[Contém spoiler]
Considerado o prêmio mais importante do cinema comercial do mundo, o Oscar é concedido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e reconhece a excelência do trabalho e conquistas cinematográficas. A 95ª cerimônia de entrega das estatuetas acontece neste domingo (12), no icônico Dolby Theatre, em Los Angeles. Entre os indicados, quem lidera a lista é o longa-metragem “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, dos diretores Daniel Kwan e Daniel Scheinert, que disputa 11 estatuetas, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz – com Michelle Yeoh.
Na esteira do termômetro do Oscar, o Humanista preparou uma lista dos indicados na categoria de Melhor Filme, traçando um paralelo entre as temáticas das 10 produções e assuntos ligados aos direitos e relações humanas. Entre os principais temas, têm destaque questões individuais – como a sede por poder e individualismo – e o impacto delas nas relações (principalmente familiares), assim como a influência na sociedade como um todo; de questões micro a macro sociais. Confira!
Nada de Novo no Front
(All Quiet on the Western Front)

Dirigido pelo alemão Edward Berder, Nada de Novo no Front é uma produção do gênero drama de guerra. O filme conta a história de um grupo de amigos que escolhe se alistar no exército alemão para lutar na Primeira Guerra Mundial. O longa é baseado no romance de 1928 do autor alemão Erich Maria Remarque, inspirado em suas próprias experiências vivendo os horrores da guerra na linha de frente. É visível que a produção é antimilitarista, já que os jovens foram enganados pela propaganda política nacionalista de Direita, indo para o front com a esperança de voltarem para os seus lares como heróis. Chegando ao campo de batalha, precisam encarar a fome, o frio e, obviamente, a violência e morte das trincheiras. Além disso, o ritmo da natureza também é abordado na produção. O filme abre e encerra com paisagens naturais. Esses momentos líricos não têm apenas apelo visual, mas mostram como o meio ambiente tenta seguir seu ritmo natural mesmo com as batalhas humanas pautadas na ganância e na sede pelo poder acontecendo ao seu redor.
Avatar: O Caminho da Água
(Avatar: The Way of Water)

O segundo filme da saga Avatar tem gerado burburinho não pelo enredo da produção, mas pelos números arrecadados. O longa de James Cameron se tornou a terceira maior bilheteria da história do cinema no fim de fevereiro e, atualmente, conta com US$ 2,282 bilhões de receita. O primeiro Avatar (2009) lidera a lista, com US$ 2,923 bilhões. Nesta continuação, o roteiro busca explorar o outro lado do planeta Pandora, mostrando lugares, animais e detalhes do fundo do mar. Além de trazer as questões da natureza e preservação desse ambiente, que são bastante explorados no visual, não no roteiro. O Caminho da Água também abarca o escopo sentimental e as relações familiares. Mais de uma década depois, a trama traz de volta uma ameaça para Jake (Sam Worthington), Neytiri (Zoe Saldana) e sua família: um clone do coronel Quaritch (Stephen Lang) tenta se infiltrar em Pandora. Esse arco obsessivo de vingança reflete sentimentos humanos, assim como a tentativa de Jake de fugir do conflito, temendo as implicações negativas que podem surgir sobre sua família.
Os Banshees de Inisherin
(The Banshees of Inisherin)

O primeiro filme do diretor e roteirista Martin McDonagh depois do premiado Três Anúncios para um Crime (2017) se passa em uma ilha habitada por poucas centenas de pessoas, sem ligação com o continente, na Irlanda de 1923. O período é marcado pela guerra civil entre católicos e protestantes, mas o conflito fica de plano de fundo, em meio a uma guerra de proporções muito menores - mas consequências trágicas - entre dois grandes amigos, Colm (Brendam Gleeson) e Pádraic (Colin Farrell). O primeiro está passando por uma crise existencial e decide que não quer morrer sem deixar um legado. Para isso, rompe os laços de amizade para utilizar o tempo despendido na companhia de Pádraic para se dedicar à música e composição. Inconformado com a perda do amigo, o personagem de Farrell tenta fazer de tudo para que tudo volte a ser como era. O filme aborda, sobretudo, relações humanas, dependência emocional e a falta de habilidade com mudanças, já que essa dinâmica diferente de vida afeta toda a rotina e deixa Pádraic à beira da loucura. Além, claro, da questão egocêntrica dos dois amigos. Um, que não cede na decisão inicial de romper os laços; outro, que não aceita a decisão e faz de tudo para reverter.
Elvis

