Humanista

jornalismo e direitos humanos

A Porto Alegre que tem fome: alheios ao Estado, trabalhadores e famílias dependem de projetos sociais para comer

Enquanto mais de 19 milhões de brasileiros têm dificuldades para colocar comida na mesa, projetos sociais precisam assumir o papel do Estado para garantir que parte da população não passe fome.

Setembro de 2021. Noite de uma segunda-feira chuvosa em Porto Alegre. Na esquina entre as ruas Irmão José Otão e Dr. Barros Cassal, no bairro Bom Fim, região central da cidade, um entregador de aplicativo de delivery estaciona a bicicleta alugada, que traz o logo do banco Itaú. Desta vez, não para levar um prato a um cliente, mas sim para receber comida de um outro alguém. Agora, quem sacia a fome é ele. A janta de hoje, porém, não foi uma encomenda,e sim um prato garantido por uma geladeira comunitária que armazena refeições e solidariedade. A de amanhã, quem sabe?

Intitulada Rango Solidário, a instalação do refrigerador foi iniciativa da agência de marketing social Smile Flame, em  2015, com o objetivo de que os próprios moradores da região o abastecessem com doações de alimentos. A adesão foi imediata, não apenas por parte de vizinhos, como também por restaurantes e projetos sociais. De lá para cá, a geladeira tornou-se uma das principais fontes de alimentação para pessoas em situação de vulnerabilidade que vivem nas redondezas.

A cena com a qual o Humanista se deparou pelas ruas da capital gaúcha é parte de um retrato mais amplo, agravado pela pandemia. 

Dados de uma crise

Em 2020, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o desemprego bateu recorde, chegando a 14,6% no terceiro trimestre. Como consequência, o trabalho informal ganhou força: 68% dos demitidos no segundo trimestre do último ano passaram a atuar de forma informal. Em paralelo, a inflação disparou, atingindo, em setembro de 2021, 10,25% no acumulado de 12 meses e batendo números que não se viam há mais de duas décadas.

A Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), indicou que, em janeiro de 2021, os preços dos alimentos básicos, necessários para as refeições de uma pessoa adulta durante um mês, aumentaram em 13 capitais pesquisadas, incluindo Porto Alegre.

Um dos resultados mais terríveis dessa soma de fatores é a fome. Segundo a Rede PENSSAN (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), em 2020, 19,1 milhões de brasileiros sofriam de insegurança alimentar — um crescimento de 85% em dois anos. A alimentação digna é um direito social que consta na Constituição, mas que, na prática, na ausência de políticas públicas, acaba garantido por estratégias coletivas para alimentar quem precisa. 

Carlos André Nascimento, 35, buscou refeições para ele e para família | Foto: Isabel Gomes

Durante a pandemia, o “abre e fecha” da geladeira comunitária se tornou mais intenso. No início da tarde de sábado, 10 de outubro, voluntários de uma ONG entregaram cerca de 60 refeições, preenchendo as prateleiras do refrigerador. Em três horas, estava quase vazio.. Carlos André Nascimento, 35 anos, foi um entre as dezenas de pessoas que garantiram o almoço de sábado com as doações. Morador do Centro de Porto Alegre e reciclador, Carlos estava acompanhado da esposa. “A gente pega comida para nós e para os nossos filhos. Ajuda muito porque não temos fogão em casa. A barriga está roncando de fome”, descreve. 

“Se entrou na fila, é porque tá com fome”

Perto dali, a mais ou menos um quilômetro, no mesmo horário, cerca de 500 pessoas acabavam de receber uma marmita de arroz, feijão e massa com salsicha, com um copo de água e uma sobremesa. A cada refeição entregue, “bom dia, bom almoço”, diziam os voluntários. Era o projeto PF das Ruas que, semanalmente, aos sábados, distribui pratos de comida no Viaduto Imperatriz Leopoldina, na avenida João Pessoa, próximo ao Parque da Redenção. 

O PF das Ruas foi criado em 27 de agosto de 2016 quando cinco amigos, que já tinham experiência com voluntariado, decidiram transformar uma cena que os incomodava: a fome na região central de Porto Alegre. Foram, então, ao viaduto com 50 refeições a serem entregues para quem passava pelo local. Um dos voluntários caminhou até a Redenção para avisar quem estava pelo parque, e todos os pratos foram entregues. No segundo sábado, mais pessoas apareceram. Os voluntários levaram 80 marmitas e mais gente para ajudar. De lá para cá, o PF das Ruas só cresceu. Cinco voluntários se multiplicaram para 180, e as marmitas, de 50, hoje são 1.000, distribuídas todos os sábados. “Eu sei que quem deveria fazer isso é o Estado, o prefeito. Mas é fácil eu passar o problema para os outros no conforto da minha casa. Então eu me perguntei ‘o que eu posso fazer?'”, destaca Rose Carvalho, uma das coordenadoras do PF das Ruas.

