Cloroquina contra o coronavírus: existe evidência por trás da esperança?

Por Ana Paula Herrmann

Você deve ter ouvido nos últimos dias histórias de pessoas infectadas pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) que foram curadas graças ao tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina. Talvez você também tenha ouvido o presidente Jair Bolsonaro se referir a esses fármacos como a solução para todos os pacientes acometidos pela COVID-19. Já o presidente Donald Trump se manifestou sobre a hidroxicloroquina como poderosa, transformadora de jogo e um presente do céu. Mas será que essas opiniões são fundamentadas por evidências? O que são esses fármacos e o que já se sabe sobre eles? Existe motivo real para depositar tanta esperança nessas soluções para a pandemia?

Para começar, o que são essas substâncias? A cloroquina é um fármaco usado há muito tempo no tratamento da malária, uma doença causada por protozoários e transmitida por mosquitos. Já a hidroxicloroquina é um derivado da cloroquina com as mesmas propriedades farmacológicas, mas menos efeitos tóxicos. Medicamentos contendo esses fármacos também são usados por pacientes que sofrem de doenças auto-imunes como artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico.

Agora, vamos analisar a força de evidência gerada pelos relatos de caso. Se um indivíduo com COVID-19 tomou cloroquina/hidroxicloroquina e não morreu, podemos afirmar que foi o tratamento que preveniu a morte? Não. Por que não? Porque não sabemos o que teria acontecido se o indivíduo não tivesse tomado o medicamento. Talvez ele estivesse vivo mesmo sem o medicamento. Podemos afirmar então que o medicamento diminuiu o tempo de doença ou evitou um quadro mais severo? Não, pois não sabemos qual teria sido o curso da infecção sem o medicamento.

Mas como então podemos saber se o medicamento funciona? Para isso precisamos de um grupo controle, ou seja, um grupo de pacientes que não recebe o tratamento. Dessa forma, podemos comparar os grupos de pacientes em relação a um desfecho pré-determinado, que poderia ser morte, duração da infecção ou severidade do quadro, por exemplo. Esse tipo de estudo é conhecido como ensaio clínico controlado (controlado pois tem um grupo controle). Idealmente, o ensaio clínico deve ser também randomizado, ou seja, a alocação dos pacientes para um dos grupos deve ser aleatória (por sorteio, por exemplo). A ideia é que os grupos sejam diferentes somente em relação ao tratamento sendo testado. Todos os outros fatores que podem influenciar o desfecho devem ser parecidos entre os grupos (por exemplo, no caso da COVID-19, idade e problemas de saúde prévios). É esse o tipo de estudo que precisamos para poder afirmar com maior nível de confiança se a (hidroxi)cloroquina é ou não é eficaz como tratamento para a COVID-19.

E já existe esse ensaio clínico randomizado controlado? Não. O que temos até o momento são os resultados de um ensaio clínico não-randomizado conduzido na França com poucos pacientes. Nesse estudo foi testada a hidroxicloroquina isolada ou em combinação com azitromicina comparada com um grupo de pacientes com COVID-19 que não recebeu nenhum desses fármacos (a azitromicina é um antibiótico usado para combater eventuais infecções bacterianas secundárias à infecção viral – não tem, portanto, efeito contra o vírus). Apesar de os resultados demonstrarem benefício com o uso da hidroxicloroquina, especialmente quando associada com a azitromicina, uma série de inconsistências no relato dos pesquisadores e problemas metodológicos graves faz com que a evidência científica gerada por esse estudo seja muito fraca. Você encontra explicações detalhadas sobre essas falhas aqui e aqui.

Vários ensaios clínicos que podem resolver a incerteza quanto à eficácia da cloroquina/hidroxicloroquina contra o coronavírus estão hoje em andamento, inclusive no Brasil. Novos resultados devem sair em breve. Mas se existe uma chance de que esse tratamento seja eficaz, por que esperar? Por que não tratar todos, por via das dúvidas? Se usarmos em todos os pacientes sem os estudos necessários, corremos o risco de 1) gastar dinheiro e recursos com um tratamento eventualmente ineficaz, 2) deixar de testar outros fármacos que sejam de fato eficazes, e 3) usar um tratamento sem a devida avaliação de segurança e razão de risco x benefício. Avaliar a segurança é especialmente importante pois a cloroquina e a hidroxicloroquina podem causar arritmias fatais. Os pacientes com doença cardiovascular já são mais suscetíveis a desenvolver quadros mais graves, e o próprio coronavírus pode causar danos ao coração. Sendo assim, os efeitos adversos desses medicamentos podem ser ainda mais prevalentes e perigosos em pessoas com COVID-19. Pelo menos uma morte já foi causada pelo uso indevido da cloroquina sem prescrição médica. O alarde também gerou uma corrida às farmácias que levou à falta desses medicamentos para quem realmente precisa.

Apesar de tantas incertezas, existe um consenso: distanciamento físico entre as pessoas e lavar as mãos com água e sabão são uma das armas mais poderosas no momento para deter a disseminação do novo coronavírus. A disseminação de informações falsas, por outro lado, pode agravar a situação. Na dúvida, escreve para o farmacoLÓGICA que a gente responde!

A ciência, como é feita por humanos, está sujeita a limitações e falhas. É por isso que precisamos analisar criticamente as informações, sejam elas fornecidas pelo presidente da república ou por artigos científicos. A interpretação dos fatos, entretanto, deve levar em conta os preceitos do método científico. De outra forma, será apenas uma opinião. E hoje, infelizmente, opiniões sem embasamento científico podem custar vidas.


Fontes:

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0924857920300996?via%3Dihub

http://medicinabaseadaemevidencias.blogspot.com/2020/03/hidroxicloroquina-o-dia-em-que-ciencia.html

http://scienceintegritydigest.com/2020/03/24/thoughts-on-the-gautret-et-al-paper-about-hydroxychloroquine-and-azithromycin-treatment-of-covid-19-infections/

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