentes?, perguntou Eisinha. – Porque, respondeu a Bruxa, és ainda muito pequena, não tens nem 4 anos. E se o teu pai e tua mãe virem que estás lendo e escrevendo, transformada numa pequena, porém competente escrileitora, eles ficarão tão, mas tão, mas tão felizes, que poderão arrebentar de felicidade, estourar de alegria e de amor, feitos dois balões.

– Ai, como o meu Coelhinho Chinês, que estourou de amor? Isso eu não quero. Eu amo muito a bailarina e o poeta, desde antes de nascer. Faço o quê, então, Bruxa Arcanista?

– Eu te ensinarei a escrever e ler, em três noites de lua cheia, a começar por hoje. Então, depois da aula de hoje, voltarás para casa, e tu e Aleph lavarão os pés e as mãos e se deitarão em suas camas, como se nada houvesse acontecido.

– Ah, falou Nina, acho que não vai dar certo, Arcanista! Porque Aleph, quando chega em casa, mesmo que ele fique quietinho em baixo da minha cama, no canto mais afastado, minha mãe anda sentindo o cheiro dele de Tigre. Também, nos últimos dias, as duas cachorrinhas, que temos lá em casa, de vez em quando, vão perto da minha cama, cheirar, mas nada descobrem, o que preocupa mais ainda a minha mãe. Como ele é meu Amigo Imaginário, ninguém lá em casa, sabe que ele existe, apenas eu. E se, além de cheiro de Tigre, começarem a sentir cheiro de letras, de livros, do Castelo e de própria Bruxa Arcanista, perto de mim e dele?

– Vocês terão de encarar os riscos de ficarem com cheiro e com jeito de escrileitores, porque também Aleph os adquirirá, embora ele já saiba ler e escrever, quando está dentro da esfera. Amanhã, o dia deve começar normal para toda a família. Vocês não podem contar as aventuras da noite, nem revelar a minha existência, nem escorregar no pé de feijão, nem fazer cócegas um no outro quando estiverem chegando em casa. Precisam ser discretos. Voltem, ajam normalmente e vão descansar. No outro dia, pela manhã, façam de conta que tudo foi apenas um sonho. Quando chegar a noite novamente, e todos forem dormir, sem ninguém ver, vocês poderão começar a ler todos os livros da casa, com uma lanterninha ou com a chama de uma vela.

– Depois, quando chegar novamente a primeira noite de lua cheia do mês, e todos forem dormir, à meia-noite, Aleph sairá da forma esférica, se transformará num Tigre de Bengala, tu botarás um casaco de capuz e, caminhando pelos telhados, sem serem vistos, vocês voltarão, pela segunda vez, ao meu Castelo dos Livros. Então, me contarão quais foram as dificuldades que enfrentaram, de quais livros mais gostaram, quais livros não entenderam, quais detestaram, e assim por diante. Teremos nossa segunda aula. E, após, no terceiro mês, teremos a terceira e última aula.  Eu ajudo até três vezes. Depois, vocês se virarão sozinhos.

E assim aconteceu. A Bruxa levou Aleph e Nina para a gigantesca Biblioteca do Castelo. Lá, em meio a dezenas de prateleiras, feitas de livros e cheias de livros, havia um imenso Espelho Mágico, que se tornava branco quando as pessoas dele se aproximavam. A Bruxa Arcanista abriu um livro na frente do Espelho, jogou, em cima dele, milhares de Formiguinhas Mágicas das miudinhas e disse o título do livro que, naquela vez, era O mundo de Sofia: uma aventura na filosofia. (Não sei se vocês conhecem!) Então, as Formiguinhas começaram a se organizar por toda a superfície do Espelho, formando palavras, frases e parágrafos, pois elas eram as letras vivas do livro. Ao mesmo tempo, o Espelho Mágico começava a ler em voz alta a história. Nina e Aleph, enquanto isso, maravilhados, olhavam, escutavam e tocavam de leve as palavras e iam aprendendo a escrileitura; pois, às vezes, entre um capítulo e outro, a Bruxa Arcanista orientava que eles escrevessem, contando com as suas próprias palavras, o que já tinham lido.

Depois da primeira vez, por dois meses seguintes, o Tigre e a Menina voltaram ao Castelo dos Livros, até que a Bruxa deu por encerrada a sua tarefa. Houve uma quarta noite de lua cheia, na qual Felipa e Aleph voltaram para a Chácara das Pedras, mas foi para deixar, no portão, uma linda cesta de café da manhã, flores e uma carta de agradecimento. No restante do tempo, passavam grande parte das noites lendo. Quando iam na FACED com o poeta, Eisinha botava Aleph no bolso do casaco e, em vez de irem nas aulas ou reuniões, escapuliam e se escondiam, num cantinho da Biblioteca da Faculdade para ler todos os livros que pudessem. Depois comentavam entre eles tudo o que tinham lido, traduziam, tomavam notas em suas Cadernetas de Escritor e inventavam novas histórias, com base naquelas que tinham lido.

Por fim, depois de muitos anos, a Menina e o Amigo decidiram que tinha chegado a hora de começar a escrever seus próprios textos e livros. E assim foi. Esta história que termina aqui é a primeira história do primeiro livro, dentre os dez mil livros, que eles escreveram juntos, enquanto duraram as suas vidas, que foram muito longas. Os nomes dos autores, com os quais assinavam todos os livros, davam entrevistas, cursos e aulas, promoviam sessões de autógrafos, acabaram ficando assim, depois de muita discussão: o dela era assinado NINA FELIPA LAMELA TESTA e o nome dele era assinado ALEPH ADÓ.

Era uma vez, uma história de dois amigos, que viveram, leram e escreveram juntos, felizes e realizados para sempre. Entrou por uma porta, saiu pela outra, quem quiser que conte outra…

FIM

* Observação. Se você ficou curioso para saber qual a forma com que Aleph Adó se apresentava, quando os dois autores tinham que estar em público: se era como uma bolinha no bolso de Nina; se era totalmente invisível ou com uma capa vermelha nos ombros; se era como um Tigre de Bengala ou como um Coelhinho Chinês; se era como um Hobbit ou como um Troll; se era como um Bruxo ou como um lindo rapaz de cabelos pretos e olhos amarelos ou de cabelos amarelos e olhos verdes… Se você quer saber se, algum dia, a mãe bailarina conseguiu ver Aleph ou se o poeta pai viu o vulto do Tigre subindo pelo pé de feijão… Se você quiser saber se a Bruxa Arcanista viveu por mais tempo… Bem, se você ficou curioso para conhecer esses e outros detalhes e desdobramentos desta história, terá de esperar que Nina-Felipa-Eisinha e o seu Amigo  Imaginário Aleph contem a segunda parte desta história, que agora terminananananananananananananananannanananananannanananananananananan…

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