A primeira semana de julho foi marcada por eleições parlamentares em duas das nações mais ricas da Europa. No Reino Unido e na França, eleitores foram às urnas respectivamente nos dias 4 e 7 de julho para decidirem a nova formação de seus parlamentos.
No Reino Unido, o Partido Trabalhista confirmou as projeções, conquistando 412 dos 650 assentos da Câmara, o que garantiu a indicação de Keir Starmer, líder do partido, à posição de primeiro-ministro do país, o que aconteceu no último dia 5 de julho. A expressiva vitória trabalhista rompeu com uma sequência de 14 anos em que o Partido Conservador compôs maioria no parlamento e pôde definir os primeiros-ministros do país. Em 2024, os conservadores amargaram seu pior desempenho em eleições desde a sua fundação, em 1834, elegendo apenas 120 deputados.
Já na França, a Nova Frente Popular (NFP) – coalizão formada por partidos de esquerda – se tornou o bloco político mais numeroso da Assembleia Nacional: foram 182 deputados eleitos, contra 168 assentos garantidos pelo Juntos – bloco ao qual pertence o presidente do país, Emmanuel Macron – e 143 pela Reunião Nacional (RN), de extrema direita.
Desgaste dos governos
O cientista político e professor de Ciência Política da UFRGS Rodrigo Stumpf González afirma que o desgaste com os governos vigentes foi fator comum nas duas eleições: “Tanto na França quanto no Reino Unido, as eleições foram de populações que estavam descontentes com os atuais governos”.
No Reino Unido, o processo de saída da União Europeia (Brexit) iniciado em 2016 levou ao enfraquecimento do Partido Conservador. “Os sucessivos primeiros-ministros carregaram o peso de tentar cumprir uma promessa que era impossível de ser cumprida, porque era uma promessa falsa de que a saída da União Europeia iria melhorar a economia, quando na verdade o que aconteceu foi o contrário”, avalia González. Antes de dar sinais de crescimento no primeiro semestre de 2024, a economia britânica amargou uma inflação que chegou aos dois dígitos em 2023 e uma recessão de 0,3% no PIB no último trimestre daquele ano.
Somado à questão econômica, boa parte dos eleitores do Partido Conservador esperavam que o Brexit pudesse frear a entrada de imigrantes. A falta de cooperação com a União Europeia no controle de fronteiras, contudo, levou ao aumento dos índices de imigração.
Na França, o descontentamento com o governo de Macron acabou se refletindo na perda de 82 cadeiras do bloco governista na Assembleia, que foram capitalizadas pelos blocos de esquerda e de extrema-direita. O resultado foi a divisão do parlamento em três blocos, sem que nenhum deles chegasse perto de formar maioria, para a qual são necessárias 289 cadeiras. González prevê que a fragmentação do parlamento possa levar a uma paralisia política, em que o governo se vê incapaz de fazer pautas públicas relevantes avançarem. A existência de dissidências entre os próprios partidos que formam a NFP também deve trazer dificuldades para a coalizão executar seu projeto político.
O analista político internacional e professor de Relações Internacionais Fabio Reis Vianna observa que Macron tem tentado usar as rachaduras da NFP para nomear um primeiro-ministro menos radical: “Em tese, o Macron teria que nomear o governo liderado pela Nova Frente Popular, mas ele vem adiando esse processo. A impressão que se tem é que ele espera que a situação esfrie para ver se o Partido Socialista, que é mais moderado, tome uma atitude de frear o partido”. Vianna explica que o Partido Socialista demonstra uma tendência maior de diálogo com blocos de centro, enquanto a França Insubmissa, outro partido que forma a NFP, é mais radical e pede a Macron para que Jean-Luc Mélenchon seja indicado ao cargo de primeiro-ministro – na França, é o presidente quem indica o primeiro-ministro.

Se em Paris o temor é de que a política fique estagnada, em Londres, o Partido Trabalhista deve se preocupar, inicialmente, em controlar a inflação e estabilizar a economia. “Eu imagino que o projeto do Partido Trabalhista seja um projeto não de quatro anos, mas de oito, doze anos. Então, eles devem utilizar esse primeiro período para consolidar a confiança do eleitorado para, a partir daí, começar a fazer propostas”, analisa González.
Avanço da ultradireita
Outro fator comum entre as eleições de ambos os países foi o crescimento da extrema direita. Após não ter conseguido eleger nenhum candidato nas eleições de 2019, o Reform UK conquistou quatro assentos em 2024, sendo o oitavo partido com maior representação no parlamento, e o terceiro mais votado, com 14,3% dos votos. A discrepância entre a quantidade de assentos conquistados e a porcentagem de votos totais obtidos pode ser explicada pelo funcionamento do sistema eleitoral britânico, em que os parlamentares são eleitos por distritos – um candidato de um distrito com menos eleitores pode ser eleito com bem menos votos que um candidato em uma área mais povoada. É o que justifica, inclusive, a diferença de 10% entre os votos totais recebidos pelo Partido Trabalhista e pelo Partido Conservador (33,7% x 23,7%) resultou em uma diferença de 292 cadeiras (412 x 120).
Na França, a Reunião Nacional (RN), de extrema-direita, chegou ao segundo turno como favorita em pesquisas prévias para eleger o bloco mais numeroso da Assembleia Nacional. O favoritismo era consequência dos bons resultados obtidos em junho nas eleições da União Europeia – em que o bloco Identidade e Democracia capitalizou 31,37% dos votos dos eleitores franceses – e no primeiro turno das eleições parlamentares – em que a RN somou 33,15% dos votos válidos.
No entanto, cerca de 200 candidatos de esquerda e de centro desistiram da eleição entre os dois turnos como estratégia para concentrar as intenções de voto e impedir a vitória da ultradireita, manobra que foi decisiva para a virada da NFP. Ainda assim, a “frente republicana” não foi capaz de conter um expressivo avanço da RN, que teve o maior número de votos absolutos (8,7 milhões, o que representa 32,05% dos votos válidos) e elegeu 54 deputados a mais do que possuía até então.
Reflexos no Brasil
Analisando o contexto brasileiro, González acredita que as eleições na França e no Reino Unido não devem causar muitos impactos nas eleições municipais. O professor explica que, salvo grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, de onde saem políticos de maior projeção, as eleições municipais não costumam ser atravessadas pela política internacional: “É provável que as eleições municipais tenham um peso muito maior das questões locais do que das questões nacionais. Nesse caso, o impacto de uma questão de geopolítica internacional é mais difícil”.
Para o professor da UFRGS, os resultados das eleições europeias e, sobretudo, estadunidenses tendem a impactar mais nas eleições presidenciais, quando a política externa entra em debate. Por outro lado, Vianna entende que as eleições externas ajudam a compor o clima das eleições municipais, que não deixa de ser uma avaliação sobre o atual governo. “Apesar de as questões locais serem mais preponderantes, as eleições municipais podem se tornar também uma espécie de plebiscito ou referendo contra ou a favor do governo”, explica.



