Humanista

jornalismo e direitos humanos

Saiba por que o Brasil não terá horário de verão

Ministério de Minas e Energia afirma que a medida não é necessária para garantir a segurança energética do país

O governo federal anunciou na última quarta-feira (16) que o horário de verão não será adotado no Brasil em 2024. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, comunicou a decisão em entrevista coletiva em Brasília. “Na última reunião com o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico),  (…) chegamos à conclusão de que não há necessidade de decretação do horário de verão para esse verão. Nós temos a segurança energética assegurada”, afirmou. 

O ministro se refere ao cenário de seca que atinge o país; conforme o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), essa é a pior estiagem desde 1950. Considerando isso, o ONS chegou a recomendar, em relatório divulgado em setembro, que o horário de verão fosse implementado. Destaca-se que mais da metade (53,88%) da energia elétrica gerada no Brasil vem de usinas hidrelétricas, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e um período de poucas chuvas pode diminuir a capacidade produtiva destes locais.

No entanto, para adotar o horário de verão é preciso considerar que outros setores, como aviação e indústria, enfrentam dificuldades logísticas com o adiantamento de uma hora no relógio. O impacto da medida na saúde da população também é um ponto que divide especialistas. O #ExplicaçãoHumanista te apresenta a polêmica e as diferentes áreas que a envolvem.

Energia, sustentabilidade e economia

O relatório do ONS aponta que a adoção do horário de verão contribuiria para uma maior eficiência do sistema de geração de energia elétrica. Como o período de maior consumo é entre 18h e 20h, o adiantamento do relógio permitiria maior aproveitamento direto de energia solar no intervalo  – que corresponde a 7,2% da matriz energética nacional, segundo a Aneel. Outra fonte importante é a eólica, ou seja, dos ventos, que representa 15,22% do total e tem maior produtividade no período da madrugada. Dessa forma, a maior eficiência da energia solar reduz a necessidade de utilização de outras fontes, como as hidrelétricas, que podem ter a produtividade comprometida pela estiagem. 

No Brasil, em caso de necessidade, a tendência é de utilização de usinas termelétricas, que usam combustíveis fósseis, como petróleo, carvão mineral e gás natural, e biomassa. Um Artigo do Instituto Humanitas, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), reforça que esta produção é uma grande emissora de dióxido de carbono (CO₂), um dos principais gases de efeito estufa – contribuindo para o aquecimento global e para as mudanças climáticas. Além da questão ambiental, o custo de geração é mais alto, o que pode ser repassado à conta de luz do consumidor.

07/04/2021 Cerimônia de posse do novo Diretor-Geral Brasileiro da Itaipu Binacional

Image 1 of 5

A Itaipu Binacional é uma usina hidrelétrica localizada na fronteira entre o Paraguai e o Brasil, que gera energia para os dois países Foto: Alan Santos/PR

O relatório do órgão aponta que a medida poderia trazer uma redução de até 2,9% da demanda máxima de energia elétrica. A estimativa era de uma economia de cerca de R$ 400 milhões com o horário de verão entre outubro e fevereiro.

No entanto, ao anunciar que o horário de verão não será adotado em 2024, o ministro de Minas e Energia destacou que a segurança energética está garantida para esse ano, mas que a medida pode ser reavaliada para o próximo verão. Segundo ele, a decisão foi tomada após conversas com representantes do ONS. “O pico do custo-benefício do horário de verão é nos meses de outubro e novembro, até meados de dezembro. Se nossa posição fosse decretar o horário de verão agora, usufruiríamos muito pouco deste pico. Porque teríamos que fazer um planejamento mínimo para os setores poderem se adaptar. Conseguiríamos entrar com isso só em meados de novembro e o custo-benefício seria muito pequeno”, falou Silveira, sobre o período de aproveitamento da ação.

Vida e saúde

Qualquer mudança no relógio, como viagens para diferentes fusos, afetam biologicamente o ser humano. No caso do horário de verão, essa desregulação também acontece. Conforme artigo publicado pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), a diferença de uma hora no relógio pode causar cansaço e aumento do hormônio Cortisol – liberado antes de acordarmos, como uma espécie de “preparação” para as atividades –, o que tende a diminuir a atenção e provocar alterações no humor. Esse desajuste é temporário e somos capazes de nos adaptarmos em alguns dias. 

Tal adaptação também seria necessária para questões de transporte, especialmente a aviação, por uma questão logística. No setor de aeroportos, é preciso saber da mudança de horário com pelo menos 20 dias de antecedência, visando tempo hábil para ajustes – tanto no início do horário de verão quanto no retorno “à normalidade”.

Um ponto defendido por partes da população que gostariam da volta da medida é que uma hora a mais de iluminação solar no final do dia contribui com a qualidade de vida do trabalhador, que encerra o expediente por volta das 18h – horário comercial. Este movimento é avaliado como positivo pelo comércio e setor de serviços: em setembro, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) se posicionou favorável ao horário de verão, constatando que o faturamento poderia ser elevado em até 15% com a adoção da medida.

O que diz a população

O Datafolha promove pesquisas de opinião acerca do horário de verão desde 2017 e, na edição divulgada na segunda-feira (14), a aprovação popular foi a menor desde que a consulta começou. Segundo o instituto, 47% declararam ser favoráveis à medida e 47% contrários, enquanto 6% é indiferente. A consulta ouviu 2.029 pessoas, em 113 municípios, entre os dias 7 e 8, e a margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança é de 95%. Para fins de comparação, a primeira pesquisa histórica atestou 58% de respostas favoráveis e, em 2021, 55%, demonstrando um declínio na aceitação. O estudo também apontou que a aderência é maior entre homens e na faixa etária de 16 a 24 anos. 

O instituto também abordou a questão política em torno do tema, questionando os entrevistados sobre em quem eles votaram na eleição presidencial de 2022. Dos votantes do presidente Lula (PT), 52% são a favor do horário de verão e 43%, contra (margem de erro de três pontos percentuais). Já o eleitorado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tem 55% de contrários ao horário de verão e 38% favoráveis (margem de erro de quatro pontos percentuais).

Em abril de 2019, Bolsonaro decretou o fim do horário de verão, que vinha sendo empregado de maneira permanente no Brasil desde 2008. A decisão corresponde ao que o seu eleitorado prefere, como mostrado pelo Datafolha.

Mesmo que o horário de verão leve a uma polarização política, o ministro de Minas e Energia afirmou que a decisão de não adotar a medida em 2024 não se baseou em questões partidárias. “É importante que esta política seja sempre considerada. (O horário de verão) não pode ser fruto de uma avaliação apenas dogmática ou de cunho político, pois tem reflexos tanto positivos, quanto negativos, no setor elétrico, quanto na economia (em geral), devendo estar sempre na mesa”, disse. 

Um dos motivos que pode ter levado ao adiamento da decisão foi a sinalização do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de que a mudança poderia interferir na logística das eleições. No pleito de 2024, que tem o segundo turno no próximo domingo (27), a votação acontece exatamente ao mesmo tempo no país, independente do fuso horário. O horário de verão significaria que o evento entre 8h e 17h de Brasília aconteceria entre 5h e 14h no Acre, por exemplo. 

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, em comunicado que oficializou que o horário de verão não será adotado em 2024 –
Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

Deixe um comentário

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support