“Trabalho com isso desde que me conheço por gente.” É assim que o pedreiro Marcelo (cuja identidade verdadeira foi preservada), 52 anos, define sua trajetória no ramo da construção civil. Natural de São Sepé, na região Central do Rio Grande do Sul, mudou-se para Porto Alegre antes mesmo de completar a maioridade – seguindo os passos das irmãs, que também optaram por tentar a vida para os lados da Capital.
No Dia do Trabalhador da Construção Civil, celebrado em 26 de outubro, o Humanista conta um pouco da rotina de Marcelo, representando milhões de brasileiros que, como ele, continuam a erguer as cidades brasileiras mesmo durante a pandemia de Covid-19.
Hoje é, no município de Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, que Marcelo estabelece seu lar. Ao longo dos 35 anos vividos para cá da ponte do Guaíba, foi nos canteiros de obras que, construindo alicerces e levantando paredes, encontrou a possibilidade de construir também sua própria vida. Não poderia imaginar, naquela época, que viveria para dizer que construía casas enquanto o que mais se ouvia era “fique em casa”.
Avanço da pandemia impactou a rotina nos canteiros
Segundo dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua), no segundo trimestre de 2020, 5 milhões e 323 mil brasileiros encontravam-se ocupados na indústria da Construção Civil. O segmento contempla, ao menos, 12% da empregabilidade no país. Na capital gaúcha, parte destes trabalhadores interromperam seus trabalhos em 25 de março, após a publicação de um decreto que ordenou a paralisação das atividades do setor. Em 22 de abril, pouco menos de um mês depois, a decisão foi revogada, ficando permitido o funcionamento dos canteiros de obras com restrição de horários – das 9h às 16h – e mediante adoção de medidas de segurança. Atualmente, as atividades da construção civil vêm funcionando sem restrição de horários na Capital – desde a publicação do decreto nº 20. 623, de 20 de junho.
Na cidade vizinha de Novo Hamburgo, onde Marcelo mora e trabalha, mesmo diante do avanço da pandemia, as atividades do setor não pararam – causando insegurança aos trabalhadores e familiares de quem continuou a atuar nos canteiros de obras que se espalham pelo município da Região Metropolitana de Porto Alegre. Segundo Marcelo, apesar de nenhum decreto ordenando a paralisação das atividades ter sido emitido pela prefeitura municipal, a empresa na qual trabalha chegou a suspender as obras por uma semana, ainda no início da pandemia no Rio Grande do Sul. Contudo, desde meados de abril, ele vem atuando de segunda a sábado nas construções. “A pandemia afetou muito a nossa área. Mas, aqui em Novo Hamburgo, não mudou muita coisa. Meu encarregado até pegou o corona. Ele continuou trabalhando porque nem sabia que tinha pego, os sintomas vieram diferentes. Esse vírus dá vários sintomas, é desarranjo, é dor de barriga, é dor de cabeça. Quando ele foi no médico, o doutor disse que pegou tão fraco que até passou. Só que a esposa e as filhas dele também pegaram. Graças a Deus não afetou a gente no serviço”, relembra o pedreiro.
De acordo com Marcelo, as medidas adotadas têm sido rígidas: máscaras, luvas, álcool em gel usado constantemente e distanciamento entre os trabalhadores, que atuam, no máximo, de dois em dois no mesmo espaço. É a isto que ele atribui o fato de, mesmo com um dos trabalhadores tendo testado positivo para a Covid-19, nenhum outro ter manifestado os sintomas da doença. “Todo mundo coopera, porque essa doença tá matando gente que nem louco. Não podemos abusar disso daí”, comenta Marcelo, apesar de relatar que, mesmo após a confirmação do diagnóstico do colega, não houve testagem dos trabalhadores da obra.
Alternativas para enfrentar a pandemia
Na quarta semana de setembro de 2020, o número de brasileiros desempregados bateu na casa dos 14 milhões – série histórica desde o início da pandemia, de acordo com os resultados obtidos na série especial alusiva aos dados da pandemia da PNAD Covid-19 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio). O resultado foi sentido também na indústria da construção civil, visto que o número de ocupações neste setor, no segundo trimestre, caiu quase um milhão em relação ao primeiro trimestre deste ano. Para Marcelo, o caminho, porém, foi inverso: trabalhando de maneira informal no início da pandemia, ele conquistou a carteira assinada pela empresa na qual vinha atuando como “frio” – termo designado aos trabalhadores que atuam nos canteiros de obra “por empreitada”, sem vínculo empregatício formal.
“Faz acho que dois meses que tô de carteira assinada na firma, mas também faço churrasquinho pra vender. Tava apavorado, porque essa pandemia deixou todo mundo mal. Aí pensei: bah, vou meter um churrasquinho para ver”, conta Marcelo. Mantendo as duas atividades, após a chegada do trabalho no canteiro de obras, ele já se prepara para a venda dos petiscos, feita em frente à sua residência. Quanto aos cuidados em relação à disseminação do coronavírus, garante respeitar todas as medidas, seja na obra ou à frente da mini churrasqueira – até porque, como diz, já não é mais guri. Contudo, conta que, na comunidade onde vive, no bairro Boa Saúde, em Novo Hamburgo, a postura adotada pela vizinhança não é das mais recomendadas: “O pessoal não está muito respeitador. Tem mercados que exigem o uso de máscara, outros tu entra e tá todo mundo sem”.
Para o pedreiro empreendedor, o medo devastador sentido no início da pandemia já deu certa trégua, pois as medidas de segurança passaram a fazer parte do seu dia a dia. Ainda assim, diz não confiar que a situação esteja melhor e não se sentir totalmente seguro – porém, do mesmo modo, as contas não deixarão de chegar em sua residência ao final de cada mês. Na expressão da sabedoria de quem já viu de quase tudo nesta vida, como orgulha-se de dizer, o caminho, para ele, está em cada um fazer a sua parte: “Morre gente todo dia, mas nunca morreu gente de ‘penca’ do jeito que está morrendo agora. Creio que isso vai passar, mas ainda tá matando gente. Então não adianta ficar nessa de achar que em mim nada pega, porque pega sim. Temos é que nos cuidar”.




