Maira Miguel
O portal Humanista conferiu afirmações a respeito do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra), divulgadas no Twitter e replicadas em páginas no Facebook. Segundo o tuíte, o “MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, é também o maior produtor de produtos orgânicos do país. Pagam impostos. Usam terras que estavam improdutivas para produzir e gerar lucros para o Brasil.”

Separamos as assertivas
1- MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina

A informação foi amplamente divulgada em 2017 por veículos como a BBC e continuou sendo replicada em 2018. Segundo a reportagem da versão brasileira do veículo britânico , o IRGA (Instituto Riograndense de Arroz) confirmou que o MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. No entanto, o Humanista não encontrou dados para verificar a informação no site do Instituto. O IRGA também foi contatado, mas até a publicação da checagem não havia respondido.
2 – MST é o maior produtor de produtos orgânicos do país

De acordo com as informações mais recentes dos dados abertos do Ministério da Agricultura (2016), há um cadastro nacional de produtores orgânicos. Contudo, não encontramos dados quantitativos a respeito da produção desses cadastrados, nem quais são as cooperativas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.
3 – Pagam impostos

Cooperativas, que são a forma de organização de produção do MST, estão sujeitas ao pagamento de impostos, dependendo do seu nível de industrialização e demais especificidades, varia a quantidade e, consequentemente, o valor final dos impostos.
4 – Usam terras que estavam improdutivas para produzir e gerar lucros para o Brasil

A Constituição Federal de 1988 prevê em seu artigo 184 que: “Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social […]”. O proprietário que não dá propriedade à função social que dela se espera, com a utilização dos recursos naturais, preservação do meio-ambiente, produção e bom uso do solo, poderá perder o direito sobre a propriedade. Ser proprietário e possuidor de grandes quantidades de terras rurais é possível e legal. O que não coaduna com o princípio da função social da propriedade é deixá-las ao total descaso, com finalidade de ostentar poderio e riqueza, sem nenhuma produtividade. Não há dados que mostrem quais são as propriedades ocupadas pelo MST e também não há documentos disponíveis que mostrem o lucro que a produção do movimento arrecada.
ERRATA
O Humanista alterou as duas primeiras etiquetas no dia 10 de novembro de 2020. Até esta data, havíamos colocado “Impossível provar” como selo. A partir dela, a redação optou por usar “Inconclusivo”, já que nós não encontramos a resposta a tempo da publicação da reportagem.
FOTO DE CAPA: Ramiro Furquim/Sul21