O longa de Baz Luhrmann vem acumulando prêmios em diversos festivais, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Ator para Austin Butler, que trouxe para as telonas o eterno rei do rock. A escolha narrativa é trazer a história pela voz do empresário controverso do artista, o “coronel” Parker (Tom Hanks). A cinebiografia faz um esforço para trazer uma imagem mais jovial de Elvis, para afastar do imaginário coletivo a caricatura do fim de carreira do cantor em Las Vegas, na qual estava esgotado pelo excesso de trabalho e consumo de remédios e álcool. A produção vai da infância à morte do ídolo, passando pela formação de suas referências musicais (que derivam muito das raízes negras da música americana), até a decadência da carreira, ocasionada em grande parte pela ganância de seu empresário, que o faz, literalmente, trabalhar até a morte, a exploração do trabalho é um dos temas principais da trama.
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
(Everything Everywhere All at Once)

A dramédia de ficção científica multiversal de Daniel Kwan e Daniel Scheinert já conquistou o feito de ser o filme mais premiado da história, segundo o IGM, chegando para disputar o Oscar com 158 vitórias em prêmios de associações de críticos. A produção independente figura como a favorita na categoria, assim como Michelle Yeoh aparece como um das principais apostas para Melhor Atriz - pelo menos quando considerada a opinião do público -, por interpretar Evelyn Quan Wang, sendo que já entrou para a história como a primeira asiática amarela indicada ao prêmio. O longa cumpre a promessa de seu título: aborda diversos assuntos, desde questões filosóficas como o niilismo até masculinidade frágil. A grande questão existencial do filme é personificada, porém, na personagem que deveria ser a “vilã” da trama, Jobu Tupaki (Stephanie Hsu). A visão inicial de que ela só tem sede por destruição logo é desconstruída, e o espectador pode ver que a busca é mais profunda e ela quer algo que, no fundo, todos querem: ser vista e aceita. Tudo isso entra na temática já trazida por outros filmes, que é sobre as relações familiares disfuncionais.
Os Fabelmans
(The Fabelmans)

Em uma tentativa de fazer uma autobiografia em filme, Steven Spielberg passa pela história do cinema dos Estados Unidos e da maneira de produzir filmes em si. Os Fabelmans mostra o primeiro contato com o cinema, as experiências como cineasta amador e a chegada ao universo profissional do cinema hollywoodiano. As propagandas da Universal sobre o filme, inclusive, trazem a voz do próprio diretor falando “desta vez, não se trata de metáfora, mas de memória”. O filme aborda o poder de transformação da arte - que, em uma sociedade de consumo, que busca por produtividade e dinheiro a todo custo, é deixado de escanteio na maior parte do tempo. Em contrapartida, também pode ser visto como uma continuação do cineasta ao reforço dos mitos e tradições fordistas que permeiam a sociedade estadunidense. O alter-ego de Spielberg, Sam (Gabriel LaBelle), cresce cercado por desertos no Arizona e alienado da realidade de seu núcleo familiar. Logo, o filme não puxa o espectador apenas pela memória, mas pela metalinguagem - coisa que não é costumeiramente vista no trabalho de Spielberg -, ao falar sobre os processos mecânicos envolvidos no fazer cinematográfico.
Tár

