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Projeto garante congelamento de óvulos para mulheres com câncer de mama

Procedimento é realizado com pacientes do Hospital Fêmina e do Hospital Conceição, em Porto Alegre

Com o objetivo de ajudar mulheres que receberam o diagnóstico de câncer de mama a realizar o sonho de serem mães, um projeto desenvolvido por pesquisadores da Pós-Graduação em Ginecologia e Obstetrícia da UFRGS, em parceria com os hospitais Fêmina e Conceição, oferece gratuitamente o congelamento de óvulos. A iniciativa busca resgatar a possibilidade da maternidade para pacientes que precisam passar pela quimioterapia, tratamento que reduz significativamente a fertilidade.

Conforme explica a ginecologista e coordenadora da Unidade de Reprodução Humana do Hospital Fêmina, Andrea Nácul, uma das responsáveis pelo projeto, mulheres com mais de 35 anos têm até 40% de risco de ficarem inférteis após o tratamento oncológico. Recentemente, o programa foi ampliado para incluir também pacientes com câncer de colo de útero, ovário, endométrio e aquelas que passam por hormonioterapia – tratamento indicado para reduzir ou bloquear a produção de hormônios e evitar novos tumores.

Financiamento gera incerteza

Continuidade do projeto depende de emenda parlamentar | Foto: Ana Luiza Godoy/GHC/Divulgação

O programa foi viabilizado por meio de uma emenda parlamentar de R$ 300 mil destinada pela Deputada Federal Maria do Rosário (PT) e permite atender até 25 mulheres. Além de cobrir custos das injeções hormonais – que chegam a custar R$ 8 mil cada uma na rede privada – garantiu a compra de insumos e de um novo ecógrafo para o hospital. As injeções de estímulo à ovulação não estão previstas na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), o que torna a emenda essencial para a continuidade do projeto. Por isso, sem a verba, a manutenção se torna inviável. “Existe a política de direitos reprodutivos, só que ela ainda não foi implantada. Tem uma discussão no congresso, mas é preciso trabalhar para regular. Botar na tabela dos seus procedimentos”, defende Andrea.

Como o projeto tem orçamento limitado, a equipe vive a incerteza sobre a possibilidade de atender novas pacientes: “Às vezes as pessoas veem como algo secundário, mas, para os casais, não poder ter filhos é muito ruim. Esse projeto é uma qualidade a mais no tratamento do câncer, é uma humanização”. 

A seleção das participantes ocorre por busca ativa: quando o oncologista faz o diagnóstico do câncer, ele avalia se a paciente se enquadra nos critérios de seleção e faz o encaminhamento para os responsáveis pelo projeto. Para participar, é preciso ter entre 18 e 37 anos, com a descoberta da doença em estágio inicial. Até o momento, seis pacientes já realizaram o congelamento de óvulos.

Como funciona o procedimento:

  • Uso de hormônios injetáveis para estimular os ovários;
  • Coleta dos óvulos maduros;
  • Congelamento a -198°C;
  • Armazenamento por até cinco anos após o fim do tratamento.
Aline Bittencourt e Robson Rocha estão juntos há 10 anos e sonham em ser pais | Foto: Aline Bittencourt/Arquivo Pessoal

Esperança

Armazenados a -196º em botijões com nitrogênio líquido, os óvulos congelados representam o sonho da maternidade para Aline Bittencourt, 34 anos, diagnosticada com câncer de mama há dois anos. Em 2015, a vendedora perdeu seu bebê quando estava no oitavo mês de gestação. O luto levou a um quadro de depressão e, por conta disso, deixou de ir às consultas de rotina. Contudo, em 2023, percebeu nódulos nos seios e procurou atendimento médico, mas o tumor não foi identificado nos primeiros exames. 

Com histórico familiar da doença, decidiu buscar uma segunda opinião. Foi quando recebeu o diagnóstico de câncer de mama já em estágio de disseminação. “Foi um choque. A palavra câncer é muito pesada. Quando a gente descobre o câncer a gente imagina que a gente vai morrer”, relata. 

A descoberta mudou a vida de Aline e de seu companheiro, Robson Rocha, com quem está casada há dez anos. Ela, que trabalhava como atendente, não teve o contrato renovado após o período de experiência e ficou desempregada. O marido também precisou sair do emprego para acompanhá-la no tratamento contra o câncer. Juntos, encontraram no comércio de açaí uma alternativa de renda com horários mais flexíveis.

Um sonho possível

A possibilidade de congelar óvulos foi orientação da médica oncologista responsável pelo tratamento de Aline. No entanto, quando soube sobre o custo na rede privada – que pode chegar a R$ 20 mil – entendeu que a renda da família não poderia bancar o procedimento. “Eu já tinha ouvido falar uma vez no ônibus sobre a fertilização in vitro, mas é horrível de caro. Nunca teríamos condições de pagar”, desabafa. 

Foi então que recebeu uma ligação da equipe do Hospital Fêmina, convidando-a a participar do projeto. A responsável por fazer a comunicação entre eles foi a própria médica que acompanhou seu tratamento: “A ligação foi emocionante, chorei muito. Nas consultas sempre vinha com esse assunto de querer ser mãe, por isso acho que a médica viu esse meu desejo”. 

Moradora de São Leopoldo, a vendedora percorria cerca de 40km de moto todos os dias para realizar as aplicações hormonais no hospital. Ela segue em tratamento e deve permanecer em terapia de bloqueio hormonal por pelo menos cinco anos antes de realizar a primeira tentativa de gestação, que deve ocorrer em 2028. 

Aline conta que ser mãe sempre foi um sonho compartilhado pelo casal. Para ela, o procedimento representa um motivo a mais para lutar contra o câncer. “É um trabalho muito especial, que nos dá esperança de sermos mães mesmo depois do diagnóstico”. 

Número de diagnósticos no RS preocupa

Conforme uma projeção realizada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), cerca de 73.610 novos casos de câncer de mama podem ser diagnosticados no Brasil até o final do ano, o que representaria 41,89 mulheres com a doença a cada 100 mil. Os dados também mostram que o câncer de mama é o mais comum em mais de 157 países, representando três em cada dez diagnósticos no Brasil. 

Com o intuito de frear o avanço da doença, o Ministério da Saúde começou a recomendar mamografia a partir dos 40 anos e o exame passará a ser realizado sob demanda, ou seja, mediante decisão da paciente e indicação médica. Para a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), a prevenção primária, como a adoção de um estilo de vida saudável, e a prevenção secundária, com a realização de exames de rastreamento, são essenciais para reduzir a incidência e a gravidade dos casos. 

No estágio inicial, os sinais da doença são quase imperceptíveis. Conforme o Inca, os sintomas característicos do câncer de mama são:

  • Caroço (nódulo), geralmente endurecido, fixo e indolor;
  • Pele da mama avermelhada ou parecida com casca de laranja;
  • Alterações no bico do peito (mamilo);
  • Saída espontânea de líquido de um dos mamilos;
  • Pequenos nódulos no pescoço ou na região embaixo dos braços (axilas).

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