Ao afirmarem nesse artigo que: “Não há dados que mostrem quais são as propriedades ocupadas pelo MST e também não há documentos disponíveis que mostrem o lucro que a produção do movimento arrecada.”, com a devida vênia, aparentemente não quis se aprofundar, mas apenas tirar conclusões precipitadas e ainda questionar veículos de comunicação tradicionais e seríssimos como a BBC, procurando induzir o leitor que suas conclusões, contrárias à imprensa, estariam corretas.
Fosse um trabalho de pesquisa para procurar fazer um contraponto minimamente científico, deveria citar suas fontes e não fazer conclusões imprecisas como se fossem suficientes. Ora, dizer que não há dados que mostrem quais são as terras ocupadas por produtores rurais ligados ao MST é falsear a verdade dos fatos, pois se as terras que elez ocupam são originadas, obviamente, de morosos processos de desapropriação, os quais deixam muito claro inclusive o cumprimento de requisitos legais e constitucionais para tanto, como citado pelo próprio artigo, é inaceitável que esses dados simplesmente inexistiriam. A verdade, me parece, é que não houve empenho em investigar e expor todos os fatos, apenas se concluiu que não existam.
Portanto, com todo respeito, mas muito me impressiona e entristece que artigos lacônicos como este possam ser vinculados à UFRGS!
Caro Sandro,
Antes de mais nada, obrigado pela sua leitura e também pelas críticas. O portal Humanista é um veículo jornalístico laboratorial, produzido por estudantes de jornalismo da Fabico/UFRGS. A produção, portanto, tem caráter experimental e está sempre sujeita a efeitos públicos dos mais variados; efeitos importantes no processo pedagógico de formação dos futuros jornalistas. A sua participação, nesse contexto, e universalizando-a como manifestação da opinião pública, é fundamental para a aprendizagem.
A peça específica a que tu te referes trata-se de exercício de verificação de fatos (fact-checking, em inglês) que visa a – estritamente do ponto de vista jornalístico, e não científico – esclarecer informações que circulam no ambiente digital em meio ao fenômeno da desinformação que se constituiu contemporaneamente. O protocolo para a realização do exercício é o oferecido pela International Fact-Checking Network (IFCN) e as etiquetas que classificam as informações são as mesmas utilizadas pela Filtro Fact-Checking, iniciativa gaúcha de checagem de fatos. A etiqueta “impossível provar”, que é a utilizada nas checagens que tu criticas, é utilizada quando “Não existem dados ou estudos confiáveis publicados que embasam a afirmação, no momento da checagem” (https://pensamento.org/nossa-classificacao/); veículos jornalísticos apenas, por maior que seja a sua legitimidade e credibilidade, como é o caso da BBC Brasil, não são indicados como fontes. Cabe salientar que os estudos em jornalismo dedicados ao tema têm apontado para uma crítica necessária ao protocolo, entendido como uma espécie de “ditadura do tecnicismo” baseada na ideia de que é preciso sempre que a etiqueta se sustente em informações muito aferíveis empiricamente, dados e documentos em geral.
Há de se considerar, ainda, a natureza laboratorial do exercício, do que decorrem limitações na relação com agências profissionais de checagem. Não obstante, neste caso específico a avaliação editorial do portal Humanista foi a de que a checagem atende aos critérios mínimos para a publicação – o que, reitera-se, não a exime de críticas.
Mais uma vez agradecemos pela sua crítica e seguimos contanto com a sua audiência.
Att,
Portal Humanista
O Portal Humanista contatou a cooperativa arrozeira do MST solicitando envio de dados fiscais, de exportação ou etc, que confirmem dados de comercialização do produto? Quais dados foram solicitados ao IRGA? Bora fazer um jornalismo investigativo mais aprofundado e buscar essas informações via outros órgãos ou entidades.
Um discurso muito pouco convincente. Não só a BBC constatou a natureza e procedência da agricultura engenhosamente mantida pelo MST. Mas, o IRGA também. Aliás, com um pouco mais de pesquisa e boa fé, o autor do post teria acesso às premiações recebidas pelo Movimento, em plantio de arroz, por exemplo. Prêmios como “Canudos” e “Trofeu Evidência”, concedidos, em favor do manejo do plantio… Pesquise e se aprofunde um pouco mais… O post é parcial e pouco técnico.
Prezado André,
Atualizamos a matéria para precisar nossa checagem. Agradecemos o comentário.
Att,
Portal Humanista.
A sua réplica é totalmente subjetiva, ou seja, nada diz…
Há várias informações, nomes e referências para servir de elemento de checagem aqui minha gente:
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/578344-mst-colheu-27-mil-toneladas-de-arroz-sem-veneno
Prezada Cris,
Antes de mais nada, obrigado pela sua leitura e também pelas críticas. Como já fizemos em comentário anterior, também à essa peça, destacamos que o portal Humanista é um veículo jornalístico laboratorial, produzido por estudantes de jornalismo da Fabico/UFRGS. A produção, portanto, tem caráter experimental e está sempre sujeita a efeitos públicos dos mais variados; efeitos importantes no processo pedagógico de formação dos futuros jornalistas. A sua participação, nesse contexto, e universalizando-a como manifestação da opinião pública, é fundamental para a aprendizagem.
Neste contexto, enfrentamos algumas contingências de tempo e disponibilidade das fontes, por exemplo, que podem determinar falhas no processo de apuração e checagem de informações. Não entendemos isso como natural. Pelo contrário, tentamos superá-las e/ou buscar alternativas à elas. Mas sempre refletindo sobre elas, acima de tudo. Nesse caso específico, a avaliação acabou sendo a de que poderíamos publicar o resultado da checagem comas informações que tínhamos.
De qualquer forma, estamos iniciando um novo semestre e, com ele, renovam-se os estudantes que produzem para o portal por meio da disciplina de Laboratório de Jornalismo Convergente. Certamente as suas ponderações e sugestões serão consideradas na evolução dialética dos processos que empregamos.
Mais uma vez, obrigado pela participação.
Att,
Portal Humanista
Caros estudantes da Fabico/UFRGS,
Antes de mais nada, gostaria de louvar a tentativa de realizar um fact-checking, algo tão necessário em tempos de fake news e manipulação de informações como forma de direcionar a opinião pública.
Como ex-aluna de graduação, mestrado e doutorado da UFRGS, tendo atuado em pesquisa desde o estágio de iniciação científica, gostaria de lembrá-los da responsabilidade de um pesquisador com a publicação de informações falsas. Na área jornalística então, isso é mais crucial. Diria que é mesmo o cerne da profissão: o compromisso com a verdade, independentemente de suas crenças ideológicas.
Assim sendo, estou certa de que sabem que “caráter experimental” não é desculpa para afirmarem que é “impossível provar” uma informação que pode ser obtida sim em registros públicos que não se quis ou não houve tempo, capacidade ou interesse de consultar. A culpa não é do protocolo e ninguém sugeriu que a única fonte de confirmação fosse a reportagem da BBC. O protocolo é “não existem dados ou estudos confiáveis publicados que embasam a informação no momento da checagem”. E a verdade é que existem. Então houve um erro. E o bom jornalismo recomenda que os erros sejam assumidos, sob pena de perda de credibilidade. Erratas existem para isso.
Se os critérios mínimos para publicação do portal Humanista permitem tal descompromisso com a verdade, devem ser revistos, independentemente do caráter laboratorial do exercício. Se esse caráter implica descompromisso com a verdade não deveria ser acessível ao público ou deveria conter um disclaimer do tipo “este fact checking é apenas um exercício e não deve ser considerado para atestar a veracidade das informações checadas”.
Espero que minha crítica seja útil pedagogicamente, mas saibam que não contarão mais com minha audiência, que foi obtida fortuitamente através do Google, quando procurava por informações confiáveis sobre o assunto, o que aparentemente não posso ter certeza de encontrar aqui.
Prezada Danielle,
Agradecemos a sua leitura e o seu retorno. Atualizamos a matéria de modo a precisar melhor o que foi feito no nosso trabalho de checagem (está explicado na nossa “Errata”). Vale salientar, no entanto, que todo o material publicado no portal é feito por estudantes de Jornalismo e, portanto, está sujeito a erros – aliás, como qualquer outro veículo jornalístico. Deixamos claro nossa apresentação (aba “Sobre”) que somos um jornal laboratorial.
Obrigado, novamente, pelo seu comentário. Ficaremos atentos a eventuais novas checagens,
Att,
Portal Humanista.