Essa análise marca a retomada do #CríticaHumanista neste semestre. A seção foi criada em 2019, com o propósito de dar visibilidade a expressões artísticas que preservem e promovam os direitos humanos, a democracia e a diversidade ou, então, assuntos que estejam nesta esfera.
Produzido pela Rádio Novelo, o podcast “Nenê da Brasilândia” remonta a história da mulher que comandou o maior esquema de tráfico de drogas na cidade de São Paulo nas décadas de 1970 e 1980. Ela colecionou passagens pela polícia, fez amigos e inimigos dentro e fora do crime, mas, mais do que isso, foi uma figura tão temida quanto respeitada pelos moradores. Trata-se de Floripes Souza de Oliveira, a alagoana que fez história no subúrbio de São Paulo, sendo reconhecida como a primeira mulher considerada traficante na região.
Embarcou com a mãe em direção ao estado no “pau de arara” – caminhão coberto por lona que servia como condução na época. Lá, conheceu o trabalho duro logo cedo, e atuou por anos como empregada doméstica em casas de famílias abastadas. Sua história se confunde com a história do Brasil: não apenas viveu sob o cenário de violência no país, como também foi testemunha de que certos privilégios estavam restritos apenas aos bairros nobres da cidade. Presenciar a vida de pessoas ricas que tinham todo o tipo de luxo possível, e depois ter de enfrentar a realidade de retornar para a periferia paulistana foi gerando cada vez mais revolta.
Ela carregou consigo o nome da comunidade homônima que escolheu para se estabelecer na terra da garoa – o bairro da Brasilândia. E assim, se tornou uma das personagens principais da região naquela época. Mulher, mãe e comandante de um esquema de distribuição de tóxicos e entorpecentes da Zona Norte por quase duas décadas. Suas condenações, datadas a partir de 1971, vão de homicídio, tráfico, envolvimento com esquema de jogo do bicho e uso de documento falso.
Ao longo dos oito episódios, um dos relatos mais frequentes é que, em um contexto de ascensão da ditadura militar, quando o governo do país mais se preocupava com os considerados “criminosos políticos”, cabia a Nenê proteger o bairro dos grupos rivais. Enquanto comandou, ela jamais permitiu que invadissem e revirassem as casas dos moradores. Acostumada a realizar ações comunitárias e zelar pela segurança do local, logo ela conquistou a confiança e o carisma no entorno.
A partir dos depoimentos de familiares e moradores do bairro, onde ela viveu e criou seu império, é possível entender como as questões de violência e sexismo perpassam sua trajetória. São 8 episódios relativamente curtos, com apresentação dos jornalistas Davi Molinari e Paulo Motoryn e direção de Paula Sacchetta. Apesar de ter 30 minutos de duração, o formato narrativo escolhido faz com que esse tempo seja quase imperceptível, passando em um estalar de dedos.
Apesar de não fazer parte oficialmente da apresentação, a diretora Paula Sacchetta surge, em vários momentos, para fazer comentários: ela questiona o porquê das mulheres serem comparadas com os homens desse universo – se referindo ao fato de Nenê ter sido ser chamada várias vezes de “Pablo Escobar da quebrada”, ou são reconhecidas no mundo do crime apenas quando são companheiras dos traficantes. O recurso, por ser frequente, pode parecer cansativo, mas funciona como ferramenta para antecipar possíveis problematizações.
A líder foi executada em 1989, em frente a sua residência, em uma situação que nunca foi solucionada. Ela era considerada uma pedra no sapato não apenas de políticos, mas também de traficantes dos arredores na qual mantinha uma rixa, recebendo diversas ameaças de morte – como bem lembra o filho, Luis Carlos França, conhecido como ‘Cal’. Familiares, amigos e comerciantes da região compareceram ao velório, onde mal tinha espaço para circulação, tamanha a importância daquela figura. Em depoimento, Solange, sua sobrinha, comenta que na semana depois da sua morte, o delegado ‘da 45’ afirmou que Nenê fazia muita falta.
O último episódio disponível trata dos últimos momentos de Nenê antes de ser assassinada. Anderson, seu outro filho, foi testemunha ocular, e participa da reconstituição. 35 anos depois, o episódio final busca compreender como está o bairro e o que teria acontecido com a família, amigos e ex “funcionários” dela.
Em uma análise geral, o podcast não a demoniza, tampouco romantiza, mas explora a vida dessa figura complexa para além das páginas policiais na qual ela estampou. O fato é que ela segue viva no imaginário das pessoas. Sendo elas curiosas pela história, ou então, daqueles que conviveram com a personagem controversa que foi Nenê.
FICHA TÉCNICA
“Nenê da Brasilândia” é um podcast Wondery – estúdio global de podcasts adquirido em 2021, ganhando estrutura no Brasil – produzido pela Rádio Novelo. Foi distribuído inicialmente pela Amazon como janela principal, uma estratégia para fortalecer a plataforma como uma potência em podcasts, mas já está disponível em todas as plataformas de áudio.
GLOSSÁRIO
“Servidão”, como é mencionado em alguns episódios, é como os moradores se referem à Estrada Lázaro Amâncio de Barros que, antigamente, se chamava Rua Servidão Pública.




