Em 1º de maio é celebrado o Dia Internacional dos Trabalhadores, data historicamente marcada pela luta da classe trabalhadora. Sua origem é de 1886, devido a uma greve em Chicago, nos Estados Unidos. Os trabalhadores foram agredidos, presos e executados, devido a reivindicações da redução da jornada de trabalho, que era de 14 horas diárias. A repressão foi intensa e vários líderes foram condenados à morte. Em contrapartida, durante a Internacional Socialista, a data foi oficializada como símbolo da luta da classe trabalhadora e também como uma homenagem a essas pessoas que vendem sua força de trabalho.
Após um século, o tema das jornadas de trabalho continua em discussão. Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 2024, que conta com 38 países (sem a participação do Brasil), apresentou que trabalhadores mexicanos estão entre os que mais trabalham no mundo, com média de 2.193 horas anuais, cerca de 274 jornadas de 8 horas, o que pode estar relacionado à estrutura econômica intensiva em mão de obra e políticas sociais pouco eficazes.
A Costa Rica aparece como o segundo país com a jornada mais longa, com 2.149 horas de trabalho anuais, o que representa 271 jornadas de trabalho de oito horas. Já o terceiro lugar é ocupado pelo Chile, onde os trabalhadores atingem 1.919 horas anuais, o equivalente a 244 jornadas de oito horas. Apesar disso, o país está em processo de redução da carga horária semanal de 45 para 40 horas.
Na sequência do ranking aparecem a Grécia, com 1.898 horas anuais; Israel, com 1.877; Coreia do Sul, com 1.865; Estados Unidos, com 1.796 horas anuais; Polônia com 1.785; Tchéquia com 1.771; e em décimo lugar, a Nova Zelândia, com 1.741 horas de trabalho por ano. Porém, nesse último relatório não foram apresentados dados sobre Colômbia, Turquia e Brasil, que possuem altos números de horas trabalhadas por ano.
Segundo o Our World in Data, que produz gráficos e tabelas a partir do cruzamento de diversas fontes que coletam dados sobre a economia global, a organização identifica o Brasil com uma média anual da jornada de trabalho de 1.994 horas.
O debate sobre a jornada ganha força no país. Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que visa pôr fim à escala 6×1, será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados para debater o mérito da proposta e possíveis ajustes no texto. O objetivo é, após essa etapa, que a PEC seja encaminhada ao plenário, onde necessitará ser votada em dois turnos, o que possivelmente acontecerá até o final de maio.
Para substituir a escala vigente, há duas propostas: a redução gradual da jornada semanal, que passaria de 44 para 36 horas, em uma transição de dez anos, a partir da PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG); e a PEC 8/25, de autoria da deputada Erika Hilton (Psol-SP), que busca reduzir a jornada semanal para quatro dias de trabalho e três de descanso.
O Portal Humanista publicou uma análise sobre a precarização da Uber em Porto Alegre após dez anos de sua chegada. O texto destaca as rotinas de trabalho marcadas por longas jornadas e tarifas apertadas. Em relação aos trabalhadores, pesquisas como a Fairwork Brasil indicam um cenário crítico: a maioria das plataformas, como Uber, 99 e iFood não garantem condições mínimas de trabalho justo. Entre os principais problemas enfrentados pelos motoristas estão: jornadas longas e ganhos baixos; custos elevados de manutenção e combustível e a falta de transparência nas tarifas.
Atualmente, o surgimento de novas tecnologias e a globalização têm impactado diretamente a forma como trabalhamos e nos relacionamos com o trabalho. A uberização é o termo que utilizamos para descrever essas mudanças, principalmente no que diz respeito à precarização. Isso ocorre porque muitos trabalhadores são inseridos em formas de trabalho informal, sem acesso a direitos trabalhistas como férias, 13º salário e seguro-desemprego. Além disso, passam a atuar em condições precárias, sem a proteção da legislação trabalhista.
Plataformas de streaming, como a Twitch, prometem autonomia e realização de sonhos, mas na realidade envolve jornadas longas, renda instável e pouca garantia trabalhista. A maioria dos criadores não consegue sustentar-se apenas com a plataforma, pois os algoritmos controlam a visibilidade e exigem produção constantemente. Esse modelo assemelha-se ao de empresas como Uber e iFood, ressaltando a precarização e a necessidade da regulamentação do trabalho digital.
Diante das transformações desse cenário, a discussão sobre o futuro do trabalho torna-se cada vez mais urgente, envolvendo desde a redução da jornada até a regulamentação de plataformas digitais. As mudanças tecnológicas e econômicas mostram a necessidade de equilibrar inovação com direitos trabalhistas e condições mais dignas de trabalho. Entre os avanços e as resistências enfrentadas diariamente pelos trabalhadores, a realidade mostra que, assim como ocorreu em 1886, o equilíbrio entre trabalho, direitos e qualidade de vida segue sendo um ponto central e uma batalha.


