Três transferências semanais de R$500 via pix. Até R$3.000 por mês sem trabalhar. Ganhar, em 10 dias, a remuneração de um ano inteiro de trabalho. Tudo de forma rápida e fácil, apenas configurando o robô do pix e deixando ele fazer acontecer. Essas eram as promessas de MC Gui, Mirella, Melody, do ex-boxeador Popó e outras personalidades que divulgaram o robô do pix em suas redes sociais.
Quem confiou nos artistas, porém, não saiu satisfeito dessa história. Foi o que o Humanista descobriu ao investigar o golpe do “robô do pix”, que acumula vítimas pelo país: o que é exatamente, o que diz a lei, como identificá-lo e evitá-lo e quais as consequências, além da versão de quem trabalha com isso.
O que é o robô do pix e como ele funciona
O robô do pix é a sensação do momento: anúncios pagos lotam as timelines das redes sociais, famosos comentam sobre o produto e a promessa é maravilhosa. Basta comprar o robô e configurar da forma que preferir; a partir daí, ele irá comentar incansavelmente em posts de sorteio no Instagram, aumentando em até 98% suas chances de ganhar os prêmios. Caso o cliente não fique satisfeito com o produto, a solicitação de reembolso pode ser feita em até 7 dias.
Apesar da aparente legalidade do processo, na prática o robô do pix se trata de um golpe digital. A experiência da maquiadora Mirella de Oliveira Rabelo, 23, ilustra o funcionamento do esquema: depois de ver as divulgações em perfis de famosos, em dezembro de 2021, a jovem cearense decidiu adquirir o robô do pix por R$197. A disponibilidade de suporte e o site exclusivo transmitiram a segurança necessária para que ela instalasse a extensão de comentários no Instagram.
Em pouco tempo a ideia promissora se tornou um pesadelo. A rede social percebeu a irregularidade e tirou a conta profissional de Mirella do ar. O suporte prometido também não resolveu seu problema, deixando a situação em aberto por mais de três semanas. Foram necessárias uma denúncia ao banco, uma reclamação no Reclame Aqui da plataforma Eduzz (onde estavam as “aulas” sobre o robô) e uma ameaça de Boletim de Ocorrência na Polícia Civil para receber a devolução do valor.
De acordo com Ricardo Ribeiro Tavares, professor e especialista em Segurança Cibernética, os perigos de adquirir o produto são diversos. Em primeiro lugar, os riscos para a rede social envolvem o fim das possibilidades de ganhar os sorteios, bloqueio de funções e até mesmo perda definitiva da conta. Isso porque a plataforma analisa, por exemplo, os movimentos do mouse e a velocidade de envio dos comentários – tudo para erradicar atividades não permitidas pelos seus termos de uso. Por isso, Ricardo explica que também não adiantaria espaçar os comentários em períodos mais longos, como sugerem os vendedores do robô.
Além disso, a instalação de extensões ou aplicativos desconhecidos pode acarretar em invasão do computador ou celular, monitoramento de atividade e roubo de senhas e informações pessoais. Para evitar danos, o especialista indica: verificar se o aplicativo está disponível na loja oficial do sistema operacional; ter antivírus instalados em todos aparelhos; manter as atualizações do sistema sempre em dia; ser cuidadoso com as permissões dadas aos aplicativos; e manter senhas seguras em todas as plataformas.
Dicas para reforçar sua segurança digital através das senhas
- Tenha senhas fortes, que incluam números e caracteres especiais de forma não óbvia;
- Habilite a verificação de dois fatores em todas redes e plataformas nas quais ela estiver disponível;
- Utilize senhas diferentes para cada rede social e plataforma;
- Utilize um cofre de senhas para não esquecer nenhuma. Exemplos: Bitwarden, 1 Password, Last Pass.
Como identificar possíveis golpes no universo digital
A facilidade para comprar produtos pela internet, aliada à pandemia de Covid-19, foram essenciais para popularizar a prática. Muitas vezes, sequer suspeitamos de golpes ou enganações. Apesar disso, é fundamental analisar muito bem a oferta antes de fazer a compra.

Elyana Paula de Oliveira Bespalhok, 46, viu anúncios sobre o robô do pix no Facebook. A ideia de investir R$240 e ter retornos de ao menos R$300 por semana parecia ótima. Assim que teve acesso ao produto, fez a instalação da extensão indicada, mas percebeu que não sabia usar a ferramenta. De todas as aulas, que deveriam ajudar a compreender o funcionamento da automação, apenas uma estava liberada – as demais estariam disponíveis a cada 2 dias, totalizando um período superior aos 7 dias de garantia.
