Basta ir pela avenida Borges de Medeiros e dobrar na rua Duque de Caxias. Ao buscar no Google pontos turísticos da capital, um dos apresentados pelo site é a Catedral Metropolitana de Porto Alegre. Mas ela não é a protagonista desta história, é apenas a vizinha alguns metros distante, assim como a Assembleia Legislativa do Estado e o Palácio Piratini, das duas casas que formam o Museu Julio de Castilhos.
Naquele sábado ensolarado, um potiguar visitava o Museu junto ao seu amigo gaúcho. “Sempre que vou numa cidade pela primeira vez, eu procuro fazer essas visitas até para entender a história e a origem dos locais”, declarou o empresário Cristian de Queiroz. Vindo de Natal (RN), ele contou que conhece muitos museus na sua região e, relacionando as experiências, achou que a infraestrutura do Museu Julio de Castilhos “deixa a desejar”.
Apesar disso, o visitante defende que é necessário valorizar qualquer espaço em que seja possível resgatar a memória, mesmo quando não está bem estruturado, pois “é importante você saber de onde veio para depois saber para onde vai”. E finalizou: “O nosso país não valoriza a nossa história, cultura. Temos memória curta”.
A professora Luisa Durán, do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio da UFRGS, explica que os museus são como “um cartão de apresentação de uma cidade”. Ela entende que a gratuidade do acesso já é um passo no sentido de democratizar os espaços, mas a demanda por melhorias também depende dos cidadãos. Usufruir os museus é, portanto, um direito: “Se nós nos preocupamos e vamos atrás da cultura, vamos criar demandas, então vão ter que nos dar atenção. Eu acho que nós temos que sair de nosso mundinho e conhecer a cidade, conhecer o estado”.
Aliás, com um acervo de aproximadamente 10 mil itens, apenas o Museu Julio de Castilhos já permite uma volta pelo Rio Grande do Sul em uma tarde. Em relação à infraestrutura, o prédio principal, onde morou Castilhos, ficou fechado por 16 anos até reabrir em agosto de 2013. Só que não foi somente desta vez que o Museu teve que fechar: durante alguns meses em 2017, por exemplo, a instituição não permitiu visitações devido à falta de manutenção do espaço.
Os valores destinados pela Sedac ao Museu Julio de Castilhos de 2014 a 2017 não foram baixos. Atrás do Margs (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) e do Memorial do Rio Grande do Sul, o Julio foi uma das instituições que recebeu as maiores verbas durante o período. O ano de prejuízo foi 2018, quando houve uma redução de cerca de R$831 mil, comparando com 2017.


Doris Couto é diretora da instituição desde fevereiro de 2019 e esclarece que, ao se falar em gestão de espaços de cultura, deve-se levar em conta todos os serviços e materiais necessários ao funcionamento. “Quem olha de fora tem a base, por exemplo, da administração da sua casa, de uma reforma na sua casa, de uma intervenção em espaços que não são públicos. As obras públicas custam infinitamente mais do que as obras privadas ou quaisquer intervenções dessa natureza”, argumenta.
Para a diretora, ainda há problemas porque o orçamento do Estado está “totalmente comprometido”, mas a Sedac tem atendido as demandas do Museu. Ela ilustra: “Tem havido maior sensibilidade, mas as dificuldades obviamente existem. Eu não posso, por exemplo, empreender uma expografia em que eu demande um mobiliário novo ou que eu demande a contratação de recursos tecnológicos porque não há orçamento para isso”.
A associação de amigos do Museu Julio de Castilhos ajuda na parte financeira. Entre outras ações, a entidade participa através da comercialização de produtos, da realização de eventos com cobrança de ingressos e de campanhas como a Emoldure a História, em que as pessoas são convidadas a deixar algumas moedas e levar um livro em troca.
