Mestre Churrasco
Capoeira – Vida
Eu olhei e falei: “Bah, mas o que é aquilo ali, tchê?” Mas não tinha berimbau, eram só uns batendo palma. E eu: “Que é aquilo ali?”; e me falavam: “Aquilo ali é capoeira”. E eu: “Mas capoeira não é aquilo que a gente faz?” – “Não, aquilo ali que é capoeira”. (Mestre Churrasco, 2013)

Esta exposição digital é um esforço coletivo do Museu da UFRGS de expressar a relação de Jean Batista Cleber Texeira dos Santos, conhecido como Mestre Churrasco, com a capoeira. O fio condutor da narrativa é a conexão de campos temáticos existentes no “microscomo” desse capoeirista.
As fotos escolhidas são oriundas de registros do Mestre Churrasco feitos por pessoas ao longo dos anos e também são fruto de seu próprio trabalho como fotógrafo. Algumas foram digitalizadas para servir de conteúdo para a mostra, outras já nasceram em formato digital. Além disso, parte delas compõe o acervo pessoal do mestre, outras foram produzidas por artistas independentes.
Portanto, há uma multiplicidade de formatos, intenções e autores que se materializam nas imagens aqui retratadas. Além disso, outra fonte presente na mostra são os relatos do próprio Mestre Churrasco, que emergiram através da oralidade.
Mestre Churrasco foi um dos precursores da capoeira no estado do Rio Grande do Sul. Começou sua vida como engraxate no centro da Capital gaúcha, onde vislumbrou a capoeira, jogada por marinheiros e estivadores. Na década de 1970 conheceu seu mestre, que lhe iniciou nos fundamentos dessa expressão cultural. Desde então trilhou sua caminhada como praticante, mestre e estudioso dessa representação popular que mistura, dança, alegria, concentração, habilidade, diversão, luta e arte: a capoeira.
Jean Batista Cléber Teixeira Santos
O Mestre Churrasco

Só que eu passei por várias dessas crianças, daqueles movimentos que tinha semelhantes à capoeira. Sempre na briga com eles, me davam muita rasteira, rasteira de pé, que chamava de capoeira. (…) Aquilo já eram os princípios da capoeira, que aquela criançada ali estava sempre na beira do porto observando os estivadores (…) E sempre os marinheiros levavam vantagem por causa das rasteiras, davam muitas rasteiras e o pessoal chamava aquilo de capoeira. “O fulano deu uma capoeira no fulano”, até hoje se fala, “deu uma rasteira”, “deu uma capoeira”. E a criançada ali do centro observou aqueles movimentos e acrescentou na briga deles – e ficou. (Mestre Churrasco, 2013)
Saberes da natureza
Eu sou um dos únicos capoeiristas que dou treinamento na capoeira, se chama “capoeira na capoeira”. A gente passa o dia inteiro no mato, treinando capoeira dentro do mato, em lugares que não tem trilha, em cima de árvore, é um treinamento totalmente diferente. Ali eu dou um treinamento sobre plantas medicinais, ensino sobre plantas medicinais e alguma coisa assim, sobre algumas plantas que tem no mato, conhecimento de cipó, minha área é essa aí. E é um treinamento diferente daquele negócio da academia, é uma coisa bem diferente, bem ecológico mesmo. (Mestre Churrasco, 2013)

Para o Mestre Churrasco, o aprendizado da capoeira está intrinsecamente ligado à sua relação com o ambiente natural. Locais verdes, arborizados, que são o seu local de treinamento pessoal, de extração de madeira para a fabricação de seus berimbaus, de coleta ervas folhas e plantas que curam o corpo e a alma. Local de reflexão, de sintonia com a natureza, de realização de rodas de capoeira.












Ali (na roda de capoeira) tem a música, uma música estranha que o berimbau aponta para cima, é o arco musical, uma ponta está apontando para terra e a outra para o céu. E se for descrever a trajetória dele circular, que faz toda uma volta que vem da terra, passa pelo céu e volta e termina, mas é uma trajetória invisível. E ali dentro da roda há outro círculo também, um na vertical e outro na horizontal, que é o círculo humano dos capoeiristas. (Mestre Churrasco, 2013)
Força, ritmo e poesia
Porque o que move o capoeirista, até antes da roda de capoeira, é a parte musical. O ritmo do berimbau influencia sobre o capoeirista e ali ele se transforma de acordo com a musicalidade. Tem alguns capoeiristas que têm a sensibilidade de transmitir essa energia através de um berimbau bem-tocado e um canto apropriado. (…) Até hoje mesmo tem berimbaus diferentes capazes de mexer com certas estruturas da pessoa junto à roda completamente diferentes, estrutura sutil o cara tem. (Mestre Churrasco, 2013)

