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“Quando o país está à beira de ser invadido, quem paga é o povo”, analisa Carlos Lazo, professor e ativista cubano

Aumento de sanções e bloqueio econômico em Cuba elevam crise social e política na ilha

A escalada da crise geopolítica entre Cuba e Estados Unidos vive seu ápice, talvez semelhante apenas à Crise dos Mísseis, em 1962. Se naquela época a parceria da ilha com a União Soviética sustentava índices de desenvolvimento e bem-estar social, com foco na saúde e educação, hoje o cenário é inverso. De 2019 a 2025, a economia encolheu 12%. Já o turismo, importante pilar econômico, vem se desidratando desde a pandemia de Covid-19.  Sem apoio estratégico de aliados e sufocada por sanções cada vez mais duras do governo estadunidense, os efeitos práticos ecoam sobre um povo resiliente, mas desgastado.

Buscando entender a atual situação do país caribenho, e os possíveis desdobramentos dessa crise, o Humanista entrevistou o cubano-estadunidense Carlos Lazo, professor em Seattle e fundador da organização Puentes de Amor. A ONG realiza missões humanitárias na ilha, levando alimentos, medicamentos e leite para hospitais pediátricos.

Em janeiro de 2026, após a intervenção militar norte-americana na Venezuela, o governo Trump interrompeu completamente o fornecimento de petróleo venezuelano a Cuba. Semanas depois, assinou uma ordem executiva ameaçando tarifas adicionais a qualquer país que fornecesse combustível à ilha, levando importantes produtores, como o México, a cessar o comércio com Havana.

O resultado é uma crise energética sem precedentes. Em maio, o ministro cubano de Energia e Minas, Vicente de la O Levy, admitiu publicamente que os apagões em Havana já ultrapassam 20 a 22 horas por dia, e que o país esgotou sua reserva de combustível. A falta de energia impacta toda a engrenagem produtiva, como o armazenamento de alimentos, o abastecimento de água, o funcionamento de hospitais e outros serviços essenciais.

Estagnar o combustível em Cuba parece ser apenas uma das medidas de Trump e seu Secretário de Estado, Marco Rubio, para levar o país ao colapso. No entanto, Rubio é descendente de imigrantes cubanos e ferrenho crítico do castrismo e a sua influência no atual governo acabou colocando a América Latina na agenda trumpista. No dia da posse de seu segundo mandato, em janeiro de 2025, o líder estadunidense assinou uma ordem executiva reincorporando Cuba à lista de “Estados Patrocinadores do Terrorismo”. Isso reverteu a decisão do seu antecessor, Joe Biden, que havia retirado o país da lista dias antes, após constatar que Cuba não havia fornecido apoio ao terrorismo internacional. A medida agravou significativamente as restrições econômicas, comerciais e financeiras sobre a ilha, além de aumentar o isolamento do país e o medo de parceiros em manter relações com o governo de Miguel Díaz-Canel. 

As ameaças não ficaram só no campo econômico. Neste mês, Trump afirmou que em breve os EUA deveriam “assumir o controle” de Cuba. O ato mais recente é o indiciamento de Raúl Castro, ex-presidente cubano. Na última quarta-feira (20), ele foi acusado criminalmente pelo abate, em 1996, de aeronaves americanas. Ao que parece, a estratégia pode servir de pretexto para uma incursão militar na ilha, seguindo a cartilha utilizada nas ações dos Estados Unidos contra a Venezuela, quando a descrita “ação policial” resultou na deposição e prisão do então presidente Nicolás Maduro.

“Quem paga é o povo”

A história de Carlos Lazo é, ela mesma, um espelho das contradições da relação entre EUA e Cuba. Nascido em Havana, em 1965, ele deixou o país natal de balsa nos anos 1990. Após servir como enfermeiro no exército estadunidense no Iraque, voltou para casa em 2005 e descobriu que novas restrições impostas pelo governo Bush o impediam de visitar os filhos que moravam na ilha. 

A herança da guerra o transformou em ativista. Lazo chegou a discursar perante o Senado dos EUA pedindo o fim das sanções à família cubana, medidas que só seriam flexibilizadas durante o governo Obama. Anos mais tarde, insatisfeito com a lentidão do governo Biden em derrubar decisões mais duras levantadas no primeiro governo Trump, organizou uma caminhada de Miami a Washington D.C., cerca de 2.000 quilômetros percorridos a pé, para entregar à Casa Branca mais de 25 mil assinaturas exigindo a derrubada das sanções. Em meio à escalada da crise atual, iniciativas como a de Lazo buscam uma saída pacífica, estreitando os laços entre povos que, nas suas palavras, deveriam se relacionar como vizinhos e amigos.

Confira a entrevista completa!

O governo não é popular. Mas ao mesmo tempo, se chegassem tropas norte-americanas a ocupar o país, não creio que o povo as receberia de braços abertos.

Carlos Lazo, professor e ativista
Carlos Lazo no aeroporto de Miami, Flórida, com cargas de leite em pó para serem doados em hospitais pediátricos, asilos e igrejas cubanas | Imagem: Arquivo Pessoal

O que as notícias não conseguem capturar sobre como é viver em um país mergulhado em uma crise energética e cada vez mais bloqueado economicamente?

