
Em live transmitida pela página Grupo de Pesquisa em Comunicação Organizacional, Cultura e Relações de Poder (GCCOP) no Facebook, a editora do Brasil de Fato-RS e diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS, Katia Marko, e a professora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO) da UFRGS e coordenadora do núcleo de Pesquisa em Jornalismo, Marcia Benetti, apontaram os desafios da cobertura midiática sobre a pandemia por Coronavírus.
Para as participantes, o tema reflete a complexidade do momento, pois há questionamentos sobre o papel da imprensa e em relação à precarização das condições de exercício da atividade. A live “Pandemia na Mídia” foi ao ar na última quarta-feira, dia 13 de maio, com mediação do professor de jornalismo da UFRGS e coordenador editorial do Observatório da Comunicação Pública, Basilio Sartor. A íntegra do vídeo pode ser assistida na página do GCCOP no Facebook.
Fatores que impactam a cobertura
A dificuldade de realização do trabalho jornalístico nesse contexto de pandemia, segundo Marcia Benetti, decorre de fatores como uma temática subjacente que é a morte, um temor ancestral. “A todo momento, as notícias sobre o corona vírus lembram a nossa mortalidade, nos reduzem a criaturas que morrem. A realidade do fenômeno é muito violenta, ela acaba se impondo sempre. O jornalismo está lidando com a morte, com o medo, com a incerteza e esses temas são muito atravessados pelo sensacional, pelo dramático, pelo trágico. Achar o tom para falar disso, retratar as vítimas, entrevistar parentes, achar esse tom é um desafio muito grande para os jornalistas”, pontuou a professora, que ainda reforçou o grau de desconhecimento da própria ciência sobre a doença e seus efeitos, o que exige atualização constante.
A professora também chamou atenção para o fato de a pandemia ser um tema transversal, que aciona conhecimentos de vários campos, como o jurídico, o político, o entretenimento, a economia, e até o meio ambiente, o que reforça a necessidade de buscar boas fontes. Além disso, a professora pontuou que há uma dificuldade de obter dados confiáveis, haja visto a subnotificação e a dependência exclusiva de dados oficiais. Marcia Benetti comentou, ainda, sobre as dificuldades trazidas pelas condições concretas do trabalho jornalístico, equipes reduzidas, risco de demissão (profissionais sendo demitidos durante a pandemia), agressões físicas e ofensas.
A pesquisadora valoriza o papel que o serviço aos leitores pode desenvolver na aproximação dos veículos com públicos que estavam refratários aos seus conteúdos. “Num cenário de tanta desinformação, o jornalismo de serviço pode ser a porta de contato com pessoas que normalmente estariam muito refratárias à informação jornalística, essa proximidade com a vida prática, não apenas dizer que o aplicativo da Caixa tem problema, mas mostrar o que fazer em certas situações, essa descida à vida prática é muito importante.”
Para o futuro, Marcia Benetti avalia que o jornalismo deve sair com a credibilidade fortalecida após a pandemia, e indica, para isso, a aposta em matérias humanizadas, jornalismo de serviço e tradução do conhecimento científico. Porém, a perspectiva da professora para as condições de trabalho não é muito otimista com acentuação da precarização que já vem se agravando desde a reforma trabalhista do governo Temer.
Marcia Benetti comentou sobre a desinformação das fake news que, para ela, só podem ser combatidas com informação verdadeira produzida pelos jornalistas. Além disso, “as plataformas Facebook, Youtube e Instagram têm que decidir que a verdade é uma valor fundamental e coibir os conteúdos falsos, banir os perfis de robôs. Porém elas não querem fazer isso porque elas vão perder dinheiro”, avaliou Marcia Benetti.
A busca por outras fontes e contato com os trabalhadores
Com mais de 25 anos de experiência em sindicatos e mídias alternativas, a jornalista Katia Marko falou sobre o esforço que os profissionais desses veículos têm feito para trazer ações promovidas pelos trabalhadores organizados para enfrentamento à pandemia, com as atividades solidárias de distribuição de alimentos do MST (Movimento dos Trabalhadores RuraisSem Terra) e do MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores). “Nossas matérias têm esse sentido: ações de solidariedade; grupos que estão se organizando nas periferias para dar conta dessa situação. A gente está vendo que a fome está aumentando nas periferias”, disse a jornalista.
Katia Marko ressaltou a identificação dos jornalistas com os trabalhadores como diferencial das mídias alternativas na cobertura da pandemia. “Nós costumamos dizer que o Brasil de Fato é produzido por trabalhadores para trabalhadores, porque nós, enquanto jornalistas dessa mídia, também nos enxergamos como trabalhadores e como pertencentes à classe dos trabalhadores.” Por isso, segundo a jornalista, tem havido um esforço para mostrar as formas como os pequenos comércios, livrarias, artesões, feiras de produtos orgânicos têm buscado para sobreviver durante a pandemia.
Outro aspecto destacado pela convidada ao debate foi a continuidade da pauta política e da tramitação de projetos de lei no Congresso Nacional. “A vida não parou exatamente porque as pessoas estão em isolamento. A vida política do país continua, as disputas políticas continuam, e nós estamos fazendo essa disputa através de nossas visões, e trazendo as propostas que os movimentos têm para esse momento, porque, de alguma forma, a pandemia trouxe com maior clareza as desigualdades sociais que a gente vive e as vulnerabilidades estão vindo cada vez mais fortes. Estamos tendo que falar mais sobre isso”, argumentou Katia.
Em relação ao fenômeno das fake News, Katia defendeu a necessidade de promover a democratização da mídia no país, para que a comunicação seja entendida como um direito humano fundamental, necessário para a vida em sociedade.
O debate integra o projeto Estudos de Comunicação em Debate, realizado desde 2017 pelo GCCOP. O projeto consiste na realização de palestras voltadas para alunos da graduação e pessoas da comunidade interessadas nas temáticas abordadas. O projeto faz parte do Programa de Extensão “Análise Crítica de produtos midiáticos”, registrado na PROREXT/UFRGS, que, em suas ações, procura construir com professores, estudantes e comunidade um processo de análise crítica de produtos midiáticos, refletindo sobre gramáticas, enquadramentos, representações midiáticas e suas relações com a construção da realidade social. Mais informações, acesse aqui.

