Humanista

jornalismo e direitos humanos

Na reta final, 71ª Feira do Livro tem diversidade de livros, atividades e questionamentos para todos os públicos

Evento tradicional de Porto Alegre convida, até este domingo, os gaúchos a ocupar o Centro com títulos que podem custar menos de R$ 3,00

Quem visitou a Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre, nas últimas semanas a viu diferente. Desde 31 de outubro, o ponto turístico da capital gaúcha recebe a 71ª edição da maior feira do livro da América Latina, que segue aberta até este domingo (16), das 10 às 20 horas. Neste ano, o tema “Beba desta fonte” incentiva o público a ter acesso, além das histórias, a uma possibilidade de reflexão e encontro, seja com as palavras, nos livros; com os autores, na área de autógrafos; ou com a cidade; na praça. O Humanista deu uma passada lá e te conta como foi.

Ao todo, 79 bancas – 66 na área geral, dez na área infantil e juvenil e três na área internacional – recebem todos os públicos, com opções diversas: desde livros usados, com promoções de cinco exemplares por R$10,00, até lançamentos, por R$50,00. Tradicionalmente, nos dias de semana, estudantes tomam o espaço, aproveitando as bancas e também as demais atividades e interações, como a escultura de vaca da Zero Hora, que aparece sentada, de óculos, lendo um jornal. 

Além dos jovens, trabalhadores apressados que cruzam os corredores de livros para chegar ao trabalho, também olham para os títulos, mas rapidamente para não perder a hora. Já nos finais de semana, o público é um pouco diferente; há aqueles que aproveitam a folga, sozinhos ou em família, e também os aposentados que sentam nos bancos para observar o movimento do tradicional evento, que começou em 1955, coincidentemente também em 16 de novembro – último dia da Feira deste ano.

Nos dias de semana, estudantes de escolas públicas e privadas se juntam a trabalhadores que cruzam a Praça da Alfândega para chegar ao trabalho | Fotos: Marcelo Pires

A patrona da edição de 2025 é a escritora porto-alegrense Martha Medeiros, que na cerimônia de abertura ressaltou o legado das oito patronas que a precederam; Maria Dinorah (1989), Lya Luft (1996), Patrícia Bins (1998), Jane Tutikian (2011), Cíntia Moscovich (2016), Valesca de Assis (2017), Maria Carpi (2018) e Marô Barbieri (2019), manifestando a emoção de juntar-se a elas. Martha, que completa 40 anos de carreira junto à edição deste ano, é autora do livro Doidas e Santas (2008), obra que reflete o cotidiano sob uma ótica feminina e mostra a força e permanência das mulheres na literatura.

Presença feminina

Se em 71 edições, apenas nove mulheres ocuparam o espaço mais cobiçado da Feira, isso representa pouco mais de 12% do todo. O número demonstra a necessidade de cada vez mais protagonismo feminino, já que muitas autoras — nascidas em Porto Alegre ou não — estão presentes nas bancas e nas atividades deste ano, como Valéria Barcellos, escritora nascida em Santo Ângelo, que lançou o livro Musos nesta edição. Para além das autoras, a presença feminina também têm se refletido na estrutura: Nathália Barbieri foi responsável pela construção de uma das 79 bancas, tornando-se a primeira marceneira a integrar esta função na Feira. São avanços sutis, mas que demonstram a modificação de um evento tradicional.

A Feira representa, em seu conjunto, o poder de transformar a sociedade por meio das palavras e ações. Na atualidade, em que as telas de celular entretêm o público com vídeos, ler um livro é, também, adquirir conhecimento por um meio fora da internet, “sozinho”, mas com as palavras. Em 1973, na crônica Do prazer de ler, presente no livro Caderno H, Mário Quintana escreveu: “O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”. Vizinho da Praça da Alfândega, o escritor — que foi patrono do evento em 1985 — morou no prédio que hoje abriga a Casa de Cultura. Uma boa dobradinha para quem visita o evento: contemplar ambos os espaços. 

Já Martha Medeiros, patrona deste ano, escreveu em 1999, em Refeições Literárias, que, ao responder uma jornalista sobre o que os livros significam para ela, falou que são alimento. Como carne assada. Guisadinho com milho. Omelete de presunto. Sopa de cebola e mais um tanto de refeições. Disse que os livros a abastecem de calorias, proteínas e sais minerais.

Os autores, sejam de forma presencial, como Martha, que esteve andando pelo espaço na tarde da última terça-feira (11), ou por meio de suas obras, como Mário, são atemporais. Escreveram no século passado textos que, se lidos hoje, continuam a fazer sentido. Eles se juntam a uma imensidão de outros autores presentes no espaço: somente do Rio Grande do Sul são mais de 350 escritores que visitaram e ainda visitarão a Praça da Alfândega até este domingo.

A patrona da 71ª Feira do Livro, Martha Medeiros, comemora junto à edição os 40 anos desde que seu primeiro livro foi publicado | Foto: Marcelo Pires

Direito a memória

Seja na década passada ou até mesmo no ano passado, relembrar é o direito de ter acesso a uma história que muitas vezes ainda se faz presente. Entre os lançamentos da Feira está Caminho das Águas, dos jornalistas Eduardo Seidl e Raphaela Donaduce Flores. Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a maior tragédia climática de sua história. Mesmo para quem esteve no estado, pensar que a Praça da Alfândega, hoje cheia de livros, esteve debaixo d’água parece inacreditável. E o livro mostra exatamente isso. Cerca de três meses após as enchentes, Eduardo e Raphaela percorreram de bicicleta o trajeto das águas, do Guaíba até o mar, na Praia do Cassino, em Rio Grande. Foram cerca de 500 km em oito dias, transformados em um diário de viagem que documenta, em texto e imagem, as marcas deixadas na paisagem e na vida das pessoas.

Flores em registro da viagem, que integra o livro “Caminho das Águas” (2025) | Foto: Marcelo Pires

Outros títulos também tratam de direitos sob diferentes perspectivas. Para (todas) elas, de Elisabete Barreto Müller e Marine Laísa Matte, fala sobre a rede de afeto que envolve e fortalece as mulheres; Quando tudo transborda: crônicas de uma natureza represada, de Cristiane Avancini Alves, reflete sobre a natureza em suas diversas formas e expressões; Direitos fundamentais e marginalização digital: o acesso à proteção social em risco questiona: “é possível falar em universalidade de direitos sociais quando o acesso a eles depende da internet?”. A programação completa está disponível no site oficial: feiradolivropoa.com.br/programacao.

No ano passado, o #ConversaHumanista recebeu Maximiliano Ledur, Presidente da Câmara Riograndense do Livro, e Felipe Denardin, sócio da Editora Hipoteca, para falar sobre os desafios e a importância da Feira do Livro. Naquele momento, a Feira acontecia aproximadamente cinco meses após a enchente de 2024.

Deixe um comentário

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support