Humanista

jornalismo e direitos humanos

Só o começo

Laura Berrutti

A primeira vítima chegou por volta das 10 horas em uma viatura da BM. A mulher entrou na sala tímida. O cabelo moreno, com o corte “chanel”, sobre o rosto, acompanhando a curvatura da coluna e da cabeça. Enquanto esperava saber se as ameaças que sofria culminariam na prisão em flagrante de um ex-namorado, a mulher olhava para baixo e apertava as mãos e pulsos. Ela optou por não conversar com a reportagem. 

Minutos depois, chega uma mulher loira, que vestia um moletom azul marinho e uma calça preta. Ela começou a preencher um questionário que a policial lhe entregara. Quando uma vítima chega na delegacia, ela deve retirar uma senha para garantir o seu atendimento e completar a ficha com dados pessoais, notificando os tipos de violência que sofre. Enquanto isso, às 10h34min, pontualmente, uma outra vítima aparece na delegacia com a mãe e os dois filhos. As crianças correram para brincar com jogos e brinquedos no espaço destinado ao público infantil no canto da sala de espera, uma espécie de resguardo em relação ao clima que já era tenso.

Vítimas podem deixar os filhos brincando no espaço de recreação, que fica no canto da sala de espera.

Cada uma das três mulheres estava preocupada com a sua própria realidade. O que as identificava, naquele momento, era o desejo de uma vida mais livre. Uma das policiais chama, então, a mulher loira – a segunda a chegar – para o primeiro atendimento do dia, numa sala singela: havia apenas uma mesa com um computador e uma impressora, além de duas cadeiras para a vítima e acompanhante. O quadro com uma fotografia em uma das paredes claras preenchia todo o ambiente. O olhar intenso da vítima que havia posado para a foto é capaz de despertar questionamentos àqueles que se dedicam à obra.

Na mesma sala, a moça loira dizia que queria pedir o divórcio do marido, mas que ele ameaçava tirar a própria vida com uma faca se isso acontecesse. Além disso, o homem teria dito que incendiaria a casa com o filho e o casal dentro. A vítima relatava que o companheiro já havia falado que só estava com ela por causa do dinheiro; ele trabalha como autônomo e o salário é instável. É a segunda vez que a mulher de 38 anos faz um boletim de ocorrência em 2019. Na outra ocasião, também havia solicitado uma medida protetiva ao Judiciário, que fora negado. Ao invés disso, o juiz de plantão teria solicitado auxílio psicológico. Novamente, a Delegacia da Mulher emitiu solicitação de medida protetiva: mas, para isso, a mulher não poderia mais entrar em contato com o parceiro. Ele já estava fora de casa há duas noites, e ela acreditava que o marido poderia estar se relacionando com outra mulher. 

No momento em que a vítima loira deixava a DEAM (Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher), a mulher que havia chegado com as crianças já era atendida por outra policial na sala ao lado. Ela dizia estar sofrendo ameaças do pai de seus filhos. Na sala de espera, além de outra mulher loira que recém chegara, a senhora de cabelo “chanel”, cujo agressor havia sido encaminhado para a DPPA (Delegacia Policial de Pronto Atendimento), esperava ser atendida: o seu caso não havia configurado flagrante. E em meio a tantas angústias e incertezas, quem arrancava um sorriso das mulheres era uma menina de 2 anos, que pedia para todas lerem um livro infantil que estava em suas mãos; um sopro de esperança em meio à tristeza inevitável que permeava o ambiente.


24 horas na Delegacia da Mulher

Introdução

Tarde tumultuada

Madrugada sem fim


FOTOS: Laura Berrutti/Humanista

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