As notícias não conseguem capturar a ideia de um país onde não há combustível. O mundo inteiro está tão acostumado a ver a ordem internacional sendo quebrada, que isso passa batido. Não há combustível porque não há entrada de produtos, precisamente porque há um bloqueio. Não somente o bloqueio econômico, mas um bloqueio naval, com navios estadunidenses rondando a costa de Cuba para impedir a entrada de combustível de outros países. Esses países também são ameaçados com mais tarifas e represálias econômicas.

É direito de qualquer país poder comprar petróleo e alimentos. Saúde, educação, isso afeta todos os setores da economia cubana, em toda a sua dimensão. Um país onde a maior parte do dia e da noite não há eletricidade, não há com o que cozinhar. A pergunta é: como ainda resistem? Essa é a pergunta. 

Depois de reincluir a ilha na lista de apoiadores do terrorismo, e ampliar o embargo para setores essenciais, Trump disse que Cuba está “a ponto de cair”. Chegou a cogitar intervenção militar. Caso as ameaças de invasão se concretizem, o sentimento popular é de um povo pegando em armas para defender seu país, ou sente que seria o esgotamento do governo Díaz-Canel? 

Eu acredito que qualquer governo se esgota. E o governo de Cuba vem sofrendo problemas por muitos anos. Teve a pandemia, o endurecimento das medidas dos EUA, a queda do turismo e acidentes de aviação. Ou seja, qualquer governo evidentemente se esgota. A nível popular, acredito que as pessoas se cansam e o discurso de resistência se torna cada vez mais difícil. Elas se perguntam: quais são as esperanças? Quantos anos mais vamos ter? Sobretudo se a política dos Estados Unidos é precisamente essa. 

Isso está explícito no famoso memorando de 1960, de Lester Mallory [subsecretário dos EUA na época], onde dizia que o governo de Fidel Castro era popular e que a única forma de reduzir seu apoio, e eventualmente sua queda, era provocando a fome na população. Provocando doenças e a diminuição dos salários reais. Hoje estamos vendo isso em sua máxima expressão, hoje essa política não é disfarçada. É claro que há setores nos EUA, de extrema direita, que têm uma obsessão com derrubar o governo cubano. 

Também não foram somente o bloqueio e as sanções. Cuba cometeu erros econômicos, demora em estabelecer políticas que amenizassem os impactos das sanções. Mas definitivamente, a guerra econômica dos Estados Unidos é o fator mais importante, e corrói a popularidade de quem quer que esteja na presidência. E estou certo de que em meio ao desespero, à falta de alimento, medicamentos e eletricidade, muitas pessoas dirão que: aconteça o que tiver que acontecer, temos é que resolver esse problema”. 

Mas também não tenho dúvida de que, se ocorresse uma invasão, para além de crenças, ideologias, e o próprio governo Díaz-Canel, haveria muitos cubanos que iriam defender a soberania nacional, o conceito de que sua terra está sendo manchada por tropas de ocupação. Porque essa é a história do nosso povo, e Cuba tem uma longa tradição de independência, de soberania. Então acredito que sim, que o governo não é popular. Mas ao mesmo tempo, se chegassem tropas norte-americanas a ocupar o país, não creio que o povo as receberia de braços abertos.

Você construiu sua trajetória apostando no amor e nos laços humanos entre os dois países. Nesse cenário de forte tensão geopolítica, qual a importância de organizações como a Puentes de Amor?

Bem, às vezes é preciso reconhecer que a pessoa se sente impotente diante dos acontecimentos, diante do abuso contra os povos, diante da possibilidade de não poder fazer nada. Some a isso o fato de que do lado de cá [dos EUA], por muito tempo havia uma campanha nos acusando de ser agentes do governo cubano, e do lado de lá [de Cuba], nos setores mais extremistas, também houve uma campanha tentando nos apresentar como agentes do governo estadunidense. Nós não somos nem um nem outro, é bom deixar isso claro. Puentes de Amor é um movimento que vai além de crenças e ideologias, um movimento que busca o fim das sanções a Cuba e busca a construção de pontes de amor entre os povos de Cuba e dos EUA. 

Hoje, mais do que nunca, quando o país está à beira de ser invadido, quando está sendo sancionado, quem paga é o povo. Afetam diretamente o cubano comum, e o objetivo é colocá-lo de joelhos. Isso pode ser imoral, mas é claro que esse é o objetivo: privar Cuba da possibilidade de desenvolvimento, das possibilidades de recursos, das pessoas terem esperança. Acredito que a ideia e a visão do Puentes de Amor, nessas circunstâncias, é mais importante do que nunca. Porque é uma visão de respeito, de conversas entre as nações, de discutir os problemas, de resolver as questões internacionais na mesa de negociações. A única invasão que apoiamos é a de derrubar muros e construir pontes de amor. Uma invasão de investimentos, de intercâmbios científicos, de que ambos os povos se reencontrem como vizinhos e como amigos e que cooperem. E estou certo de que isso seria o melhor para todos.