O longa-metragem escrito e dirigido por Todd Field mostra o auge e a queda da carreira da maestrina da Filarmônica de Berlim, Lydia Tár (Cate Blanchett). Apesar de parecer um filme biográfico, ao deixar a sala de cinema, o público pode se surpreender ao jogar o nome da maestrina no Google e se deparar apenas com informações sobre o filme. Isso acontece porque Lydia Tár nunca existiu, mas é um reflexo do que a arrogância e o pedantismo podem fazer com o ser humano. É difícil estabelecer uma conexão com a personagem, mesmo a história sendo contada do ponto de vista dela, já que a personagem não esboça empatia e sentimentos bons com quase ninguém - com exceção de sua filha Petra (Mila Bogojevic). A produção, então, também pode ser encaixada em uma das concorrentes à estatueta que trata sobre questões essenciais e da psicologia humana, passando por relações familiares e profissionais problemáticas, de pouca comunicação e na qual a sede por poder e glória são tidas como principais.
Top Gun: Maverick

O filme sequência de Top Gun (1986) traz Tom Cruise novamente no papel de Pete “Maverick” Mitchell. A demora para a sequência sair tem ligação com toda a ideia de “herói americano” que foi perdendo força no contexto pós-guerra, em que explodiram casos de veteranos com depressão e estresse pós-traumático. Por isso, o segundo filme da saga abandona esse nacionalismo para abordar questões sociais e psicológicas humanas, principalmente ligadas à perda, já que o personagem principal luta para superar a morte de seu melhor amigo, Nick Goose (Anthony Edwards), que faleceu em um treinamento durante o primeiro filme. A trama passa pela batalha - que, dessa vez, é muito mais interna - de reapreender questões sociais básicas, como a confiança, o trabalho em equipe e a importância dos laços familiares.
Triângulo da Tristeza
(Triangle of Sadness)

Tema do último #CríticaHumanista, o filme com direção do sueco Ruben Östlund se passa, em grande parte, dentro de um cruzeiro luxuoso. O longa que logrou a Östlund a sua segunda Palma de Ouro em Cannes - a primeira havia sido com The Square: A Arte da Discórdia (2017) - trata, principalmente, da futilidade do mundo atual e das classes privilegiadas. A comédia satírica tem como personagens principais um casal de modelos e influenciadores, Carl (Harris Dickinson) e Yaya (Charlbi Dean). Toda a tripulação faz de tudo para agradar os dois, para que esse “bem servir” seja midiatizado nas redes do casal, com exceção do capitão da embarcação, que se recusa a sair de sua cabine. Essa ironia a um universo de luxúria e aparências em um mundo tão desigual segue uma leva de produções neste estilo - e que tem feito sucesso - como The White Lotus, O Menu, Succession e Glass Onion.
Entre Mulheres
(Women Talking)

Também indicado na categoria de Roteiro Adaptado, o longa dirigido por Sarah Polley é baseado no livro homônimo de Miriam Toews. A história acompanha um grupo de mulheres que moram em uma comunidade cristã menonita isolada nos Estados Unidos. As personagens formam um plebiscito após uma sequência de crimes sexuais cometidos por homens da comunidade. Elas querem decidir se deixam o local por segurança ou se irão permanecer e buscar uma comunidade mais segura. Representantes de três famílias são escolhidas para fazer parte do movimento, incluindo as irmãs Salome (Claire Foy) e Ona (Rooney Mara), a cética Mariche (Jessie Buckley) e as matriarcas Agata (Judith Ivey) e Greta (Sheila McCarthy). O filme traz assuntos como o machismo, abusos físicos e psicológicos e o patriarcalismo que ainda é uma realidade, não só nos EUA, mas em todo o mundo. Aqui, o sistema opressor não é personificado, mas baseado no fundamentalismo religioso da sociedade em que vivem.
Acompanhe a premiação
Em 2023, a cerimônia de entrega do Oscar não terá exibição ao vivo na TV aberta, mas é possível acompanhá-la pelo canal fechado TNT ou pelo streaming HBO Max, que exibirá o evento pela primeira vez, a partir das 21 horas. Sites especializados em cinema, como o Omelete, prometem transmissão em tempo real pela internet.




