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EDITORIAL | A voz das urnas disse “democracia” – e essa voz ecoa pelo mundo

No domingo, 25 de outubro, o Brasil celebrou o segundo turno de suas eleições a nível estadual e federal, na qual reelegeu o presidente Luís Inácio Lula da Silva. O pleito enfrentou desafios, como a restrição no transporte público das cidades de Salvador e São Paulo. Na região Norte do Brasil, centenas de indígenas ficaram sem votar por falta de transporte.

Casos como estes motivaram uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que aumentou o tempo de votação até às 19 horas. A medida, a princípio, pareceu confusa, mas não alterou significativamente os resultados da eleição. Mesmo assim, é preciso que nos próximos pleitos o direito ao voto seja garantido para todos e, para isso, governos e a Justiça Eleitoral precisam se planejar. 

As grandes mudanças vistas foram o acréscimo de 2,9 milhões de votantes, número que fez desta eleição aquela com a menor abstenção no segundo turno dos últimos 20 anos, reforçando a importância do voto direto. A votação expressiva também simboliza uma série de direitos conquistados nas últimas décadas e dos quais os brasileiros não querem e não vão abrir mão.

É uma questão de maior representatividade feminina em todos os âmbitos da vida pública, de defesa da educação de qualidade para todos e da preservação do meio ambiente, por exemplo. Todos estes, temas caros à sociedade brasileira e expressos em nossa Constituição, um pacto público pela cidadania com a qual os eleitores e eleitoras reafirmaram seu compromisso ao votar.

Esta também foi a primeira vez na história da redemocratização, desde a adoção do sistema de dois turnos em 1989, que um candidato conseguiu alcançar a vitória após terminar a primeira votação em segundo lugar. A história dessa virada começou em Niterói, no Rio de Janeiro, com uma manifestação promovida pelos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) um dia após o fim do primeiro turno. O ato foi o primeiro de uma série de mobilizações públicas que se espalharam pelo país em apoio à reeleição do presidente Lula.

O caso brasileiro acompanha uma onda global de protestos encabeçados pela juventude que tem tomado as ruas para se expressar. Na Sérvia, estudantes também foram responsáveis pela mudança nos rumos de suas eleições parlamentares. Em Portugal, na Espanha, na França e na Albânia, as manifestações reúnem jovens por diferentes motivos. “Esses estudantes olham para o futuro e dizem: não há lugar para mim”, analisa a filósofa Judith Butler em entrevista ao portal Outras Palavras. Na conversa, Butler também elaborou sobre as possibilidades de resistência em cenários políticos desafiadores: “Um senador ou um governante pode dizer todo tipo de coisa, e isso põe em movimento a possibilidade de um contradiscurso e de uma luta hegemônica que se trava na mídia. Temos de ser muito mais astutos quanto à nossa mídia do que temos sido.”

Sabemos que a luta através das mídias foi crucial para o resultado das eleições brasileiras. Com o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, o deputado federal André Janones conseguiu coordenar o esforço de pelo menos 10 milhões de pessoas inscritas. No período entre o primeiro e o segundo turno, Janones distribuiu “missões” de engajamento e distribuição de informações na internet, marcadas pelo seu imperativo “explodam!”.

O “janonismo cultural”, como foi apelidada a estratégia, chamou a atenção de movimentos de esquerda ao redor do mundo que viram no caso brasileiro uma estratégia eficaz contra a extrema direita, já que a reeleição de Lula foi a primeira vitória de um líder de esquerda na América Latina desde que Donald Trump retornou ao poder nos Estados Unidos.

Na Espanha, já se cogita levar André Janones para trabalhar na campanha do primeiro ministro Pedro Sánchez. Em um evento de campanha, a ex-prefeita de Barcelona e líder da coalizão de esquerda na Espanha, Ada Colau, repetiu o gesto do “L” que marcou a mobilização pela reeleição de Lula no Brasil. “Pela esperança. Pela Palestina livre. Por Lula no Brasil. Pela Frente Ampla no dia 29 de novembro. Vamos ganhar, companheiras”, exclamou.

No México, a presidenta Claudia Sheinbaum também fez o “L” com os dedos ao parabenizar Lula pela vitória. E na França, o canal de Whatsapp “L’équipe de Mélenchon officielle” já reúne mais de 46 mil pessoas em apoio à candidatura de Jean-Luc Mélenchon para as eleições presidenciais de 2027. Assim, a eleição do presidente Lula já se tornou um exemplo global do que a mobilização popular pode fazer.  

O segundo turno também levou eleitores de cinco Estados e do Distrito Federal a escolher os seus governadores. No próprio Distrito Federal, Celina Leão (PP) foi reeleita. No Acre, Mailza Assis (PP) também se reelegeu. Omar Azis (PSD) voltará a governar o Amazonas, enquanto o ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos) será o novo governador do Espírito Santo. O petista Cadu de Lula (PT) foi escolhido para governar o Rio Grande do Norte, enquanto Vicentinho Júnior (PSDB) foi o eleito no Tocantins.

Assim, prevaleceu a vontade dos eleitores. Embora reforçada, a democracia não se despiu de seus desafios. Em 2027, o Brasil terá um Congresso Nacional ainda mais conservador, onde a oposição ao governo será maioria. O líder dessa oposição, no entanto, ainda não se revelou. Pois na noite desta terça-feira, 27 de outubro, o ex-candidato à presidência e senador da República, Flávio Bolsonaro, fugiu para os Estados Unidos. 

Bolsonaro é investigado por suspeitas de irregularidades no financiamento do filme ‘Dark Horse’ e de lavagem de dinheiro em caso que envolve o seu sócio e advogado Willer Tomaz. Na última sexta-feira, 23, o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, afirmou que ele devia deixar o país caso fosse derrotado nas eleições, o que de fato aconteceu. Por este motivo, diante de uma possibilidade concreta de evasão do investigado, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, pediu a entrega e cancelamento dos passaportes de Flávio Bolsonaro na segunda-feira, 26.

Na decisão, Moraes afirma: “Na hipótese dos autos, as medidas cautelares revelam-se necessárias e adequadas, bem como proporcionais em sentido estrito na medida em que impõem limitações à liberdade do investigado, que são menos gravosas do que aquelas decorrentes da prisão preventiva, ao mesmo tempo em que se mostram suficientes para acautelar a ordem pública, bem como a evitar embaraços a aplicação da lei penal.”

A decisão não passa do simples cumprimento do devido processo legal em um caso no qual o investigado tinha os meios para evadir o país e mostrou-se acertada diante da concretização da fuga. Horas após desembarcar nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro decidiu se autodeclarar presidente do Brasil, imitando o gesto do venezuelano Juan Guaidó, que fez o mesmo em relação à Venezuela, em 2019. Assim, a verdadeira mácula para a política é um candidato derrotado em eleições livres e democráticas não reconhecer o resultado e abster-se de enfrentar a Justiça em seu próprio país. 

O Humanista cumprimenta os brasileiros e brasileiras pelo seu engajamento cívico neste processo eleitoral. Reiteramos a importância da participação cidadã na política e na defesa da democracia, sem a qual o jornalismo não existe e que, ao mesmo tempo, depende do jornalismo para mantê-la. Essa luta pela garantia da democracia é uma luta permanente e nós também permanecemos comprometidos com ela.

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