Por Renan Giménez Azevedo
A vida tem sido enumerada. Não bastassem os números impressos nas compras, nas horas trabalhadas e nos boletos – que agora vêm com dígitos digitalizados –, também há valores que afetam o cotidiano para além de nosso controle, para além de nossa vontade.
Se abro o jornal, Twitter, WhatsApp, ou qualquer outra plataforma com notícias, me deparo com vários indicadores. É a cotação do dólar que flutua, é a contagem de infecções e óbitos por COVID-19, são datas de pagamento do auxílio emergencial (carinhosamente chamado de “coronavoucher”), é a quantidade de empregos perdidos, de academias reabertas, de pessoas que estão nas manifestações… São inúmeros os números que cercam meu olhar – e isso sem considerar documentos e telefones, que é comum sabermos de cor.
Encaro os números da forma que posso, sejam nos olhos dos 0 e dos 8, seja no nariz arrogante do 1. Dos vários ângulos que eu observo, as cifras parecem sólidas, bem fundamentadas, como se tivessem sido friamente calculadas. Por conta da aparente solidez das contas, os dígitos são usados como dados que blindam proposições. Então lembro da máxima “contra fatos não há argumentos”.
Estes números noticiados, contudo, não mostram os cálculos que os produziram. E não me refiro a alguma taxa extraída a partir de alguma metodologia aplicada em algum algoritmo. Não. Me refiro às tomadas de decisão que produziram tais números, sobre entender por que aquela taxa fora extraída por aquela metodologia e aplicada àquele algoritmo. Para além disso, é entender como tais números podem produzir efeitos no cotidiano.
É pelos números que políticas são feitas. Atente que esta frase possui dois sentidos: tanto significa fazer políticas para que os números sejam concretizados, quanto tomar decisões embasadas nestes números. Assim, usando a rigidez dos cálculos, nos confundimos e deixamos de ver a fluidez das relações humanas que os compõe.
E como pensar essa produção numérica? Há alguma coisa nas nossas caixas de ferramentas e em nossas estantes de referências. E assim como os números podem ser ambíguos, uma “produção numérica” também é. Se pensarmos sobre como os números são feitos, é bom pensarmos que eles são transformados ao longo dos cálculos [1]. Além disso, levantar esses números em locais em que o Estado não entra pode dificultar a sua produção [2]. Por consequência, isso afeta a sua execução – ou seja, produção – em que as burocracias são seu local de controle [3].
E aonde chegar com isso tudo? Bem, assim como não há um último número, e assim como é impossível mensurar o tamanho de um ponto, não vejo um horizonte próximo neste assunto. Assim como tantos outros temas em nossos estudos, abrir números é como observar longos circuitos de novelos emaranhados que estavam em alguma caixa. Que tal abrirmos mais essa caixa de Pandora?
Referências
[1] THÉVENOT, L. Cifras que falam: medida estatística e juízo comum. In: BESSON, J.-L. (Ed.). A ilusão das estatísticas. São Paulo: Editora da UNESP, 1995. p. 149–162.
[2] MOTTA, E. Resistência aos números: a favela como realidade (in)quantificável. Mana, Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 72 – 94, abr. 2019.
[3] BACHTOLD, I. V. Quando o Estado encontra suas margens: considerações etnográficas sobre um mutirão da estratégia de Busca Ativa no estado do Pará. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 22, n. 46, p. 273 – 301, dez. 2016.
(Foto em destaque: Markus Spiske on Unsplash)

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