Caso Clínico 179Y7
Identificação
Espécie: Canina
Raça: Dachshund
Idade: 4 meses
Sexo: macho
Peso: 4,310 kg
Anamnese
Paciente recentemente adotado, há duas semanas apresentava vômito depois de ingerir ração. Desde então a tutora vinha oferecendo biscoitos e comida caseira ao animal. Em uma consulta anterior foi constatada elevação da atividade sérica de ALT (468 U/L↑, ref.: <102). Tutora informou sobre a possibilidade de ter sido administrado antifúngico, pois o paciente havia apresentado micose há 3 meses. Foi mencionado também seu hábito de comer objetos, com episódio de ingestão de Sansevieria trifasciata (Espada-de-São-Jorge).
Exame físico
Animal ativo e alerta
Temperatura retal 38,5 °C (37,4-39,0)
Escore corporal 3 (ref.: 1-5, ideal=3)
Discretamente desidratado
Mucosas normocoradas
Tempo de preenchimento capilar sem alteração (ref.: <2 s)
Frequência cardíaca: 135 bpm↑ (ref.: 80–120)
Exames complementares
Análise de líquidos cavitários (dia 29)
Drenagem abdominal (ascite) classificada como efusão de transudato puro ou pobre em proteína, composto por células epiteliais monomórficas, com observação de raros neutrófilos e macrófagos.
Ultrassonografia abdominal (dias 7, 31, 58, 97 e 184)
Os quatro primeiros exames indicavam fígado com dimensões mantidas e contornos regulares, moderadamente hiperecogênico (hepatopatia/fibrose/lipidose?), com diversos focos hiperecogênicos pequenos e arredondados, com aumento acústico tênue (mineralização?). Presença também de moderada quantidade de líquido livre anecogênico na cavidade.
No dia 184 o fígado se apresentava com volume diminuído e bordos irregulares. Parênquima heteroecogênico, apresentando aspecto nodular, com pontos hiperecogênicos de mineralização (hepatopatia crônica/processo cirrótico). Veias hepáticas e portais pouco evidentes no Doppler colorido. No abdômen, caudal ao rim esquerdo, presença de vasos dilatados e tortuosos, apresentando fluxo turbulento em mosaico de núcleos. Sugerida a possibilidade de envolvimento da veia testicular. Artéria e veias de borda esquerda com origem aparentemente preservada. Imagem compatível com desvios portossistêmicos extra-hepáticos e/ou vasos sanguíneos colaterais.
Tratamento e evolução
Ao longo de todo o período foram utilizados: silimarina (ação antioxidante, utilizada no tratamento de hepatopatias crônicas), adenosil metionina (tratamento da colestase e distúrbios hepáticos), omeprazol (redutor de secreção gástrica), ondansetrona (antiemético), Hepvet (auxiliar no metabolismo de gorduras e proteínas), vitamina K, espironolactona (diurético poupador de potássio), metronidazol (derivado nitroimidazol com atividade antiprotozoária e antibacteriana). Após instituída a terapia, o paciente se manteve estável, mas recorrentemente havia retorno dos quadros de vômito e ascite.
Hemograma
| Eritrograma | Dia 22 | Dia 52 | Dia 319 |
| Eritrócitos (5,5-8,5 milhões/µL) | 5,21↓ | 4,10↓ | 8,91↑ |
| Hematócrito (37-55%) | 32↓ | 21↓ | 50 |
| Hemoglobina (12-18 g/dL) | 9,8↓ | 5,6↓ | 16,6 |
| VCM (60-77 fL) | 61,4 | 51,2↓ | 56,1↓ |
| CHCM (32-36%) | 30,6↓ | 26,7↓ | 33,2 |
| Plaquetas | |||
| Quantidade (200-500 ×103/µL) | 145↓ | 100↓ | 160↓ |
Observações (dia 52): hipocromasia (++); policromasia (+), anisocitose (+)
| Leucograma | Dia 22 | Dia 52 | Dia 319 |
| Leucócitos totais (6.000-17.000/µL) | 26.300↑ | 24.500↑ | 15.400 |
| Mielócitos (0/µL) | 0 | 0 | 0 |
| Metamielócitos (0/µL) | 0 | 0 | 0 |