As refeições também são entregues na Praça da Matriz nas noites de segunda-feira. Conforme a coordenadora, durante a pandemia, o perfil de quem é atendido pelo projeto mudou. Se antes o foco era quem estava nas ruas, agora a iniciativa beneficia até quem tem teto e trabalho, mas que, por conta da crise, não consegue mais arcar com os custos de alimentação. Enquanto a reportagem esteve acompanhando a distribuição, pelo menos 10 entregadores de aplicativo de delivery pararam no local para almoçar. 

“O perfil de quem tá na fila é muito diverso. Mas a gente sabe de uma coisa: se entrou na fila, é porque tá com fome. No início, a gente servia para as pessoas em situação de rua, prostitutas e usuários de drogas. Com a pandemia, isso mudou. Recebemos pessoas com escolaridade, pessoas que tinham algum trabalho e que acabaram perdendo e foram para a rua”, afirma Rose.

É o caso de I.N.V., 29 anos, que preferiu não se identificar. Trabalhava como metalúrgico até o início da pandemia, quando foi demitido. Há cerca de dois meses, precisou sair de casa, por não conseguir arcar com os custos de um aluguel estando desempregado. Pelo menos uma vez por mês, vai ao SINE (Sistema Nacional de Emprego) em busca de emprego, sem sucesso. “O problema não é só a situação de rua. O problema é não ficar perto da família. Mas tudo vem dando certo. O alimento a gente tem, pelo menos, e eu só posso agradecer”, relata.

Rose diz que também costuma receber currículos de quem frequenta a iniciativa. Ela conta que já recebeu currículos de pessoas que falam três idiomas, professores universitários e ex-trabalhadores de grandes empresas do Estado.

No mesmo local, Walter Yserhardt, 82 anos, também foi garantir comida para ele e para sua esposa Solange. Morador do bairro Niterói, em Canoas, o aposentado vai semanalmente, há dois anos, para Porto Alegre buscar refeições. O motivo é a renda. O aposentado faz bicos como costureiro e tem a renda mensal de um salário mínimo, valor insuficiente para pôr comida na mesa todos os dias. 

PF DAS RUAS

Image 1 of 6

Gente é para brilhar, não para morrer de fome

O trecho da música “Gente”, de Caetano Veloso, estampava, até o dia 14 de outubro, a parede do casarão localizado na avenida Azenha, 1018, que, durante 17 dias, entregou mais de 2.000 refeições para pessoas em situação de rua e trabalhadores informais e do bairro Azenha, um dos pontos mais tradicionais de comércio popular na Capital. Ali, entre os dias 26 de setembro e 12 de outubro, esteve instalada a Cozinha Solidária, uma das iniciativas do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) para combater a fome. 

A Cozinha ocupou um espaço abandonado pela União, distribuindo alimentos à população vulnerável de Porto Alegre. A inspiração veio de ações já concretizadas em países vizinhos da América Latina, como a Argentina, e o projeto deu os primeiros passos em janeiro deste ano. Desde então, mais de 20 cozinhas já foram levantadas em todo o Brasil pelo MTST, que tem como um dos pilares o combate à fome. A da Azenha foi a 21ª do Brasil e a primeira no Rio Grande do Sul.

Da doação de alimentos até a mão na massa para cozinhar, toda colaboração é voluntária. Há quem chegue para buscar um prato e que acaba se unindo na produção e distribuição. Segundo a coordenadora da ação, Juliana Motta, entre 150 e 200 refeições são distribuídas diariamente. Para ela, a Cozinha mostrou que a fome não tem rosto.

“Não é só o morador em situação de rua. Tem o trabalhador informal que, pelo agravamento da pandemia, acabou perdendo seu emprego e está pedalando com bicicleta do Itaú, arriscando sua própria vida para comprar um alimento no fim do dia. Tem também o trabalhador dessa região, que vende seu vale-refeição para complementar a renda e poder pagar o aluguel. Porque é isso, a gente tá vivendo em um Brasil que tem que escolher entre comprar o gás ou comprar arroz e feijão. Entre pagar o aluguel ou a água. Entre se alimentar ou alimentar os filhos”, diz Juliana.

COZINHA SOLIDÁRIA DO MTST

Image 1 of 8

Entre as dezenas de rostos que formavam a fila do almoço, no feriado de 12 de outubro, estava Daniel Pereira da Costa, 40 anos. Com experiências profissionais em empresas de ar-condicionado, restaurantes e pet shops, seu último emprego foi há um ano e meio, no início da pandemia, como garçom em uma churrascaria no bairro Partenon. Por conta da falta de renda, hoje está vivendo nas ruas e, para preencher o estômago, depende de projetos sociais. “Tava passando [em frente à Cozinha], olhei e perguntei. Aí vim ontem e fiz a inscrição. É boa a comida. Tão boa que ontem eu nem consegui ir tão longe depois de almoçar. Fiquei ali na esquina.”

