Por Aline Lopes Rochedo
“Está mais constrangedor tirar a máscara do que a roupa íntima em público”. Esse foi um dos comentários bem-humorados que minha amiga Márcia publicou em uma rede social, quando já acumulava dias de quarentena na sua casa, na Toscana, por causa da pandemia do novo coronavírus. Embora a curva de contágio ainda não tivesse ganhado velocidade no Brasil, eu preparava meu espírito para um inevitável distanciamento social, assistindo às suas lives e trocando mensagens. Eram encontros online que também a ajudavam a enfrentar sua ansiedade – minha amiga estava confinada com o filho, um cachorro e dois gatos numa região do país onde sair “sem necessidade” rendia multas de 200 euros (cerca de 1.120 reais). “Aqui na Itália, não usar máscara é considerado um comportamento antissocial”.
Márcia me recomendava o acessório para ir ao supermercado e à farmácia, antes mesmo de se tornar item obrigatório em locais públicos no Brasil. “Falo do futuro. Estou duas semanas à frente”, alertava-me ela, que já tinha os exemplos das estratégias de combate à COVID-19 na China e em países próximos. Era a segunda semana de março, a Itália ultrapassava os mil mortos pela doença e despontavam as primeiras confirmações da presença do novo coronavírus do lado de cá do Atlântico. Em uma breve saída para buscar itens do kit-corona para iniciantes, comprei duas máscaras PFF2, descartáveis.
Passaram-se poucos dias, registrou-se a primeira morte no Brasil e se iniciou um apelo país afora, para que máscaras como as minhas fossem cedidas a profissionais de saúde, por estarem mais vulneráveis. Ou seja, equipamentos de proteção individual (mais comumente referidos como EPIs) eram racionados nos hospitais, pois tinham virado objetos de disputa internacional.
Meu irmão, médico na rede pública, confirmou que reutilizava uma máscara descartável por quase uma semana. Quando lhe ofereci as duas PFF2 ainda ensacadas e já em falta nas lojas, ele não hesitou em pegá-las, demonstrando alívio. Enquanto isso, minha mãe reavivava sua máquina de costura e buscava moldes na internet. Carecia de perfeição a leva inaugural, porém, como insistia a Márcia – minha amiga do futuro –, “melhor sair com boca e nariz cobertos”. Intensificamos a produção caseira e doamos algumas à portaria do edifício e a vendedores ambulantes da vizinhança.
O futuro logo chegou ao Brasil. Deparou-se com o agravante de o governo Bolsonaro classificar a pandemia como “gripezinha” e desqualificar medidas de prevenção recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A curva de contágio decolou, muitos profissionais de saúde e pacientes obtiveram equipamento emergencial graças à iniciativa de estudantes e professores de escolas de moda (que lidaram com matéria-prima doada e receberam apoio de costureiras voluntárias) e máscaras caseiras se tornaram compulsórias em espaços públicos.
No início, essas barreiras físicas aterrorizavam, provocavam riso nervoso e resistência. Lembravam-nos de que havia algo de perigoso no ar. Diversificaram-se seus significados em selfies, redes sociais, televisão, jornais e revistas, calçadas, órgãos públicos, mercados e transporte. Agora, são objetos sanitários, emblemas de proteção individual e coletiva, estandartes de respeito pelo Outro, símbolos de combate à pandemia, artefatos éticos, marcadores de classe, expressão da individualidade, bandeiras políticas, oportunidade de negócios, compromisso cívico e, em alguns circuitos, artigos fashion e de luxo.

A máscara é um artefato eficaz contra o contágio, desde que combinada com outras medidas preventivas, como o distanciamento físico e a limpeza das mãos. Tapam bocas, mas não as calam. Nem todos as acolhem. Ausências, aliás, servem de recado ideológico. Basta acompanhar as andanças de Bolsonaro, ministros e seus seguidores pelo país. Estes raramente levam máscaras e frequentemente cospem bravatas.
É precoce dizer que a máscara esteja na moda no Ocidente. Trata-se de um acessório (em geral) têxtil que se impôs e se impõe no nosso cotidiano por imperativo sanitário. Sei que grifes do hemisfério norte já incluíam esses objetos em coleções apresentadas nas passarelas em temporadas passadas, com monogramas, transparências, brilhos, estampas variadas, pedrarias, rendas e bordados. A ênfase, naqueles cenários pré-COVID-19, estava nas dimensões estética, ambiental e protetiva.
Vale recordarmos que rostos semicobertos se proliferaram no Oriente, no início do milênio, pela síndrome respiratória grave causada por outro coronavírus (a SARS). Na sequência, partículas tóxicas conhecidas como PM2,5 – resultantes da queima de carvão para calefação – causaram graves danos aos pulmões da população na China e em adjacências. Via-se, de fato, a produção de máscaras têxteis e em materiais tecnológicos voltados para esse mercado.
Em países de tradição ocidental, a adesão é tão recente quanto imediata e massiva. Usos se disseminaram rapidamente, não foram de todo compreendidos e as atribuições de sentido são diversas e incessantes. Diferentemente do invisível novo coronavírus, as máscaras são notadas. Por esses artefatos, somos alertados de que a COVID-19 nos ronda. Se os olhos estão descobertos, a pandemia é visível.
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Não sei quantas vezes fui interpelada, via WhatsApp, na última semana, por conhecidos pedindo minha opinião sobre qual modelo e estampa comprar ou para me mostrar como ficaram seus rostos cobertos até os olhos. Da janela, enxergo catadores de lixo, engravatados, mulheres de salto, crianças, velhos, garis, seguranças de lojas, policiais, entregadores de comida, todos e todas vestindo máscaras… Ops! Espanta-me o ciclista e sua face à mostra.
No Facebook, atacam-se usos inapropriados: lugar de máscara é no rosto. Algumas pendem no pescoço, ornam testas, escapam dos bolsos. Que indecência colocar o nariz para fora em público! “Meu maior medo: esquecer minha máscara e ser confundida com um bolsomínion…”. É moralmente aceitável transformar esse acessório em artigo de luxo? Controlamos, julgamos, identificamos aliados, desmascaramos opositores, integramo-nos e nos diferenciamos.
Ainda não sabemos se máscaras de proteção contra a COVID-19 “vieram para ficar”, como reza o clichê. O cenário é novo e, sem vacina contra o vírus, é provável que essas barreiras acompanhem nossa indumentária por um longo período, assim como todo um aprendizado da chamada “etiqueta respiratória” – a propósito, há cursos online.
A adoção desses acessórios por diferentes estratos sociais e suportes nos faz rever nossas relações com nossos corpos e com os objetos que a eles acoplamos. Grifes, contornos, dizeres, matérias-primas, bem como usos sociais e antissociais de máscaras escancaram diferenças econômicas, políticas e culturais. A recusa a elas levanta suspeitas de genocídio. A maquiagem discreta em rostos, agora cobertos por tecidos lisos ou estampados, se apresenta inversamente proporcional à maquiagem carregada sobre números manipulados pelo governo federal, para camuflar a gravidade da pandemia.
E aí? Qual é a sua máscara?
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Na manhã de 7 de junho, recebi o vídeo que compartilho acima. É um cartão musical de Florença registrado pela Márcia Villanova, a minha amiga do futuro. Lembrança de sua primeira saída para almoçar fora desde o final de fevereiro. “Aqui não pode apoiar a máscara na mesa do restaurante, porque tem multa. […] Estamos esperando outubro pra ver se vem uma segunda onda. Mas fica firme aí. Esse sacrifício vai valer a pena.”
