Uma facilidade perigosa: drogas da inteligência

Por Afonso Kopczynski, Gabriel Henrique Hizo, Marcus Vinicius de Lara, Thales Hein

 

A utilização de drogas e medicamentos por estudantes universitários que buscam uma melhora da performance cognitiva (maior concentração) não é recente, porém parece vir se ampliando com a maior facilidade de acesso às drogas, tornando-se assim um tema cada vez mais debatido, com novas descobertas dos possíveis efeitos indesejados da utilização contínua de medicamentos que têm esse propósito. É importante considerar que, na maioria dos casos, essas substâncias foram testadas principalmente em pacientes com transtornos neuropsiquiátricos, e não em indivíduos saudáveis que buscam melhora de performance.

Um documentário recente do Netflix, intitulado Take your pills, trata do uso de medicamentos para pacientes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e outras síndromes nas quais os pacientes apresentam dificuldade de concentração, hiperatividade e outras condições associadas, com destaque para a ansiedade. Esses medicamentos são a Ritalina®, cujo princípio ativo é o metilfenidato, e o Adderall®, uma mistura de sais de anfetamina.

 

 

Inicialmente, o metilfenidato começou a ser estudado no início da década de 60 para diversos fins, porém em 1967 foi observada sua ação na melhora da fala em crianças com problemas de comunicação. A partir dessa observação, começou-se a associar o metilfenidato com o neurodesenvolvimento, sendo estudada sua ação no TDAH. Posteriormente, o conhecimento do mecanismo de ação desse medicamento foi de vital importância para o entendimento das bases moleculares envolvidas nessas condições.

O jornal Folha de São Paulo, em referência ao renomado The New York Times, trouxe em 2012 uma matéria a respeito do Adderall®, a pílula da “boa-nota” – como é conhecida no meio estudantil. A matéria relata um caso de um estudante americano que passou sete meses em reabilitação devido ao uso contínuo e abusivo de Adderall®. A American Psychiatric Association estima que 3 a 7% das crianças apresentem TDAH nas escolas americanas, e muitas vezes é necessário recorrer à farmacologia para o tratamento.

Para poder discutir os pontos abordados no documentário, precisamos esclarecer os mecanismos farmacológicos dessas substâncias. Ambas possuem propriedades estimulantes do sistema nervoso central. Acredita-se que o Adderall® estimule a liberação de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina na fenda sináptica, principalmente por inibição de seus transportadores: o DAT e o NAT, respectivamente. Na mesma linha, estudos sugerem que o metilfenidato atue também na inibição desses transportadores. Isso significa que esses fármacos aumentam a quantidade de dopamina e noradrenalina em diversas regiões do sistema nervoso central, o que deve estar explicar os efeitos terapêuticos e adversos.

Os estudantes que utilizam tais medicamentos relatam diminuição do tempo gasto em distrações, maior capacidade de compreensão de conteúdos, maior energia e disposição para a realização de atividade acadêmicas. O documentário também nos mostra a experiência de um atleta de futebol americano que utilizou o Adderall® para aliviar os sintomas de lesões e permanecer capaz de enfrentar treinos e jogos pelo seu time. Entretanto, com o uso prolongado desses medicamentos, os usuários podem começar a apresentar nervosismo, cansaço, irritabilidade, ansiedade, perda de apetite e peso, náuseas, aumento da pressão arterial e até mesmo sintomas psicóticos.

Muito além dos efeitos de tais medicamentos em indivíduos saudáveis, que a princípio não necessitam de fármacos para desempenharem suas funções em níveis satisfatórios, podemos nos perguntar a razão pela qual tais substâncias são cada vez mais procuradas. É possível que a resposta para essa pergunta se encontre em um nível coletivo e não individual. O modelo de trabalho e produção da sociedade em que vivemos preza significativamente para eficiência e aumento da produtividade, pressionando estudantes e trabalhadores a altos níveis de competitividade, gerando uma situação em que muitos utilizarão qualquer recurso disponível para se tornarem mais eficientes, sem reservar tempo para ponderar ônus e bônus da utilização dessas substâncias, e especialmente dos efeitos adversos citados anteriormente. Com essa reflexão final, nosso objetivo não é simplesmente criticar o uso da Ritalina® e do Adderall®, e sim apontar para a necessidade de uso adequado após o diagnóstico de transtornos que afetam a vida pessoal ou profissional de pacientes.

 


Fontes:

http://www.cesar.umd.edu/cesar/drugs/ritalin.asp

https://www.rxlist.com/adderall-side-effects-drug-center.htm

https://www.rxlist.com/ritalin-side-effects-drug-center.htm

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0149763417308072?via%3Dihub

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/50768-a-ascensao-da-pilula-da-boa-nota.shtml

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S193897361300024X?_rdoc=1&_fmt=high&_origin=gateway&_docanchor=&md5=b8429449ccfc9c30159a5f9aeaa92ffb

https://www.mind-surf.net/drogas/amfetamina.htm

https://jslhr.pubs.asha.org/article.aspx?articleid=2459317

4 comentário em “Uma facilidade perigosa: drogas da inteligência”

  1. Vergonhoso se utilizarem desses remédios como drogas da inteligência. Remédio nenhum faz a pessoa ficar mais inteligente. Só quem é TDAH sabe como é o turbilhão na cabeça. E às vezes nem esses remédios fazem o efeito esperado. A gente sempre tem o sentimento de ficar atrás dos outros. Ah o Adderal nem é vendido no Brasil.

  2. Vejo que o aumento da competitividade no mercado de trabalho é um grande influenciador no uso de medicamentos com foco em “aumento de performance”, principalmente porque, temos pessoas de diferentes níveis intelectuais e sociais disputando uma mesma posição.

    Eu mesmo observo isso no dia a dia, e já fiquei tentado em utilizar de medicamentos para ter mais foco, mas quando fui buscar mais informações sobre os possíveis “efeitos colaterais” acabei optando por não prosseguir com a ideia e tento controlar ao máximo meu esforço e foco na direção de melhorar a performance cotidiana no trabalho, mesmo assim, é difícil porque temos muitas distrações no dia a dia.

  3. Conheci um garoto que toma adderall desde os seus 21 anos e hoje ele tem 34, tomando de 2 a 3 comprimidos por dia, ele tem alucinações, afirmava com toda certeza que havia acontecido certas coisas. Tinha crises de ciúmes avassaladoras. É pessimo! Não usem isso.

  4. Conheci um garoto que toma adderall desde os seus 21 anos e hoje ele tem 34, tomando de 2 a 3 comprimidos por dia, ele tem alucinações, afirmava com toda certeza que havia acontecido certas coisas. Tinha crises de ciúmes avassaladoras. É pessimo! Não usem isso.

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