A verba arrecadada nas atividades é aplicada na estrutura física do Museu. Com a associação, foi possível empreender um convênio com o Tribunal de Justiça do Estado, através da Vara de Execução das Penas e Medidas Alternativas de Porto Alegre, que destinou R$165 mil para restauro de peças. Estão inclusas nisto a vitrola de Borges de Medeiros, duas telas com retratos de Júlio e da família, uma tela de Bento Gonçalves, oito bustos, o piano e 20 cadeiras que foram doadas ao Museu.
Ainda que exista uma condição financeira “insuficiente”, a diretora conta que isso não parece impactar na visita do público ao Museu Julio de Castilhos. A estratégia da equipe, como explica, é deixar claro para as pessoas o que levou à precariedade das estruturas físicas do local e o que têm feito em busca de melhorias.
Em 2019, o Museu ficou três meses sem energia elétrica para manutenção da caixa de entrada e encontrou uma alternativa à situação: “Nós propúnhamos às pessoas fazerem uma imersão no tempo do Júlio e da Honorina [esposa de Júlio de Castilhos], em que não havia energia elétrica. Nós mostramos que [a reforma] era uma questão de segurança do acervo, da edificação e, acima de tudo, das pessoas que transitam pela casa”.
Ação por aqui, apoio de lá
“Em determinados dias que estava muito fechado, muito nublado, ele parecia meio bucólico, bastante aterrorizador porque a gente começa a ouvir estalos, barulhos estranhos que não está acostumado a escutar, a gente até se assusta”, revelou a auxiliar administrativa Vera Maria Adamski, que trabalhou na limpeza e manutenção do Museu Julio de Castilhos de 2004 a 2005. Entre as histórias que circulavam pelas casas, ela lembrou que diziam que Honorina tinha morrido em um dos quartos e, por isso, às vezes, se escutavam barulhos naquele local.
Vera acredita que as condições do Museu não mudaram muito daqueles anos para os atuais, embora não tenha mais o costume de o visitar. Em sua opinião, falta manutenção do prédio por fora e por dentro, pois “os móveis são muito velhos, o assoalho bastante antigo, tem certos lugares que pode pisar e até cair e se machucar”.
Além disso, ela também destacou ser necessária uma atenção maior com as obras externas, como os canhões. Era ela a responsável por cuidar do pátio onde ficam estas peças. “Eu me importava como se fosse a minha casa”, contou e acrescentou que alguns colegas chegavam a questioná-la sobre os motivos de dar tanta importância para o jardim.

Este é um dos espaços para o qual se planeja uma restauração. O propósito está dentro do projeto formulado através do Pac (Programa de Aceleração do Crescimento) – Cidades Históricas. Esta linha do Pac surgiu em 2013 e é destinada a espaços históricos urbanos protegidos pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O Programa previa o investimento de R$1,6 bilhão em 425 obras de restauração de edifícios e espaços públicos, em 44 cidades de 20 estados brasileiros, mas há atrasos no andamento.
No Museu Julio de Castilhos, a iniciativa começou por volta de 2015, sob comando do Iphae (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado), quando uma empresa foi licitada para elaborar todo o projeto de restauro do local. Em novembro de 2019, a Sedac recebeu a aprovação de R$10,5 milhões de um edital do Fundo de Defesa de Direitos Difusos do Ministério da Justiça e Segurança Pública para realizar as obras originadas no projeto bancado pelo Pac.
Entre as manutenções a serem feitas, está a troca completa da estrutura do telhado, o paisagismo do pátio e o reparo de infiltrações, de rachaduras em paredes, de aberturas com cupim e de rebocos antigos. Também está planejada uma nova reserva técnica, local onde se mantém tudo o que está sob guarda de um museu, porém não está exposto. “Hoje, esses objetos estão no porão do Museu, há uma umidade extrema e uma condição inadequada de guarda há 117 anos”, declara a diretora Doris, que também é museóloga. A previsão é de que a licitação para as obras aconteça a partir de novembro de 2020 e de que os restauros comecem em 2021.
