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Uma gestão pouco conhecida

Enquanto conversava com Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana poderia estar olhando de relance para o prédio que se esconde atrás de árvores na esquina da rua Caldas Júnior. O McDonald’s da rua dos Andradas, vizinho do edifício, acaba por criar um contraste forte: uma marca que lembra o ritmo contínuo e acelerado das metrópoles a poucos passos de um prédio que foi construído em 1922 e que guarda arquivos e peças até mesmo do século 19.



Desde 1986, o edifício que abriga o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa é tombado como patrimônio histórico do estado. “As pessoas têm a ideia, muitas vezes, de que um edifício preservado, tombado é um edifício que ficou congelado [no tempo]”, pontua Luisa Durán, professora do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio da UFRGS. Conforme cartilha de esclarecimentos sobre tombamento do Iphae (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Rio Grande do Sul), um bem tombado pode passar por obras de adaptação e restauração desde que sejam previamente aprovadas pelo órgão que realizou o tombamento.  

Depois de ficar fechado em 2016 e em 2017 por problemas estruturais, como infiltrações e defeitos na rede elétrica, o Museu da Comunicação reabriu em maio de 2018. Welington Ricardo Machado da Silva é diretor do espaço desde abril de 2019 e entende que fechar as portas implica romper as conexões com a sociedade. “A função do museu estar aqui é porque a sociedade o acessa, é porque a sociedade precisa desse acervo que está aqui dentro, seja para uma pesquisa, para montar suas exposições, precisa desse espaço para criar conhecimento, para movimentar a sociedade como um todo.”

Até o início de março de 2020, o Museu da Comunicação estava com a exposição Bienal Black Brazil Art, que apresentava reflexões sobre mulheres e negritude. (Foto: Isadora Garcia)

Ao passar pela rua ao lado do Museu da Comunicação, a professora de Botânica Márcia Bündchen teve a sua atenção presa a um cartaz da exposição sobre Leonardo da Vinci. Ela decidiu voltar alguns passos para conhecer o local. Márcia está em Porto Alegre há cerca de 10 anos, antes morava em Curitiba (PR), e esta foi a primeira vez que ela entrou no Museu da Comunicação. “Não existe nenhuma indicação de que esse espaço é um museu, ali fora não tem uma placa, então isso também dificulta. As pessoas vão fazer como eu, mas não vão voltar”, apontou. 

Apesar de acreditar que os museus são mais frequentados hoje do que há 25 anos – quando começou a visitá-los -, a professora defende que o acesso tem que ser ampliado e que a escola e a família deveriam colaborar para esse hábito. Aliás, para Márcia, os cidadãos têm que se vincular mais a espaços de cultura: “Uma cidade que é largada dessa maneira cada vez mais torna difícil que a população se aproprie de coisas culturais porque as pessoas estão muito mais preocupadas em segurar sua bolsa, em ficar seguras, do que desfrutar de um museu”. 


Caixa público

A gestão dos museus sob administração da Sedac é feita pelos respectivos diretores e os valores de manutenção destes locais provém de recurso do Tesouro do Estado. Na prática, contas de água, luz, telefone e internet, assim como o salário de terceirizados, funcionários e dos cargos em comissão, além de materiais e serviços solicitados pelos diretores ficam sob responsabilidade de pagamento pela Secretaria. Diante desta atribuição, o diretor Welington detalha que o objetivo da equipe é pensar em estratégias para fazer com que o dinheiro sempre subsidie a atuação museu. E, por isso, depender exclusivamente da Sedac não é uma opção. 



Comparando com outras unidades, de 2014 a 2016, o Museu da Comunicação teve aumentos na verba recebida. Em 2017 e 2018, houveram baixas, seguindo o cenário enfrentado pelos museus nestes anos. 

Com o plano museológico em mãos, o diretor – que também é museólogo – explica que foram estabelecidos projetos para todas as áreas do Museu, levando em conta os três pilares que regem este tipo de unidade: a comunicação, a pesquisa e a preservação. Uma das ideias, já colocada em prática, é a participação em editais públicos de financiamento e fomento da cultura. Outra realização do Museu foi a reativação de sua associação de amigos, que, embora estivesse legislativamente estabelecida, estava desmobilizada. 

O Estatuto dos Museus, em seu Artigo 50, define as associações de amigos como sociedades civis, sem fins lucrativos, que têm a finalidade exclusiva de apoio, manutenção e incentivo às atividades dos museus a que estão ligadas, especialmente, àquelas destinadas ao público em geral.

Para Welington, esta entidade possibilita tanto ter uma participação mais direta da sociedade quanto ter um CNPJ do próprio museu e não da Secretaria. No processo de compra de materiais, isso faz diferença. “Usando um exemplo individual, da nossa casa: se queima uma lâmpada, como a gente faz? Vai na venda, compra uma lâmpada e reinstala, uma coisa super simples. Lidando com o CNPJ da Secretaria, a gente não consegue fazer coisas simples dessa forma porque precisa de todo o processo de compra e contratação, que são bem mais complexos”, exemplifica. 

Embora procedimentos de licitação garantam transparência e igualdade, a demora para sua realização faz com que se torne mais prática a compra a partir da associação, que também conta com um trâmite de comprovações e registro. Com esta entidade, o Museu da Comunicação conseguiu realizar um crowdfunding e fez uma parceria com o MPRS (Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul) para obras de climatização e controle de umidade da reserva técnica do cinema e da fotografia e uma reforma do telhado do Museu, além de pintura e readequação da sala de pesquisas, todas já realizadas. Com a associação, também foi possível montar um plano anual que mostra quanto custa a instituição para além do que a Sedac paga. A estimativa é de que, descontando as despesas com servidores, o valor esteja na média de R$35 mil por mês em 2020.

