Autoras e autores negros sofreram com o apagamento na história literária do país, mas cenário atual dá indícios de mudança
Gabriela Garcia
Muitos são os superpoderes dos livros e da literatura: transportar leitores para outros mundos, com outras histórias; dar vida a criaturas fantásticas, como monstros e fadas; voltar ao passado ou pular para o futuro; emocionar até os leitores mais durões. Infelizmente, contudo, a literatura ainda está longe do ideal quando se trata de representatividade e de diversificação dos protagonistas das histórias que nos são tão caras. Isso porque, diante da realidade, a fantasia parece mais atraente. Fantasia essa que inclui também colocar apenas pessoas brancas como protagonistas, além, é claro, de os próprios escritores serem brancos, em sua maioria. Assim como na estrutura social, a literatura negra também sofre com a marginalização.
“A parte boa do livro é que muitas vezes ele não descreve a cor do personagem. Por isso, eu conseguia me imaginar no lugar deles”, desabafa Liliane Pereira, 35 anos. A jornalista é editora na Rádio Gaúcha e colunista de samba e carnaval no Diário Gaúcho, em Porto Alegre. Mãe de Vicente, de 1 ano e 10 meses, Lili conta ao Humanista que, mesmo se imaginando nas histórias que lia, o papel não era o de protagonista. “Eu poderia ser parte daquela história imaginária, mas, geralmente, em situação de menor poder aquisitivo, em funções profissionais menos valorizadas ou como uma negra escravizada, como em inúmeras obras que retratam as pessoas negras.” O estigma que sofre a pessoa negra na literatura também fica evidente nos enredos das narrativas.
Segundo o poeta, letrista e crítico de poesia Ronald Augusto, de 59 anos, o que define a chamada literatura afro-brasileira, negro-brasileira, literatura negra ou, mais recentemente chamada, literatura de autoria negra são três aspectos: os autores que fazem essa produção tem de se reconhecer como negros ao longo da narrativa, os textos devem fazer referência a elementos da cultura afro-brasileira e, por fim, a produção deve apresentar participação na luta antirracista, ou seja, o autor tem de se revelar como um sujeito que lida de forma propositiva com a questão do racismo estrutural no Brasil.
Para Ronald, sequer é possível dizer que existe uma literatura brasileira, uma vez que não há história ou desenvolvimento de uma literatura nacional. O que pode ser dito é que existe o desenvolvimento de uma literatura branca brasileira. “Quando as pessoas questionam e questionavam no passado, [dizendo que] ‘a literatura não tem cor, não tem sexo’, na verdade, estavam disfarçando, encobrindo essa verdade de que o que existe no Brasil ainda é a literatura branca brasileira. As relações de prestigiamento e aqueles que produzem ou produziam, até pouco tempo, essa literatura eram e são, na maioria dos casos, pessoas brancas.” Ronald é um dos escritores que vive a realidade da literatura negra na pele. O poeta é autor de algumas obras, entre elas, Confissões Aplicadas (2004), Cair de Costas (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013), Nem raro nem claro (2015) e À Ipásia que o espera (2016).
Ao longo da história literária do Brasil, vários foram os autores e autoras negras que sofreram com o apagamento. Entre eles, estão nomes como Lima Barreto, Maria Firmino e Cruz e Souza. Neste sentido, o argumento dos críticos no ambiente literário para o preconceito contra autores negros era de que a literatura não teria cor e de que a produção desses autores não teria qualidade literária. “Se questionava a qualidade sem conhecer um espectro amplo dessa produção. Eu via em vários debates fazerem essa afirmação e, quando eram questionados, não conseguiam listar mais do que três livros de autores negros. Então, era uma objeção que já partia do pressuposto que autores negros não teriam capacidade para fazer uma boa literatura. Isso era produto óbvio do preconceito”, explica Ronald.
O escritor comenta que um movimento de mudança vem surgindo nos últimos 30 anos no país. O sistema hegemônico de produção, em uma cadeia em que todo o processo era comandado por pessoas brancas, está se diversificando. “O sistema todo, desde a produtora até chegar no leitor, passando pelo mercado editorial, era todo um circuito de pessoas brancas. Agora, esse quadro começa a mudar.”
Perspectivas
Em 2020, um ano difícil em escala global por conta da pandemia de Covid-19, acontecimentos que ganharam os noticiários e tiveram repercussão no mundo inteiro favoreceram o debate racial. Casos como o assassinato, em maio, do estadunidense George Floyd, homem negro que foi asfixiado por um policial branco durante abordagem. As imagens do crime brutal repercutiram e geraram protestos antirracistas e contra a violência policial em diversos países. A procura pelo termo “racismo” no Google bateu recorde em junho no Brasil, segundo a dados da plataforma.
Ainda neste ano, com a discussão sobre o racismo em voga, uma surpresa positiva no campo literário brasileiro e gaúcho: pela primeira vez em 66 anos, a Feira do Livro de Porto Alegre teve como patrono um escritor negro. Jeferson Tenório também é o mais jovem a assumir o cargo, aos 43 anos. “Creio que 2020 será um ano que deixará marcas por muito tempo. A pandemia trouxe uma série de demandas antigas, discussões e problemas de ordem social. O Avesso da Pele chega num momento em que as questões raciais vinculadas à violência policial estão em evidência. No entanto, a tese que proponho no romance não é novidade para uma sociedade que tem como base um racismo estrutural. Desse modo, vejo meu livro como mais uma contribuição para um debate complexo através da literatura.”
“O Avesso da Pele” é o livro mais recente do autor, lançado em 2020, e narra a história do personagem Pedro. A narrativa traz contrastes entre bairros ricos e periféricos de Porto Alegre, além de mostrar um país marcado pelo racismo e pelo sistema de ensino deficitário. Mestre em Literaturas Luso-africanas pela UFRGS e doutorando em Teoria Literária pela PUCRS, Tenório ainda é autor dos livros “O Beijo na Parede” (2014) e “Estela sem Deus” (2018). “Chegamos a um limite da falta de representatividade, oriunda de um racismo estrutural, que impede que pessoas negras ocupem espaços de poder e de prestígio social. Creio que o próximo passo é o de naturalizar as pessoas negras nesses espaços, até chegarmos a um estágio de não precisaremos mais dizer que o ‘primeiro negro’ conseguiu algo importante. Sou o primeiro patrono negro, em 66 edições, mas espero não ser o último também.”
Tanto Ronald quanto Tenório ressaltam a preocupação com a possibilidade de inserção de autores negros em grandes editoras e em grandes festivais literários ter um objetivo mercadológico dessas instituições e não fruto de um entendimento de que há literatura de qualidade publicada por autores negros tanto quanto por autores brancos. “É necessário estar atento para que essas participações não sejam vistas como uma ‘onda’ ou ‘moda’, mas, sim, como uma política de reparação”, explica o patrono da Feira do Livro.
A passos pequenos, é verdade, mas as mudanças já são perceptíveis. Ainda antes de completar dois anos, Vicente já tem seu livro preferido: Amoras, do rapper, cantor e compositor brasileiro Emicida. Guardado cuidadosamente na prateleira para que a criança não o rasgue, Lili alcança para o filho, que admira a menina negra na capa e os personagens negros que compõem e ilustram a narrativa. “O Vicente já nasceu tendo livros com crianças negras na capa e protagonizando histórias. Desde que ele tinha uns quatro meses de vida, já comecei a ler para ele. Hoje, ele mesmo já folheia as páginas dos livros que deixo ao alcance dele e ‘lê’. Ou pede que eu ou o pai [dele] leia para ele.”
FOTO DE CAPA: Arquivo Pessoal