Cinquenta anos em cinco
A atual gestão da Secretaria está colhendo os frutos de um processo iniciado há alguns anos. É o que esclarece o assessor especial de Memória e Patrimônio da Sedac, Eduardo Hahn, em relação ao Pac. A liberação dos R$10,5 milhões para investimentos no Museu Julio de Castilhos não estava prevista na proposta inicial porque, à princípio, após a finalização dos projetos, o Pac seria o responsável por liberar recursos para as obras. “Como nós tivemos uma indicação de Brasília de que, provavelmente, esse programa federal tende a acabar no próximo ano [2020], a gente acabou optando por alterar esse rumo e inserimos o projeto do Julio nos Direitos Difusos do Ministério da Justiça”, complementa. O objetivo da Secretaria é que, em 2020, o mesmo ocorra com um dos projetos pendentes: do Memorial do Rio Grande do Sul ou do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, também contemplados pelo Pac. No momento, a Sedac aguarda a abertura do novo edital.
No caso deste último, o diretor da instituição, Welington Ricardo Machado da Silva, ressalta que as obras trariam maior acessibilidade ao prédio, melhorariam a estrutura da internet e da energia elétrica e reformulariam áreas de exposição e de pesquisa. Mas, ainda mais importante, seriam as transformações nas reservas técnicas a partir de ampliações de salas e climatização.

O diretor também conta que, devido à estrutura do prédio e do centro da cidade, em dias de chuva, a água da rua acaba entrando pelas janelas do subsolo. Hoje existe um sistema de bombeamento “insuficiente” para evitar o problema, segundo Welington. “Além de destruir todo o subsolo no sentido de mofar as paredes, de estragar o chão, é um lugar que a gente não pode ocupar com alguma coisa, é um espaço que hoje é quase que um grande depósito de mobiliário antigo de uso cotidiano ou alguma coisa que vai para descarte”, explica. O projeto do Pac prevê a instalação de um novo sistema de drenagem e bombeamento com maior tecnologia.
O plano de ação no Memorial, por sua vez, está em fase de conclusão. No momento, aguarda aprovações de órgãos municipais. O projeto prevê, entre outros, recuperação e troca de pisos, acessibilidade, adequação ao PPCI, restauração das fachadas e das esquadrias, pintura geral, novas instalações elétricas, hidrossanitárias e de esgoto e modernização da climatização.
O Margs também recebeu auxílio do Programa, que projetou a recuperação dos quatro torreões do prédio e da pavimentação do terraço, ambos os espaços têm infiltrações, e da estrutura de madeira, que sofre com a ação dos cupins, além da instalação de um novo sistema de ar condicionado. Em 2019, o governo federal liberou R$5,6 milhões para o Margs. O valor proveio de outro edital do Fundo de Direitos Difusos. O início das obras depende do repasse desta verba à Superintendência do Iphan no Rio Grande do Sul. Este é o projeto de reforma de museu estadual gaúcho mais avançado no Pac, mas, devido à pandemia de Covid-19, não há um prazo determinado para início das obras.

Sentados em um dos bancos do Margs, os aposentados Aloisio Szekut e Lucia Regina Rambo Szekut voltaram no tempo. Gaúchos, porém moradores de Florianópolis (SC), há anos não visitavam o Museu. “[O espaço] está muito bem preservado. A cultura está presente nas amostras que tem aqui e é muito bom para os gaúchos ter algo assim para visitar”, declarou Aloisio. Lucia acrescentou à fala do marido que as escolas deveriam priorizar mais estes locais.
Em uma sala do lado oposto a que o casal estava, a estudante de Artes Visuais Luíza Conzatti fazia um trabalho da faculdade. Ela lembrou que tinha uns sete ou oito anos na primeira vez que visitou um museu e ficou encantada com a “grandiosidade do lugar, uma coisa meio monumental”.
Hoje, aos 20, a jovem entende que, embora o Museu esteja presente, ele parece não alcançar as pessoas. Como discorreu: “Tem gente que não vem até aqui porque não sabe que está tendo exposição, não sabe nem o que é o Margs ou qualquer museu. Eu acho que, mais que se colocar na sociedade, [é preciso] fazer mais parte para que as pessoas possam vir mais e participar”.




