Humanista

jornalismo e direitos humanos

Big Brother Brasil e a responsabilidade social da Rede Globo

Após o término do BBB 22, nesta terça-feira (26/04), o Humanista reflete para além das políticas de compliance do programa: quando os direitos humanos se encontram com a responsabilidade social corporativa

O BBB (Big Brother Brasil) tal qual conhecemos é exibido pela TV Globo desde 2002 e seu formato foi importado do reality holandês “Big Brother”, criado em 1999 por John de Mol, que também foi criador de outros formatos já consagrados dentro do mercado midiático como “The Voice” e “Deal or No Deal” (Topa ou Não Topa). Nesse sentido, os três programas foram distribuídos e vendidos ao redor do mundo, tornando-se, pois, fenômenos globais de entretenimento. Com o fim da edição 2022 do BBB, o Humanista reflete sobre as implicações sociais dessa história que já dura 20 anos.

O Big Brother Brasil, tem como princípio o confinamento dos seus participantes, que disputam entre si diversas provas, tendo como objetivo final o prêmio de um milhão e meio de reais. A bem da verdade, o programa tem se reinventado ano após ano; com provas cada vez mais sofisticadas, novas possibilidades de posicionamento publicitário, configurações de jogo, técnicas de edição cada vez mais rebuscadas e até mesmo novos apresentadores. Apesar disso, e não raro, ano após ano ainda podemos identificar diversas denúncias de homofobia, racismo, sexismo e violação dos direitos humanos contra o programa.  Ainda em 2011 o Ministério Público enviou à Rede Globo uma recomendação oficial pedindo para que a emissora respeitasse os direitos humanos na edição daquele ano. No mesmo documento, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão pontuou que em 2010 o programa recebeu 400 reclamações contendo denúncias de diversas naturezas sobre casos de homofobia, incitação à violência, apelo sexual, inadequação no horário de exibição e violação da dignidade da pessoa humana.

Naquele mesmo ano, a emissora teve que exibir um comunicado explicativo sobre o vírus HIV e suas formas de contágios. Isso aconteceu após Marcelo Dourado – um dos participantes da edição – dizer que heterossexuais não contraem AIDS. Foi somente após uma recomendação do MPF que a Rede Globo criou normas de autorregulamentação prevendo programas de qualidade e que atendam finalidades artísticas, culturais e educativas. Segundo o documento ainda temos:

“- adotar medidas preventivas necessárias para evitar a veiculação de práticas de violações de direitos humanos, tais como tratamento desumano ou degradante, preconceito, racismo e homofobia(…)”

Apesar da ação voltada à adoção de políticas de compliance, o BBB segue sem ações concretas para mitigar a violação de direitos humanos. Basta o olhar crítico sobre diversos acontecimentos no programa. Como exemplo podemos relembrar o caso da psicóloga Lumena Aleluia e a cantora Karol Conká no BBB 21, em que ambas protagonizaram alguns episódios de Bullying e Abuso Moral com o participante Lucas Penteado, culminando na desistência do último.

Há que se notar o esforço do programa em realizar processos de casting, que levam cada vez mais em consideração a diversidade em suas mais diversas experiências. Nesse sentido, em 2021, na décima nona edição do reality, o BBB atingiu o posto de reality show com o maior número de participantes negros. Apesar disso, não podemos considerar esse processo como orgânico – fruto da preocupação da Rede Globo com os temas como diversidade e minorias. Afinal, faz-se importante pontuar a conveniência dessa mudança de postura no programa, logo após a décima oitava edição – marcada por diversas colocações de cunho preconceituoso da vencedora Paula Von Sperling.

Na ocasião, a influenciadora proferiu comentários de ódio e foi alvo de ação penal pública feita na Delegacia de Combate à Intolerância Religiosa. A participante afirmou que tinha medo de Rodrigo França por conta de suas práticas religiosas, ligadas à cultura negra. Além disso, em uma de suas falas, referiu-se ao cabelo crespo de Rodrigo como “cabelo ruim”.

Por fim, apesar dos esforços da emissora em aplicar em parte algumas políticas de compliance, poucas resultaram em ações práticas que tivessem reverberações suficientes no meio social para dado tamanho da empresa midiática. Ainda nesse sentido, é importante dizer que não podemos nos referir ao BBB como um produto midiático que reproduz a sociedade dentro de uma perspectiva refratada. Afinal, trata-se de um eufemismo, pois o programa é reflexo da sociedade brasileira – desigual, violento e intolerante para as minorias.

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