Com os primeiros relatos de dengue registrados há mais de um século, ano após ano o aumento nos casos da doença se repete no país. Recentemente a patologia se proliferou mais do que o esperado. Os estados de Minas Gerais, Acre e o Distrito Federal decretaram situação de emergência. Dentre todos os números, um dos que mais chama atenção está no Rio Grande do Sul: o Estado registrou um aumento de 2825% nos casos, na contramão do resto do país, onde o aumento ficou em torno de 250%.
O inverno sequer chegou, mas já derrubou a primeira peça do dominó da saúde pública do RS: Porto Alegre está em alerta para o colapso na rede hospitalar. Em seguida, Canoas — referência em atendimento de saúde — declarou emergência. Por fim, o próprio Estado reconheceu a gravidade do cenário. Lotação de emergências, leitos ultrapassando os 100% de ocupação e deslocamento de pacientes entre cidades: a rede de saúde parece ruir sob o peso do previsível.
A dengue, embora peça central do atual quadro, não é a única responsável pela situação. Seu avanço está atrelado às consequências das mudanças climáticas, como já apontamos em reportagem anterior. A alternância entre enchentes históricas e estiagens severas, combinada à circulação simultânea de três sorotipos do vírus, cria o terreno ideal para a doença e o colapso. Neste ano, são mais de 6200 casos confirmados e quase 30 mil notificações suspeitas, o que já supera os anos inteiros de 2022 e 2023 em Porto Alegre.
O cenário não é novo. Neste jornal-laboratório, insistimos na importância de olhar com profundidade para as engrenagens do Sistema Único de Saúde. Conversamos com agentes comunitários, ouvimos suas dificuldades e suas estratégias cotidianas de resistência, como no episódio do nosso podcast especial sobre o SUS. O que vimos foi dedicação, mas também abandono — especialmente nas periferias e nos territórios invisibilizados.
Enquanto os números crescem, o enfrentamento está aquém. Soma-se à crise sanitária a instabilidade na condução da política pública de saúde. Nas últimas semanas, Porto Alegre e o governo estadual protagonizaram um impasse administrativo sobre quem deveria assumir a gestão de serviços estratégicos. O resultado foi o rompimento das negociações e o agravamento da crise — um jogo de empurra que deixa a população sem resposta, como explicamos nessa reportagem sobre o funcionamento da distribuição de verbas na saúde pública do Estado.
O Humanista não sabe qual seria a última peça que esse dominó poderia derrubar, mas segue atento aos desdobramentos dessa omissão com políticas de prevenção da saúde. É necessário pensar na prevenção como prioridade, reconhecendo que saúde não é só remediar a crise — mas evitá-la. Seguimos comprometidos em informar com responsabilidade, o que também é uma forma de cuidado com o próximo.