No Brasil, a tradição de ser um órgão público o responsável por financiar e gerir a cultura tem raízes no pensamento francês. Como contextualiza Gabriela Ferreira, pós-graduanda em Museologia e Patrimônio pela UFRGS e integrante do Colegiado Setorial de Museus do Rio Grande do Sul, esse sistema tem como foco a cidadania, o imaginário e a identidade de país. No modelo norte-americano, por outro lado, a maioria dos museus são geridos pela iniciativa privada, ainda que muitos não tenham fins lucrativos. 

Os estudantes Vince Holub e Olivia Pittman vieram dos Estados Unidos para fazer um intercâmbio em São Paulo e estavam aproveitando para fazer passeios pelos estados e conhecer novas culturas. (Foto: Isadora Garcia)

Em um dos corredores do Memorial do Rio Grande do Sul, os estudantes Vince Holub e Olivia Pittman liam os materiais expostos nos painéis sobre a história gaúcha. Vince disse conhecer alguns museus do Texas (EUA), e Olivia já visitou alguns na Carolina do Norte (EUA).

Comparando os espaços, o intercambista destacou que lá os informativos não são apenas em inglês, mas também em espanhol e português. De maneira geral, ele acredita que os espaços são semelhantes pela diversidade de obras, mas vê como ponto negativo a infraestrutura. E ele deu um exemplo: “Os museus [de lá] têm banheiros muito bons porque geralmente tem que pagar para entrar”. 

Já Olivia afirmou que seu tipo preferido de museu é o que conta a história de um lugar, justamente o que encontrou no Memorial. Ela só ressaltou que não sentiu que existia uma ordem de onde começar e onde terminar o passeio pela exposição.


Orçamento comprometido

Desistindo de uma excursão de barco por causa do vento forte daquele sábado, a vendedora Andréia Miranda decidiu andar pela rua dos Andradas, “uma rua que é história”, segundo ela. Natural de Bagé, Andréia se encantou com a maneira como Porto Alegre tem uma arquitetura que leva a imaginar acontecimentos de épocas antigas. “Você passa tantos anos estudando a história do nosso país, só que você estuda através do livro, então tem que usar a imaginação. Principalmente para nós, que somos do interior, que não temos tanto acesso a essas informações, Porto te abre um leque de opções”, relatou. No Museu da Comunicação, ela sentiu falta de uma pessoa que servisse como guia, mas, no que se refere à estrutura do local, ela avaliou como “bárbara”.

A organização dos espaços também é reflexo dos investimentos estaduais. Apesar dos picos de aumento, os valores destinados aos museus foram reduzindo aos poucos de 2014 a 2018. O maior recebimento de verba foi em 2015, quando a Sedac investiu R$9,5 milhões. Em 2018, por outro lado, o total destinado pela Secretaria às instituições foi de R$4,2 milhões, sem contar o valor repassado ao Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, que não foi informado pela Sedac ao Humanista.

Segundo a Diretoria Administrativa da Secretaria, os valores investidos em cada museu são escolhidos de acordo com as despesas fixas de cada local e o histórico de gastos no ano anterior. “As reduções de orçamento se deram em razão da crise financeira pela qual o Estado vem passando”, posiciona-se em resposta por e-mail. 

O diretor do Museu Hipólito confirma a situação. Para ele, a principal dificuldade é não ter um orçamento pré-definido. Como esclarece Welington: “Tu pensa o que tu quer fazer, submete e aí vai colhendo a aprovação para ir executando. Isso pode parecer uma coisa simples, mas como a gente lida com parceiros, lida também com calendários, isso torna mais difícil o planejamento a médio prazo”.

Do outro lado da Praça da Alfândega, na segunda-feira da mesma semana, três jovens conversavam dentro do Memorial do Rio Grande do Sul. Os estudantes Francisco Conte e Killian Domingues foram, pela primeira vez, em um museu quando eram crianças, já o fotógrafo Thallys Menezes começou a frequentar por volta de 2016. 

Comparando as experiências, os amigos acreditam que não houveram grandes mudanças na infraestrutura dos locais nos últimos anos. Na opinião de Killian, um dos problemas ainda existentes refere-se à divulgação. “A gente sabe qual filme está passando no cinema agora, mas a gente não sabe o que está sendo exposto no museu.” E Thallys concordou, questionando: “Se não chega na gente, que tem uma condição financeira um pouco melhor, como vai chegar nas outras pessoas?”.

Os amigos Francisco Conte, Killian Domingues e Thallys Menezes defendem que identificação entre público e museu é uma das chaves para a valorização destas instituições. (Foto: Isadora Garcia)

Uma das formas de solucionar essa problemática envolve a escola incentivar os alunos a frequentarem estes espaços, entendem os jovens. “Só fazem isso nos primeiros anos, depois só ficam tacando matéria nas pessoas para passar no vestibular e não tem essa questão de incentivo. A gente precisa de cultura além do que se ensina de um conteúdo na escola”, opinou Killian. Francisco e Thallys foram ao encontro da amiga quando afirmaram que há a necessidade de se reconhecer na exposição. Francisco chegou a demarcar: “A Casa de Cultura Mario Quintana todo mundo conhece e virou meio que um símbolo de Porto Alegre. Ele foi um baita representante da nossa cidade. E a missão dos museus é isso: preservar nossa identidade”.


Introdução

Um empurrãozinho federal

O pertencer à comunidade


 

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