A roda de capoeira possui uma musicalidade própria que é indissociável da sua execução. O Mestre churrasco sempre julgou de suma importância para o seu desenvolvimento, para a circulação de uma boa energia nela, um “berimbau bem tocado” e um “canto apropriado”. Dessa forma ele buscou conhecimento sobre os cantos e seus significados e também se tornou um mestre na produção de berimbaus dos mais diversos formatos e sons, ao ponto de se auto-intitular como um “berimbauzeiro”.
Vivência da disciplina “Encontro de Saberes” da UFRGS, no Campus da Saúde em Porto Alegre. Marco Poglia. 2018.


Mestre Churrasco

Instrumentos de capoeira do Mestre Churrasco na Vila Mato Sampaio, Bairro Bom Jesus, Porto Alegre.






Conexões com o sagrado
Eu tiro o que as religiões têm de bom. Eu muita verdade religião. (…) Só que eu não fixo em nenhuma, acredito em Deus. (…) Dentro da minha capoeira tem um pouco de religiosidade, mas é individual. (…) A capoeira tem uma democracia de religião dentro dela, cada um tem a sua e transforma num campo energético muito forte. (…) Aquela corrente que está um crente, um batuqueiro, um católico, um ateu que não crê em nada, todos numa mesma energia. Os tocadores de música ali, pandeiro, atabaque, reco-reco, caxixi. Então, na realidade uma roda de capoeira não é algo comum não (…) (Mestre Churrasco, 2013)

Mestre Churrasco diz que não “carrega religião” nas costas, mas isso não significa afastá-la da vida capoeirista, pelo contrário. Significa não defender uma fé específica e respeitar todos os credos. E além disso, ele próprio possui a sua espiritualidade, conectada com os saberes e os fazeres da capoeira. Essa expressão do sagrado, sincrética, manifesta-se na crença dos Santos da Igreja Católica (Deus, Jesus Cristo, a Virgem Maria), interligados com as forças da Natureza (supremo equilíbrio forças magnéticas, energia lunar).



“Alimentar o Corpo e o Espírito” - Arquivo Pessoal. 2020.



Mestres, alunos e amigos
Em 1972 comecei com o Mestre Cal. Aí treinei com ele até 1976, quando foi meu batizado (…) Aí peguei minha graduação e fui fazer meu trabalho, fiz minha história. (…) Fui buscar conhecimento no Rio de Janeiro. Encontrei vários mestres lá. Depois comecei a frequentar as rodas de rua do Rio de Janeiro. As rodas de beira de praia, que eram as mais fortes do Rio. (…) A capoeira na época era acrobática, rasteira e não era lenta embaixo, era ligeira. Jogo rápido, rasteiro e bonito. Depois o contraste deu quando eu cheguei lá na Bahia, onde me disseram que a capoeira tinha que ser bem lenta. (Mestre Churrasco, 2013)

O mestre é a autoridade que comanda a roda de capoeira e também o guardião dos saberes capoeirísticos, os quais transmite através da oralidade. É um modelo que indica caminhos em um processo ativo de trocas de conhecimentos, não apenas para o jogo da capoeira, mas também para a vida, no qual uma relação pessoal e afetuosa se estabelece entre professor e aluno. Nesta jornada, Churrasco foi primeiro aluno, depois mestre, conhecendo capoeiristas de várias regiões do Brasil. Construiu saberes, aprendeu formas de jogar capoeira e estabeleceu laços de amizade, irmandade e confiança que permanecem até hoje.



Foto 2: Roda de capoeira em um projeto social na cidade de Guaíba onde o Mestre Churrasco dava aulas. Anos 2000. Arquivo Pessoal.




Foto 2: Alunas de capoeira na cidade de Sapucaia do Sul (RS). Arquivo Pessoal. Década de 1980.


Foto 2: Roda de Capoeira da ACAZUP em Porto Alegre. Década de 1970.










