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Assédio no BBB: “Influencia, e muito”, avalia pesquisador em comunicação sobre debate público

Eliminação do cantor Mc Guimê e do lutador Antônio “Cara de Sapato” Jr. do Big Brother Brasil por assédio ocupou a imprensa e as redes sociais nos últimos dias.

A eliminação do cantor Mc Guimê e do lutador Antônio “Cara de Sapato” Jr. do Big Brother Brasil (TV Globo), reality show de maior audiência no país, na semana passada, pôs novamente em debate a cultura do assédio. Isso porque ambos são suspeitos de importunação sexual (crime tipificado no Código Penal) contra a participante convidada Dania Méndez, influenciadora digital mexicana. Mas o reality show é mesmo um retrato da sociedade em que vivemos?

Para entender como as narrativas que aparecem nesses programas refletem e influenciam o comportamento da audiência – e vice-versa – conversamos com Calvin Cousin, pesquisador de doutorado no PPGGCOM (Programa de Pós-graduação em Comunicação) da UFRGS, que trabalha com temáticas que envolvem redes sociais, influenciadores, interações e sociabilidade. “Nós temos um retrato de uma sociedade que é machista, que não aceita os outros, que tem vários preconceitos”, antecipa Cousin. Confira a entrevista completa!

De que forma nós podemos identificar a cultura do assédio em programas como o Big Brother Brasil?

Calvin Cousin

Em programas como o Big Brother Brasil, eu acho mais fácil a gente pensar de modo geral, nos reality shows como um todo. Sobretudo, porque o Big Brother é um reality show, só que ele está bem no cruzamento entre os realitys shows do estilo Soltos em Floripa, De Férias com o Ex e Keeping Up With The Kardashians, por exemplo, que mostram a vida das pessoas, com o tipo de reality show de competição. Porque ele acaba sendo uma competição para ver quem vai ganhar um o prêmio. 

Mas ao mesmo tempo ele também tem essa parte muito do voyeurismo que outros os programas têm, só que é um voyeurismo levado ao extremo, porque as pessoas lá estão sendo observadas 24 horas por dia. E esse tipo de coisa, por bem ou por mal, gera engajamento porque ele forma uma narrativa porque para um programa que já está na 23ª Edição.

Mas sobre a cultura do assédio, nesse caso especificamente, é o seguinte: as pessoas estão sendo vistas 24 horas por dia, sete dias por semana ao longo de vários meses. Nos casos mais recentes, como foi esse do Cara de Sapato e do Guimê, realmente houve um assédio. Mas é muito comum, por exemplo (não é para defender eles, muito pelo contrário), uma pessoa falar alguma coisa ou mostrar uma reação que não pega muito bem, mas é um negócio que escapa neste 24/7 que eles vivem. Nessa situação em específico é que nós percebemos que, sim, temos um retrato sim da sociedade lá. 

Nós temos um retrato de uma sociedade que é machista, que não aceita os outros, que tem problemas, que tem vários preconceitos. E que muitos participantes, justamente por já serem famosos, acham que estão acima do bem e do mal (e talvez estejam) até porque eles não foram expulsos, foram eliminados do programa para não perderem questões contratuais.

Partindo do princípio que é o maior programa desse tipo no Brasil, até que ponto essas narrativas apresentadas influenciam a população?

Influencia sim, e muito, o debate público. Essa questão, por exemplo, do assédio ocupou bastante as redes, as discussões e matérias de jornal nos últimos dias. Isso é uma coisa que nos outros anos também acontecia. As questões de racismo estiveram bastante em evidência nos últimos anos, nas últimas últimas edições.

Se critica e se tem muitas coisas a se dizer a respeito, mas é um programa que está no horário nobre (cada vez mais tarde) da Rede Globo. É uma vitrine imensa para debater todo e qualquer tipo de coisa. Não só as temáticas das narrativas, mas a própria questão dos patrocínios. As quantidades de coisas que aparecem lá todo dia. Tudo aquilo que está passando ad infinitum, até cansar da cara de todas as pessoas e de tudo que eles fazem.

Você acha que existe uma injustiça no tratamento que se dá aos influenciadores homens no caso que cometem esse tipo de atitude? Por exemplo, em outra edição a Karol ConKá que foi um caso de cancelamento geral na internet, nas redes e na opinião pública. Depois ela foi eliminada, mas dentro das regras do jogo. Enfim, existe um tratamento mais leve quando o influenciador é homem? 

Com certeza. Quando o influenciador é um homem branco, hétero, e por aí vai, o tratamento é diferente. É só olhar as críticas que o Fred Nicácio sofria. Eu acho ele fantástico porque é um tipo de gay que até então não tinha aparecido no Big Brother. Ele é um gay seguro de si. Já tiveram vários gays que foram figuras fantásticas no programa, mas ele é o primeiro que tem todo esse carisma que muitos outros – inclusive que fizeram muito sucesso – não tinham. 