A costureira, que vive em Apucarana, Paraná, teve algumas funções da sua conta no Instagram bloqueadas já no segundo dia de uso do robô. Elyana relata que “caiu em si” ao pesquisar mais sobre o produto, tendo acesso a diversos vídeos que alertavam sobre o golpe. Mesmo solicitando a devolução do valor, foi ignorada pelo suporte e teve dificuldades de contato também com seu banco. Ela tentou, ainda, registrar denúncia de crime virtual, porém não teve acesso ao CNPJ utilizado para as vendas. No final das contas, o prejuízo foi financeiro e psicológico.
O especialista em Segurança Cibernética, Ricardo Ribeiro Tavares, destaca que, além de compreender tecnicamente o funcionamento do produto, é preciso buscar opiniões de quem já teve acesso a ele – de preferência, de quem não está satisfeito, buscando compreender os motivos. Um amigo de Elyana, ao ficar sabendo do caso, contou que estava “quase comprando o produto”.
As consequências do golpe e o que pode ser feito
Quando tratamos do universo digital, devemos sempre evitar entrar em situações de risco. Ainda assim, sempre que se sentir lesado, o indivíduo pode recorrer à justiça. O advogado especialista em Cibercrimes e Direito Digital, Luiz Augusto D’Urso, explica que, caso o comprador do robô do pix se sinta enganado, pode registrar um boletim de ocorrência (que é feito online ou presencialmente a depender da cidade). Para isso, é importante registrar todas as informações que possam servir como prova: prints de conversas, trocas de e-mail, transferências bancárias e outros.
Os boletins de ocorrência ligados a subtração de valores de forma mal intencionada são de crime de estelionato, neste caso na modalidade de fraude eletrônica (artigo 171 do Código Penal). Já se o aplicativo utilizado tiver criado vulnerabilidades nos dispositivos eletrônicos da vítima (com o objetivo de distribuir dados pessoais e financeiros sem autorização, por exemplo) o ato pode levar a até 4 anos de reclusão, conforme previsto pelo artigo 154-a do Código Penal.
Entre os famosos que divulgaram o robô do pix, já há quem se arrependa do ato. Em participação no podcast Flow no dia 03 de fevereiro (conforme vídeo a seguir), o tetracampeão mundial de boxe Acelino “Popó” Freitas admitiu ter devolvido R$100 mil que recebeu para fazer propagandas do produto. Segundo ele, apesar de ter postado sobre o robô anteriormente, relatos de seguidores o fizeram desistir do valor. Na visão de Mirella, que quase perdeu sua conta profissional no Instagram, a publicidade é antiética: “Eu não indicaria [o produto] jamais pra outra pessoa, e também nunca iria, se eu fosse uma blogueira, divulgar isso.”
Vendedores do robô do pix defendem o produto
Para os vendedores e afiliados do robô do pix, as transferências são reais: apenas 6 dos mais de 20 produtos registrados na Hotmart (plataforma voltada para venda, distribuição e consumo de produtos digitais) já geraram mais de R$106 mil; essa conta considera somente um número base de vendas indicado pela Hotmart, não incluindo vendas de outros produtos e através de outras ferramentas. Em um dos grupos de afiliados no WhatsApp, o dono do produto dizia estar produzindo conteúdos para ajudá-los a “chegar no milhão esse ano”.
Os registros empresariais dos robôs também despertam suspeitas. Um dos CNPJs, utilizado para oferta de ganhos através de criptomoedas, foi registrado no endereço do prédio comercial onde fica o escritório do Consulado da Finlândia em São Paulo, conforme publicado pelo portal Terra no dia 21/02. A administração do edifício nega a existência da empresa no local.
O Humanista tentou contato com três responsáveis por CNPJs utilizados para a comercialização do robô; todos os números de telefone constaram como não existentes. Por e-mail, um deles informou que “Esse produto não está mais disponível para vendas. Apenas está hospedado na plataforma (Hotmart) mas com status de inatividade. Caso aconteça de algum cliente comprar devido ter pesquisado na internet, o dinheiro é devolvido”. Outro responsável admitiu vender automações de comentários, mas disse não se tratar de robô de pix e afirmou que as vendas não estão mais acontecendo; no mesmo dia, a imagem do produto seguia incluindo os dizeres “robô do pix” e as vendas estavam abertas na plataforma.
Fica, por fim, a dica do especialista em Segurança Cibernética, Ricardo Ribeiro Tavares: é preciso ter em mente que não existe dinheiro fácil. Ao menos, poderíamos acrescentar, de forma lícita.