| Neutr. bast. (<300/µL) | 0 | 0 | 0 |
| Neutr. seg. (3.000-11.500/µL) | 18.147↑ | 14.700↑ | 9.086 |
| Basófilos (<200/µL) | 0 | 0 | 0 |
| Eosinófilos (100-1.250/µL) | 789 | 245 | 1.694↑ |
| Monócitos (150-1.350/µL) | 789 | 1.715↑ | 308 |
| Linfócitos (1.000-4.800/µL) | 6.575↑ | 7.840↑ | 4.312 |
Bioquímica sanguínea
| Dia 22 | Dia 52 | Dia 319 | |
| Amostra | soro | soro | soro |
| Hemólise | ausente | ausente | leve |
| AnticoagulanteA | nenhum | nenhum | nenhum |
| Proteínas totaisB (60-80 g/L) | 38↓ | 50↓ | 66 |
| Proteínas totaisC (54-71 g/L) | n.d. | n.d. | n.d. |
| Albumina (26-33 g/L) | 22↓ | 27 | 31 |
| Globulinas (27-44 g/L) | 16↓ | 23↓ | 35 |
| Colesterol total (135-270 mg/dL) | n.d. | 91↓ | 74↓ |
| Ureia (21-60 mg/dL) | 20↓ | 17↓ | 12↓ |
| Creatinina (<1,4 mg/dL) | n.d. | 0,8 | 0,7 |
| FA (<156 U/L) | 762↑ | 286↑ | 162↑ |
| ALT (<102 U/L) | 170↑ | 114↑ | 399↑ |
| TP* (<10 s) | 8,2 | 8,9 | 7,4 |
| TTPA* (15-20 s) | 40,4↑ | 26,1↑ | 24,4↑ |
| Triglicerídeos (32-138 mg/dL) | n.d. | 37 | 28↓ |
BEstimadas por refratometria; CDeterminadas por espectrofotometria
TP, tempo de protrombina; TTPA, tempo de tromboplastina parcial ativada
Observações: *amostras de plasma com citrato
Urinálise
| Dia 91 | Dia 319 | |
| Método de coletaA | não informado | cat |
| Sedimento urinárioB | ||
| Células epiteliais | escamosas (2), transição (3) | escamosas (raras), transição (raras) |
| Cilindros | ausentes | presentes↑ |
| Hemácias | 60↑ | 0 |
| Leucócitos | <5 | raros |
| Bacteriúria | severa↑ | leve↑ |
| Outros | Urato de amônio (++) | Urato de amônio (+) |
| Exame químico | ||
| pH (5,5-7,0) | 8,0↑ | 7,0 |
| Corpos cetônicosC | ausente | ausente |
| GlicoseD | ausente | traços↑ |
| BilirrubinaE | +↑ | +++↑ |
| Urobilinogênio (<1 mg/dL) | ≈0,2 | ≈0,2 |
| ProteínaF | +↑ | +↑ |
| SangueG | ++↑ | ausente |
| RPCUH | n.d. | n.d. |
| Exame físico | ||
| Dens. espec. (1,015-1,045) | 1,034 | 1,030 |
| Cor | Amarela escura | Amarela |
| Consistência | Fluida | Fluida |
| Aspecto | Discretamente turvo | Turvo |
Amic, micção natural ● cat, cateterização ● cist, cistocentese ● out, outros (especificar em “Observações”)
BNúmero médio de elementos por campo de 400 x
Ctraços, ≈5 mg/dL ● +, ≈15 mg/dL ● ++, ≈40 mg/dL ● +++, ≈80 md/dL ● ++++, ≥160 mg/dL
Dtraços, ≈100 mg/dL ● +, ≈250 mg/dL ● ++, ≈500 mg/dL ● +++, ≈1000 mg/dL ● ++++, ≥2000 mg/dL
E+, leve ● ++, moderada ● +++, alta
F+, ≈30 mg/dL ● ++, ≈100 mg/dL ● +++, ≈300 mg/dL ● ++++, ≥2000 mg/dL
Gnh, não hemolisado ● h, hemolisado ● +, leve ● ++, moderada ● +++, alto
HRPCU, relação proteína/creatinina urinária (na ausência de sedimento ativo)
– Caninos: <0,2, não proteinúrico ● 0,2 a 0,5, proteinúria limítrofe ● >0,5, proteinúrico
– Felinos: <0,2, não proteinúrico ● 0,2 a 0,4, proteinúria limítrofe ● >0,4, proteinúrico
– Equinos: <0,93, não proteinúrico
n.d.: não determinado
Discussão e referências bibliográficas
Devem ser discutidos os achados laboratoriais alterados (referentes a urinálise, bioquímica sanguínea e hemograma), estabelecendo as correlações relevantes com o quadro clínico do paciente. Não deve ser discutido o tratamento realizado. As alterações nos achados laboratoriais devem ser justificadas com base nas informações contidas na literatura especializada. É sugerido organizar a discussão nos seguintes grandes tópicos:
- Hemograma
- Bioquímica sanguínea
- Urinálise
- Outros exames laboratoriais (quando for o caso)
- Considerações gerais sobre o quadro clínico