O que eu acho que a gente tem que destacar nesse caso é que o Cara de Sapato e o Guimê foram sim punidos pela produção do programa. O contrato não foi quebrado, mas eles foram punidos. A Karol ConKá não cometeu uma conduta criminosa, embora tenha sido abusiva,  e não foi punida pela produção do programa. O povo se sentiu na necessidade de fazer justiça com as próprias mãos. 

Só que se a gente for parar pra pensar, ela também teve muitos apoios da própria emissora. Todo o espaço que deram para ela, a minissérie que ganhou depois para contar a sua história. Com certeza são situações diferentes por parte do público. Mas se for olhar para a postura da emissora, eu teria um pouco de cautela em dizer se o tratamento realmente foi tão diferente assim.

A finalidade nesse caso de importunação sexual, sendo um caso que foi televisionado, poderia ser um padrão de punição para outros participantes? 

Alguns anos atrás aconteceu uma coisa semelhante, mas ele (o participante) foi expulso durante a tarde. Eles desligaram as câmeras do PayPerView e o cara saiu da edição. Isso foi no BBB 12. Mas também foi parecido, ele ia esponder judicialmente e no final não deu nada. Mas ele foi tirado do programa, teve que responder. É a mesma coisa que tá acontecendo com eles. A diferença, lógico, são onze anos por cima e o fato de que Mc Guimê e o Cara de Sapato têm equipes de produção e de assessoria enormes por trás deles que vão dar, senão legalmente, pelo menos socialmente pro público outra visão. 

Servir de exemplo é algo que depende, pois como eu falei, [o programa] sempre procura uma nova narrativa. E a verdade é que as lições que se aprende numa edição do BBB não servem muito para o BBB seguinte.

Eu acredito que as pessoas podem ter mais cuidado, talvez de não falar tantos absurdos. A própria edição pode tomar mais cuidado. Um exemplo disso foi ano passado quando a Maria talvez, ou de propósito, bateu com um balde na cabeça da outra participante. E a partir desse ano, quando tem essas dinâmicas mais físicas quem dá a fisicalidade para elas é a própria produção. Acho que é uma lição pros participantes, uma lição para emissora e para produção do programa.

Como é que você enxerga essa atitude da direção do problema em expulsar? Ela é educativa pro público ou é feita só para se lavar as mãos deles? O que você acha?

Eu acho que pode ser as duas coisas. Podia ter sido feito melhor, eles poderiam ter tido um pouco mais de tato com a moça, que também saiu logo em seguida. E algumas pessoas falam que eles deveriam dar nomes aos bois. Mas isso também é uma questão problemática porque você fala que é assédio, mas não algumas vezes não é assédio depois de analisar legalmente, sobretudo se analisar rápido. Aí eles poderiam se incomodar por acusaram os caras de uma coisa que eles não fizeram. Na medida do possível, eles (a produção e a emissora) agiram muito bem. Podia ter sido melhor? Podia, mas foi uma atitude correta. 

Talvez se não fossem pessoas famosas, se fossem do grupo pipoca, talvez eles tivessem dito o que realmente tinha acontecido de maneira mais enfática.

Quando a gente pesquisa no Google o nome dos participantes expulsos, pouco aparece sobre essas acusações. No caso do Guimê, as notícias focam mais na Lexa que sua esposa. E no caso do Cara de Sapato, muitas notícias falam da Amanda, participante que ainda está no programa. Por que que a imprensa parece que tá dando mais relevância para Lexa e para Amanda do que para as acusações em si?

No caso da Lexa também entram os fatos, lógico, dela ser uma famosa e dela ter reagido. Publicamente ter se manifestado a respeito disso tudo, e as pessoas querem saber como está sendo. E começaram esses boatos de que talvez eles fossem se separar. Ela por si já tem uma visibilidade muito grande, e acaba ganhando um respaldo nisso tudo. E a Amanda está no programa, então acaba tendo a visibilidade também.

Eu não enxergo nisso uma tentativa de tirar a atenção deles e passar para elas tanto como eu enxergo uma tentativa de deixar – não vou dizer culpabilizar mais – um pouco mais sério o que eles fizeram. Acho que é uma tentativa de dar credibilidade mais às denúncias, ao problema que eles criaram lá dentro com a participante, envolvendo pessoas que também tem a sua própria visibilidade. Novamente, se envolvesse anônimos, ninguém se importaria tanto. Mas se resume muito a isso, sempre se resume a isso: a visibilidade que as pessoas têm.

O fato deles terem essa visibilidade faz com que justamente se crie mais, é um ciclo vicioso. Sobretudo no programa que vive no regime da atenção, feito para gerar engajamento, feito para as pessoas prestarem atenção. Então, acaba parecendo que a Lexa é uma participante extra desse Big Brother, porque ela acabou se envolvendo num drama. Uma pessoa de fora se envolveu numa narrativa de dentro. E é assim que se criam narrativas todos os anos.

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