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Presença de crianças nas redes sociais preocupa especialistas

Conhecido como sharenting, o registro de memórias e possibilidade de monetização gera questionamentos sobre limites, consentimento e segurança dos pequenos na web

Com o avanço das redes sociais, fotos que antes ficavam guardadas em álbuns de família estão disponíveis em perfis na internet, seja por 24 horas ou por toda a eternidade. Ao assinar os termos de uso, o usuário assume que está ciente do quanto deseja mostrar de sua vida para familiares, amigos e desconhecidos. Mas e quando se trata da imagem de seus filhos, desde o nascimento até idade suficiente para terem sua própria rede?

Nos últimos dias, o vídeo do influenciador Felipe Bressamin, mais conhecido como Felca, repercutiu nas redes sociais ao denunciar a exploração de menores de idade no ambiente digital. A publicação, que ultrapassa 37 milhões de visualizações, também expôs como o algoritmo das redes sociais promove esse tipo de conteúdo e lucra com a adultização de crianças e adolescentes. O tema ganhou força no Congresso, com 32 novos projetos de lei que surgiram após a publicação do vídeo.

Um levantamento realizado pela Security.org, empresa americana especializada em proteção de dados, mostrou que 29% dos pais nunca pedem permissão antes de compartilhar mídias vinculadas ao filho. Essa exposição precoce, muitas vezes iniciada ainda na gestação, pode gerar consequências significativas para o desenvolvimento emocional das crianças, além de abrir margem para crimes como o roubo de identidade, cyberbullying, pedofilia e exploração comercial.

Conhecido como sharenting, o compartilhamento de fotos dos filhos pelos pais tem levantado alertas sobre a exposição infantil nas redes sociais. O termo em inglês surge da junção de share (compartilhar) e parenting (paternidade). Habituados a mostrar a própria rotina nas redes, os pais passam a incluir registros de seus filhos na web, muitas vezes sem avaliar o tipo de conteúdo e a quantidade de publicações sobre a criança. Em casos mais graves, pode acontecer também o oversharenting, uma superexposição fora do normal. “Nós, como adultos, temos essa falsa ideia de que já sabemos lidar com a internet, mas pouco se reflete sobre a pegada digital que deixamos de nós e dos outros à nossa volta”, afirma Indianara Sehaparini, psicóloga e doutoranda em psicologia pela UFRGS. “Uma vez publicado, isso nunca mais vai deixar de existir. Não temos noção de quem fez o download ou não. E tirar da internet não é uma garantia de que, de fato, aquilo saiu de lá”.

Muito mais que apenas uma foto ou vídeo fofinho, a prática do sharenting acaba expondo indevidamente informações pessoais dos menores, desde momentos de fragilidade a inseguranças dessa fase de descoberta, colocando-os em situação de vulnerabilidade. “A infância é uma fase muito sensível, onde a criança está descobrindo quem é, formando autoestima e aprendendo a diferenciar o que é dela e o que é do mundo”, explica Sofia Sebben, psicóloga clínica e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Intervenção em Famílias com Bebês e Crianças (NUFABE/UFRGS). “Embora ainda tenhamos poucos estudos sobre os efeitos da superexposição no desenvolvimento emocional infantil, quando a sua vida vira conteúdo a ser exposto, ela pode crescer com dificuldade de entender o que é privacidade ou achar que precisa de curtidas e comentários para se sentir vista. Com o tempo, isso pode afetar sua forma de lidar com emoções, sua autoconfiança e até suas relações”.

Além do impacto emocional, a exposição pode abrir brechas de segurança, o que acende um alerta para que os pais pensem duas vezes antes de publicarem registros dos filhos. Yasmin Curzi, professora da FGV Direito Rio e pesquisadora do Karsh Institute of Democracy da University of Virginia, aconselha que os pais adotem o princípio da precaução, evitando divulgar informações privadas, como localização geográfica, rotina escolar, imagens e vídeos que possam gerar constrangimento futuro. Curzi reforça que as postagens devem ser esporádicas e os perfis devem usar configurações de privacidade restritivas. “À medida que a criança se desenvolve, seu consentimento deve ser considerado para a promoção de sua autonomia e autodeterminação. Além disso, é importante não vincular a imagem da criança a conteúdos publicitários ou monetizáveis sem autorização judicial”.