MESTRE CHURRASCO NO TEMPO
Anos 1950
Em 01/01/1956, nasce Jean Batista Cléber Teixeira dos Santos, na cidade de Porto Alegre.
Anos 1960
Inicia seu trabalho como engraxate no centro da cidade de Porto Alegre. Nos anos seguintes foi também sapateiro, marceneiro e estivador.
Começa a jogar capoeira em meio a grupos de adolescentes. Os locais preferidos para as rodas são a Usina do Gasômetro e o Cais do Porto, na capital gaúcha.
Anos 1970
Entre os anos 1972-1976, inicia seu aprendizado de Capoeira de Angola com o Mestre Henri Carlos Xavier da Silva (Mestre Cal).
Começa a promover rodas de capoeira no Parque Marinha do Brasil com seus amigos do Bairro Bom Jesus, Porto Alegre.
Cria o grupo de capoeira “Zumbi dos Palmares” com seus amigos capoeiristas.
Anos 1950
Em 01/01/1956, nasce Jean Batista Cléber Teixeira dos Santos, na cidade de Porto Alegre.
Anos 1960
Inicia seu trabalho como engraxate no centro da cidade de Porto Alegre. Nos anos seguintes foi também sapateiro, marceneiro e estivador.
Começa a jogar capoeira em meio a grupos de adolescentes. Os locais preferidos para as rodas são a Usina do Gasômetro e o Cais do Porto, na capital gaúcha.
Anos 1970
Entre os anos 1972-1976, inicia seu aprendizado de Capoeira de Angola com o Mestre Henri Carlos Xavier da Silva (Mestre Cal).
Começa a promover rodas de capoeira no Parque Marinha do Brasil com seus amigos do Bairro Bom Jesus, Porto Alegre.
Cria o grupo de capoeira “Zumbi dos Palmares” com seus amigos capoeiristas.
Anos 1980
“Momento da influência das artes marciais orientais na capoeira.”
Realiza rodas de capoeira no Brique da Redenção (Parque Farroupilha) em Porto Alegre, com muitos praticantes ligados ao Bairro Bom Jesus.
Viaja à Bahia, treinando com diversos mestres e estudando sobre a influência das religiões locais na cultura capoeirística baiana.
Final da década de 1980: torna-se diretor cultural da Federação Gaúcha de Capoeira.
Anos 1990
Em 1996, é agraciado com o título de “Amigo de Porto Alegre”, pelo seu trabalho de ensino da capoeira aos jovens, em especial esforços em situação de vulnerabilidade social.
Anos 2000
Desenvolve um projeto social de ensino de capoeira a crianças carentes na cidade de Caxias no Sul, onde foi morar por volta do ano 2000.
Em 2003, participou do Fórum Social Mundial, onde se encontrou com o artista e então Ministro de Estado da Cultura Gilberto Gil.
Em 2005 e em 2009, é agraciado com a “Honra ao Mérito” no Rio Grande do Sul.
Em 2009, reencontra seu antigo mestre de capoeira, Mestre Cal.
Anos 2010
Em 2010, é agraciado com o título de “Mestre da Cultura Popular Caxiense”.
Em 2018, participa do “Encontro de Saberes” na UFRGS, uma disciplina com foco na riqueza e importância dos saberes populares para a formação estudantil.
Anos 2020
Em 2021, é tema de um documentário denominado “Berimbauzeiro”.
Em 2022, é o personagem da Exposição “Mestre Churrasco: Capoeira-Vida”.
FICHA TECNICA
Exposição Mestre Churrasco, 2022.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
REITOR: Carlos André Bulhões Mendes
VICE-REITOR: Patricia Pranke
PRÓ-REITORA DE EXTENSÃO: Adelina Mezzari
VICE-PRÓ-REITOR DE EXTENSÃO: Eduardo Cardoso
MUSEU DA UFRGS
Equipe
Diretora: Eliane Muratore
Cláudia Porcellis Aristimunha
Diego Speggiorin Devincenzi
Isabel Nepomuceno
José Francisco Flores
Lívia Donida Biasotto
Marcelo Cavalcanti da Silveira
Maura Bombardelli
Rafaela Silva Thomaz
Simone Borsatto
Arte Programação Visual: Natalia Lazzarotto
CURADORIA, EXECUÇÃO E MEDIAÇÃO
IMAGENS:
Textos : Diego Devincenzi, Maura Bombardelli
Pesquisa : Diego Devincenzi, Eliane Muratore, Simone Borsatto
Agradecimentos:
Alass Derivas; Ana Lúcia Tettamanzy; Marco Poglia: Mestre Churrasco; Equipe CEDAP/UFRGS