Em todos esses anos, qual o saldo dessas batalhas que você travou? Seja pelo fim de embargos estadunidenses ou pela prosperidade na vida do povo cubano?

Foi um saldo agridoce. Quando decidimos começar a criar o projeto, que era levar leite e medicamentos a todos os hospitais pediátricos de Cuba, uma das coisas que pensei foi: quem pode dizer que isso é ruim? No entanto, recebemos muitos ataques e difamações dos setores mais extremistas dos EUA. Quem não se beneficia dessa mensagem de amor, de paz, precisa demonizar. Da mesma forma, há um setor em Cuba que não vê com bons olhos que um grupo de cubanos de diferentes crenças e ideologias esteja ajudando. Isso teve um impacto em nossa luta e nas atividades que realizamos. É um setor que acredita que a solidariedade só pode vir de pessoas que sejam a favor do projeto socialista cubano, e não conseguem entender que haja pessoas como muitos de nós, que saímos de Cuba, mas que queremos ajudar a nossa gente.

Nas últimas vezes que fomos, não podíamos entregar a ajuda diretamente para as pessoas. Para nossos ativistas, isso é muito importante, poder ter esse contato com os médicos, com os pais das crianças doentes, isso nos estimula a saber pelo que estamos lutando.  E às vezes prefiro manter isso de maneira discreta, sem comentar muito, porque comentar o que fazemos poderia criar obstáculos e problemas dessas mesmas forças extremistas de ambos os lados que decidiram fazer de nós seus inimigos. 

Mas o saldo cresce a cada dia, porque embora nossas atividades sejam silenciadas ou ignoradas, esse não é o ponto. O ponto é continuar ajudando. E qual é o saldo? Que uma família cubana tenha um prato de comida e possa comê-la. Que uma velhinha que não consegue viver com sua aposentadoria possa tomar um medicamento. Então, se o saldo é ter baixado a febre de um milhão de crianças e idosos cubanos, isso é suficiente, esse já é o saldo. E esse é um saldo que é imenso, imenso para todas as vidas. As ideologias podem mudar, os governos podem mudar, mas o amor e o humanismo, isso esteve, está e estará em todas as épocas e em todas as geografias. 

Como você se coloca em meio a essa tensão? Está disposto a ser uma “ponte” para uma saída pacífica entre governos? Acha que isso ainda é possível ou a escalada da crise é inevitável?

Acredito que a paz sempre é possível e que é preciso dar uma chance à paz. É o que os povos querem e merecem. Ainda mais quando há tantos pontos em comum entre os povos de Cuba e os dos Estados Unidos. Ou seja, não acredito que haja diferenças irreconciliáveis nem nada disso. 

Não acredito que ocorra a ideia de utilizar o Puentes de Amor ou alguns de nós como elo entre os dois governos. Somos um movimento de gente comum, gente humilde. Mas sim, mais do que ser ponte entre os dois governos, gostaria que o Puentes de Amor fosse ponte entre a família cubana, entre os cubanos que estão fora e os que estão dentro. Eu sinto Cuba e os Estados Unidos como uma mãe e um pai divorciados, que não se entendem bem, que há anos estão em confronto, mas que o melhor que poderiam fazer é se entender pelo bem de seus filhos. 

Além disso, há coisas que não é preciso esperar para negociar com os EUA, que Cuba pode fazer de maneira soberana. Por exemplo, nós intercedemos que caiam as proibições que impedem a entrada em Cuba de cubanos residentes no exterior. Neste momento, há uma lei que impede a entrada desses cubanos por oito anos. Dos que foram a uma missão de trabalho e não retornaram ao país. Isso pune não somente a pessoa, pune também toda a família que ficou para trás, que não pode ver seu ente querido. A maioria dos cubanos que saem de Cuba, saem porque estão buscando uma vida melhor, porque são vítimas do bloqueio. Punir essas pessoas com um exílio forçado de oito anos é algo que deveria ser mudado. É um passo para começar a curar a alma da pátria. Temos falado com as autoridades cubanas, com o próprio presidente, sobre essa temática. E, bem, ainda não há solução. Mas um dia vai se resolver de uma forma ou de outra. Estou certo de que a família cubana vai se abraçar sem impedimentos.

Para finalizar, pensa que o governo brasileiro pode ter uma relevância maior na busca por essa comunicação mais direta e resolutiva entre Cuba e Estados Unidos?

Não sei se o presidente Trump estaria disposto a seguir esse caminho. A verdade é que é um pouco difícil prever o que ele fará, porque é bastante imprevisível. Mas acredito que o presidente Lula pode ter um papel. Que ajude a interceder, a ser uma voz de entendimento para buscar uma saída honrosa, negociada e boa para os povos de Cuba, que basicamente está sofrendo essa agressão e ameaça neste momento, e o povo dos Estados Unidos.

Sinto amor em saber que o Brasil, tradicionalmente com o presidente Lula e outros presidentes, têm ajudado o povo cubano. Muitos médicos cubanos trabalham no Brasil e há uma relação de fraternidade entre o povo cubano e o povo brasileiro. Há laços históricos, laços culturais.

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