Na mesma fila, estava Nilton Zenkner Junior, 55 anos. Era caminhoneiro, mas após o falecimento da esposa, acabou indo para as ruas, há cinco anos. Suas refeições dependem de ações sociais e, quando consegue dinheiro, frequenta o restaurante popular da prefeitura, localizado na rua Santo Antônio, próximo à Rodoviária. Nilton costuma passar seus dias na Redenção. No dia 12, quando a sensação térmica em Porto Alegre chegou perto dos 30°C, ele caminhou até a Azenha para almoçar. Foi seu primeiro dia na Cozinha Solidária. Na fila, quando questionado se iria voltar para um segundo almoço, respondeu, entre risos, “vamos ver se eu aprovo a comida deles”.

Osso é almoço

Quem voltou no dia seguinte, porém, não encontrou mais a Cozinha na Azenha, 1018. Na manhã do dia 13 de outubro, a Polícia Federal, com apoio da Brigada Militar, realizou o despejo da iniciativa. A estrutura foi retirada e as paredes coloridas foram pintadas de branco. As refeições continuam a ser produzidas, em um espaço cedido por uma moradora do bairro, e entregues na Praça Princesa Isabel, a cerca de 300 metros do espaço anteriormente ocupado.

“A cozinha solidária da Azenha vai existir. Seja aqui, na esquina, ou na frente desse terreno. O MTST não vai recuar em relação ao combate à fome. A gente não quer o combate com a polícia, não é esse nosso objetivo. A gente vai existir e resistir para continuar alimentando a população de Porto Alegre. Porque essa população precisa. Ela passa aqui, ela nos chama e diz para a gente que precisa. E a gente não vai fechar os ouvidos para isso”, declarou Juliana, três dias antes do despejo. Nesse cenário, que assola todo o território nacional, há quem não possa contar com a sorte de uma ajuda solidária. No Brasil da fome, até mesmo os ossos se tornaram peças valiosas para ter o que pôr à mesa. 

Recentemente, uma foto de autoria de Domingos Peixoto, capa do jornal Extra do dia 29 de setembro de 2021, viralizou nas redes sociais. A imagem mostrava um caminhão com restos de ossos, pele e de gordura, no Rio de Janeiro, no qual pessoas buscavam comida. O descarte dos supermercados é a esperança dessas pessoas de encontrarem um pedaço de carne para matar a fome. 

Capa do Extra escancarou o retrato da fome no país. | Foto: Reprodução

Dois meses antes da capa do Extra, o Fantástico veiculou uma matéria que mostrou, em Cuiabá (MT), uma fila nas portas de um açougue em busca da doação de ossos, que sobram da desossa dos bois. O tema, que vem ganhando espaço nos jornais, escancara um cenário de um Brasil que volta a sentir fome. Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), em 2021, o consumo de carne bovina no Brasil deverá ser de 26,4 quilos por pessoa, uma queda de quase 14% em relação a 2019, ano anterior à pandemia, e de 4% ante 2020. O menor nível registrado para consumo de carne bovina no Brasil em 26 anos.

Quase três décadas após a escolha do dia 16 de outubro como Dia Mundial da Alimentação pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Brasil voltou para o mapa da fome depois de sete anos. Segundo a Rede Penssan, a insegurança alimentar grave atinge 9% da população brasileira. Dessa forma, em 2020,  a fome no Brasil retornou a patamares similares aos de 2004. 

Como ajudar

Rango Solidário: o refrigerador fica localizado na rua Irmão José Otão, na esquina com a Dr. Barros Cassal, no bairro Bom Fim. Em frente à geladeira onde são armazenadas as refeições, há também uma “geladeira de roupas”, onde é possível deixar peças para doação.  

PF Das Ruas: o projeto recebe doações em alimentos (pontos de coleta abaixo) e em dinheiro, via pix pfdasruas@gmail.com. Também é possível ajudar se juntando ao projeto, para colaborar no preparo e na distribuição de refeições. Semanalmente, na página do Facebook, os voluntários publicam a lista de alimentos que precisam. 

Pontos de coleta em Porto Alegre: Estética Blond Hair, R. Barão do Amazonas, 809 ou, aos sábados pela manhã, no Viaduto Imperatriz Leopoldina

Ponto de coleta em Canoas: Diferente Moda e Salão, R. Araguaia, 413, bairro Igara.

Página no Facebook: https://www.facebook.com/pfdasruas/

Cozinha Solidária: recebe doações em dinheiro pelo pix redeabastecimento@gmail.com ou entrega de alimentos diretamente na Cozinha (R. Marcílio Dias, 1463, bairro Azenha). Da mesma forma, doações podem ser feitas por uma plataforma de financiamento coletivo, que destina as doações para todas as Cozinhas Solidárias do MTST do Brasil. 

Instagram: https://www.instagram.com/mtst_rs/

Deixe um comentário

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support