PRECIPITAR O TEMPO
A exposição “Precipitar o tempo”, pode ser visitada de 09/09 até 10/10, no Espaço de Artes da UFCSPA, com curadoria da Profa. Lilian Maus (IA-PPGAV/UFRGS).
A mostra traz obras de artistas de graduação e pós-graduação integrantes do grupo de ilustradores do Jornal da Universidade (JU/UFRGS), vinculado ao PEHPA (Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas).
Os trabalhos exploram técnicas como fotografia, pintura a óleo, acrílica e aquarela, ilustração digital, fotolivro, objeto e som, para refletir sobre a crise climática. Os trabalhos expostos são de Dantara Ordovás, Katherine Avila, Luiza Schütz, Ana Carnelossi, Bibistriz, Katarine Rech, Mariana Lemmertz, Ayla Dresch, Amanda Misturini e Ana Shtlr.
O projeto foi selecionado pelo edital Proext 2025 (UFSCPA), que nesta edição abordou o tema Mudanças Climáticas: ODS – 13/ONU.
Visitação de 09/09 até 10/10, no Espaço de Artes da UFCSPA.
Artistas:
Dantara Ordovás
Katherine Avila
Luiza Schütz
Ana Carnelossi
Bibistriz
Katarine Rech
Mariana Lemmertz
Ayla Dresch
Amanda Misturini
Ana Shtlr
Curadoria: Lilian Maus (IA-PPGAV/UFRGS).
Texto Curatorial
Precipitar o tempo
(…)vive a esgotar, gota a gota,
o que o homem, de reserva,
possa ter na íntima poça.
“O Relógio”, João Cabral de Melo Neto
A carta de Porto Alegre aponta que, entre os anos de 2000 e 2024, tivemos no Brasil 122 desastres de natureza hidrometeorológica, afetando cinco milhões de pessoas e causando mais de mil mortes e perda de 1,8% do PIB. Durante as inundações de 2024, tivemos, no Rio Grande do Sul, mais de 500 mil desalojados e 175 vítimas fatais. Atravessamos a destruição das infraestruturas urbana e rural, dos sistemas de proteção em áreas de risco e vulnerabilidade, além da interrupção dos serviços básicos, vivenciando a escassez de água, de energia elétrica e de meios de transporte e de rodovias. Os efeitos das mudanças climáticas e da crise ambiental seguem reverberando em nós. Traumas físicos e psíquicos atingiram populações que sobrevivem às adversidades, assoladas por desigualdades socioeconômicas e tensões políticas. Um ano após o desastre, seguimos na incerteza ao precipitar o futuro.
Diante de um novo regime climático, estamos experimentando uma atmosfera de extremos: de um lado mergulhamos em um excesso de precipitações, inundações, deslizamentos de terra e ciclones e, de outro, presenciamos secas e incêndios florestais, que vêm nos impactando. A filósofa Donna Haraway costuma pensar o mundo como um “tropo”, ou seja, um nó em movimento, uma espécie de “tropeço”, de “trouble” (problema). Esse emaranhado vivo está em constante transformação. Por
isso não há solução milagrosa e definitiva para problemas complexos. Para enfrentar tal crise é preciso cultivar alianças de corresponsabilidade entre os saberes tradicionais e científicos. Afinal, como (sobre)viver eticamente neste mundo mortal e finito a partir de relacionamentos heterogêneos e conexões parciais?
A arte não nos dá respostas. Mas, com seus lampejos do tempo, pode antecipar desastres e provocar cataclismo, gerando mudanças de paradigma. Ao estremecer visões de mundo, a arte nos faz refletir sobre a finitude, assim como a clepsidra – relógio ancestral alegorizado pela poesia de Cabral. Com esta exposição, precipitamos imagens com uma cartografia sensível materializada em fotografias, objetos, desenhos, sons, pinturas e ilustrações digitais que transmutam as águas turvas que ainda pulsam em nós.
Lilian Maus – Professora Doutora do Instituto de Artes da UFRGS
Fotos: Katherine Avila