Indianara também enfatiza a importância da desconexão dos pequenos das redes sociais: “É importante que tu possas ser esquecido. É ter direito a esquecimento, é ter direito a fazer algo na sua vida e aquilo ficar naquele momento, de tu não teres toda a tua vida espectada.” Para a psicóloga, quando se implica na criança a obrigação de ser uma influenciadora, não há espaço para que ela explore outra coisa, travando suas experiências às expectativas do meio digital. “Ter um um espaço tranquilo para se desenvolver, entender que existe esse espaço livre de poder brincar, desenvolver criatividade e de não fazer nada, tudo isso é muito necessário tanto para infância quanto para adolescência”, acrescenta.O Núcleo de Pesquisa e Intervenção em Famílias com Bebês e Crianças da UFRGS (NUFABE) produziu uma cartilha de segurança digital com o objetivo de divulgar e popularizar informações científicas sobre o uso de telas na infância e suas consequências, bem como meios de incentivar o uso consciente. O material está disponível online e ajuda a identificar os principais riscos das plataformas digitais.

Conhecida mundialmente

A imagem da reação de Chloe virou sensação na internet | Foto: Reprodução Instagram @chloeclem

A vida de Chloe Clem mudou quando ela tinha apenas dois anos. O que parecia ser apenas o registro de uma viagem surpresa para a Disney eternizou o rosto da pequena na memória da internet. O motivo? As pessoas se identificaram com a reação da pequenina americana, capturando o momento em que olha com desconfiança para usarem como meme, sendo conhecida até hoje como “Side Eyeing Chloe”. 

Registrar momentos em família e publicá-los no Youtube já era um costume dos Clem antes disso. A experiência de viralizar também não foi uma novidade, pois dois anos antes a emoção da filha mais velha, Lily, ao descobrir que iria para a Disney rendeu viagens especiais para promover o vídeo. Porém, nada os preparou para a fama instantânea em 2010. 

Parecia um dia comum e as irmãs não suspeitavam de nada enquanto Katie Clem, mãe das meninas, as filmava falando sobre a escola. Ao anunciar para as filhas que na verdade iriam viajar para a Disney, Lily emocionou-se e começou a chorar de felicidade, o que fez Chloe a observar desconfiada. “No momento, eu apenas virei a câmera para a Chloe e ela fez aquela expressão. Não fazia ideia que se tornaria tão viral. Ela ficou famosa instantaneamente em todo o mundo”, disse Katie ao Humanista. 

Segundo o site Know Your Meme, o olhar de Chloe começou a viralizar em 18 de setembro, seis dias após a publicação do vídeo, quando um usuário do Tumblr enviou um conjunto de gifs animados com as reações das duas irmãs. Em 24 de setembro, o site BuzzFeed pegou o gif para fazer um artigo intitulado “Garota reagindo à Disneylândia é a única reação que você precisa para qualquer coisa” e depois disso sua expressão não parou de viralizar.

Doze anos se passaram e o rosto de Chloe ainda é considerado um marco. Seu instagram, administrado pela mãe, possui mais de 600 mil seguidores e o vídeo original tem quase 25 milhões de visualizações. A garotinha fez tour por vários países e veio ao Brasil duas vezes para conhecer seus fãs. Mesmo não sendo mais reconhecida, ainda atrai a curiosidade das pessoas que a conheceram por causa do meme, participando de eventos e recebendo o carinho de seus seguidores no Instagram e Youtube. “Atualmente, ela leva uma vida realmente normal. Em breve, estará no primeiro ano do ensino médio! E quando é reconhecida, ela adora”, acrescenta Katie.

A família se diz grata após toda reviravolta do momento viral de Chloe (direita) | Foto: Reprodução Instagram @chloeclem

Para a matriarca da família, as experiências boas durante todo esse percurso superam as ruins, fazendo grandes amigos e aproveitando a jornada. “Eu queria ter certeza de que tudo o que estávamos fazendo era orgânico e não forçado. Quando Chloe tinha uns 10 anos, percebi que ela e a irmã já não tinham mais interesse em gravar vídeos para o Youtube, então simplesmente paramos”, relata. Quando questionada se ela se arrepende de postar o vídeo que fez a filha ficar tão famosa, afirma que nunca sentiu isso, mas que gostaria de ter tido mais apoio jurídico no começo. “Eu só queria ter tido mais conhecimento sobre a indústria. Fomos enganados várias vezes no que diz respeito à publicidade e ao licenciamento da imagem da Chloe. Ela também era muito jovem e não podia consentir com nada. Sinto um pouco de culpa como mãe”, comenta.

Apesar dos pontos positivos, Katie não recomenda que outros pais publiquem conteúdos de seus filhos na internet: “A vida das minhas filhas está na internet para sempre. Uma vez divulgada, você nunca mais poderá recuperá-la. Sinto-me um hipócrita ao dizer tudo isso, mas tive 12 anos para refletir e faria muitas coisas de forma diferente”. Em sua opinião, é válido que as famílias comemorem caso seus filhos viralizem, mas a situação passa dos limites quando as pessoas forçam para que isso aconteça mais vezes, de modo que as crianças sofram durante o processo. “Não filme seus filhos se puder evitar. Gostaria que as minhas fossem mais velhas quando tudo aconteceu. Eu sempre tive medo de que isso tivesse um impacto negativo sobre ela (Chloe) quando crescesse, mas tem sido o contrário”. 

