Lula (PT) foi reeleito presidente do Brasil no segundo turno das eleições, definidas neste domingo (25). O petista teve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do candidato do PL, Flávio Bolsonaro. A diferença de votos entre os candidatos foi de 4,4 milhões. No primeiro turno essa diferença foi de pouco mais de 2 milhões de votos.
O atual presidente encerrou o primeiro turno com 53,8 milhões de votos, na segunda posição, atrás do senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que finalizou com 56 milhões de votos. Os dois disputaram o segundo turno com um apelo muito forte aos eleitores dos demais candidatos e também para os chamados “indecisos”, uma parcela da população que, na prática, não saberia ao certo qual candidato escolher. Essa parcela representou no primeiro turno quase 40 milhões de pessoas, entre votos nulos, brancos e abstenções.
A campanha do petista para este segundo turno foi amplamente realizada nas redes sociais, com destaque para o canal de WhatsApp chamado “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones (REDE). Janones realizou diversas publicações em seu Instagram, em que convocava as pessoas que estavam no grupo para compartilharem, curtirem e mandarem para o máximo de pessoas que conseguissem. Até este domingo, o canal havia reunido mais de 10 milhões de pessoas. O presidente reeleito agradeceu ao deputado em seu primeiro discurso após a vitória “O nosso general (Janones), que teve um papel exponencial nesta campanha para levantar diariamente a moral da nossa tropa”, declarou Lula.
O efeito, na prática, desta campanha intensa foi a queda histórica no número de abstenções no segundo turno. Cerca de 3 milhões de eleitores que não haviam votado no primeiro turno foram às urnas no domingo. O número total de abstenções caiu para 30.509.005 milhões de pessoas, o que representa 19,22%, o menor número de abstenções para um segundo turno desde a eleição de 2006, que registrou 18,66% de abstenções. Brancos e nulos também diminuíram entre os turnos. Somados, quase 2 milhões de eleitores, que haviam anulado ou votado em branco, transferiram seus votos para um dos candidatos.
Prorrogação do fechamento das urnas
A votação, que sempre ocorreu entre às 8 horas da manhã e 17 horas da tarde, teve seu encerramento prorrogado para às 19 horas, no horário de Brasília. Essa decisão foi tomada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A determinação inédita ocorreu após a campanha de Lula e, Flávio Bolsonaro, entrarem com um pedido de adiamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), comandado pelo ministro Kassio Nunes Marques. A campanha do petista argumentou que a extensão do horário do fim da votação deveria ocorrer em razão das diversas denúncias feitas em cidades como São Paulo e Salvador, onde não estava sendo cumprida a norma estabelecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de que o poder público municipal disponibilize transporte público com frequência, frota e horários equivalentes aos praticados nos dias úteis.
A situação foi considerada um crime eleitoral e o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) determinou a prisão do secretário de transporte de Salvador, Pablo Souza. Mas como Pablo estava em Paris, na França, ele não foi preso na data de ontem, e nesta segunda-feira o TRE-BA revogou o mandado de prisão. Contudo, o secretário ainda deve passar por uma investigação para entender o que determinou a ausência de parte da frota do transporte público em Salvador.
Flávio Bolsonaro alegou outro motivo para a prorrogação da votação. De acordo com a sua campanha, o fator climático poderia prejudicar eleitores em algumas cidades de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, por conta das fortes chuvas registradas no domingo.
Ambas as campanhas fizeram essas solicitações ao TSE logo no fim da manhã, mas horas depois, enquanto o tribunal não se manifestava favorável ou contrário à prorrogação, os pedidos também foram encaminhados para o STF. Isso ocorreu porque, apesar do TSE ser a instância máxima do poder eleitoral brasileiro, o STF é o máximo poder judiciário brasileiro em todos os setores, inclusive para determinar o exercício de direitos fundamentais, como o direito ao voto.
A decisão do Ministro Cristiano Zanin foi publicada após as 17h, quando diversas seções eleitorais pelo país já haviam sido encerradas e os boletins de urnas já estavam sendo impressos. Muitos mesários alegaram que não foram comunicados sobre a extensão da votação, e alguns já estavam fora dos locais de votação quando o TSE enviou uma mensagem notificando que a votação havia sido prorrogada.
A orientação oficial de cumprimento à decisão do STF só foi encaminhada pelo TSE aos Tribunais Regionais Eleitorais por volta das 18h10, uma hora depois da decisão do ministro Cristiano Zanin. Nunes Marques estabeleceu que somente as seções eleitorais que ainda permaneciam em funcionamento deveriam manter as urnas abertas até as 19h.
Essa situação foi determinante para o candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, alegar em seu primeiro discurso após o resultado das eleições, que não iria reconhecer o resultado e pediria a anulação da eleição. Ele criticou o que chamou de alteração das “regras do jogo” por Zanin, ministro que foi indicado por Lula ao STF.
Novo-velho governo
Em seu primeiro discurso após a vitória, Lula destacou que o próximo mandato vai focar na segurança pública, um tema muito debatido durante a campanha eleitoral, e que foi a principal peça de campanha do seu oponente do PL. De acordo com o presidente, o governo federal nunca teve responsabilidade sobre este assunto, já que a Constituição de 88 transferiu toda a responsabilidade da segurança pública para os estados. “Agora está provado que os estados não dão conta. Nós vamos entrar. Vamos entrar para devolver às mulheres, aos homens, aos trabalhadores a tranquilidade, a paz de que eles precisam. Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão”, prometeu Lula.
Na educação, o petista destacou que será feita a ampliação do programa Pé-de-Meia, de incentivo financeiro aos estudantes, para os universitários do ensino superior. E também que irá expandir o ensino integral até o ensino médio. “Nós iremos universalizar as escolas de tempo integral neste país até o ensino médio. Nós vamos universalizar o Pé-de-Meia para o ensino médio. E vamos criar um Pé-de-Meia universitário, para que nenhum jovem ou menina desista de estudar porque tem que trabalhar”, disse o presidente.
Apesar de Lula já ser um presidente conhecido do brasileiro desde 2003, quando subiu ao Palácio do Planalto pela primeira vez, o petista disse em seu discurso que, aos 81 anos de idade, que irá completar na próxima terça-feira (27), pretende fazer o melhor mandato da história. “Depois de amanhã, dia 27, eu completo 81 anos de idade. E eu quero assumir um compromisso na frente da imprensa e na frente de vocês: vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história deste país. Podem ficar certos.” Essa declaração também simboliza um encerramento, já que ao fim do próximo mandato, em 2030, Lula já terá 85 anos e não poderá se reeleger novamente, encerrando assim sua trajetória como o primeiro presidente da república que foi eleito democraticamente 4 vezes.