Exposição estratégica

Apenas um número seleto de pessoas já conheceu o rosto de Zoé desde seu nascimento | Foto: Arquivo pessoal

Leonardo Couto e Francielly Feio optaram por não mostrar sua filha, Zoé, nas redes sociais. A decisão foi tomada pelos pais antes do nascimento da menina, atualmente com quatro meses, e foca em não mostrar seu rosto para sua proteção. “Primeiro, a gente não conhece todo mundo que nos segue nas redes sociais, né? Estudamos bastante, vimos que tem casos sérios e graves relacionados a sequestro e pedofilia. Então uma forma que a gente encontrou de mitigar isso é não expondo a rotina dela e principalmente não colocando jamais as fotos de rosto”, comenta o jornalista.

A decisão foi alvo de críticas e os pais sentiram pressão para compartilhar detalhes da filha. “Já perguntaram se era de fato uma criança ou era um bebê reborn, já que a gente não mostrava”, relembra Leonardo. Porém, isso não impede que o casal publique alguns momentos, como os ensaios de mêsversário da Zoé, e crie estratégias para manter o círculo familiar e de amigos próximos informado. “A gente usa os melhores amigos e grupos de WhatsApp para algumas postagens. Tem muita foto engraçada e é óbvio que o pai e a mãe querem mostrar o filho, né? Mas não é simplesmente postar no feed ou aberto para todo mundo”.

Francielly acrescenta que, caso usasse as imagens da sua filha no seu perfil profissional de trabalho, teria muito sucesso, mas optou por não fazê-lo. “Foto de criança faz engajar muito. Todo mundo acha bonitinho e a partir disso tu fazes o que quiseres com a audiência. Mas a gente não quer gerar essa audiência com base na Zoé e sim no nosso conhecimento” diz a terapeuta holística. O casal é categórico na decisão e não está disposto a mudar de opinião quando se trata da imagem da filha. “A gente não explica, só falamos que é a nossa opinião”, reitera Leonardo. “Enquanto ela não quiser aparecer, não vai aparecer. Como por enquanto ela não tem opinião formada, a gente evita postar”.

Proibir é a solução?

Diálogo e consentimento podem tornar a prática do sharenting menos nociva | Foto: Ketut Subiyanto/Pexels

Ainda não há regulamentação específica sobre superexposição digital por responsáveis legais, mas o tema avança na Justiça. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por exemplo, não trata diretamente do ambiente digital, pois foi promulgado em 1990, mas Yasmin Curzi reforça que seus princípios são plenamente aplicáveis à proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais. “Ele assegura direitos de preservação da imagem, honra, vida privada e dignidade, e impõe dever à família, à sociedade e ao Estado de prevenir a ocorrência de ameaça ou violação desses direitos, o que inclui imperativamente o ambiente online, constituindo um marco normativo essencial para garantir os direitos de crianças e adolescentes também nesse contexto”.

Luciano Souto, advogado e professor de direito de família na Faculdade de Direito do Vale do Rio Doce (Fadivale), comenta que existem caminhos legais possíveis para quem deseja exercer o direito ao esquecimento no ambiente digital. “O primeiro passo é notificar a plataforma e solicitar a remoção ou  limitação de visibilidade e de acesso do conteúdo ao público”, explica. Se a solicitação não for aceita, é necessário iniciar uma ação judicial em contra o autor da divulgação e a plataforma digital, buscando à remoção do conteúdo e também indenizações por possíveis danos morais e materiais. 

De acordo com a psicóloga, o compartilhamento de fotos e vídeos dos filhos pelos pais não é de todo ruim, mas implica equilíbrio e muita conversa na família. “Quando existem espaços de muito diálogo, no qual os pais respeitam as crianças e perguntam a elas antes de publicar, fortalece-se os laços”, recomenda. Além disso,  Sehaparini comenta que proibir o compartilhamento não é a solução para o sharenting: “A gente tem que na verdade informar e conscientizar as pessoas desses riscos e também poder entender o porquê que elas têm essa necessidade de colocar aquele conteúdo nas redes”. Para a pesquisadora Sofia Sebben, nem tudo precisa virar um post: “As crianças também precisam de tempo off-line para brincar e viver a sua infância, e ter momentos lindos que são só delas. E tudo bem guardar só na memória. O principal é isso: que a criança se sinta respeitada, protegida, e que sua infância não vire um palco”.

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