“Para nos emanciparmos da suavidade das novelas das seis, optamos, já no início da nossa relação, pelo sexo bruto”, diz Wim Endersson, 26 anos e agente literário. Ele é o orgulhoso filho de CobyCounty, uma fictícia Meca do bem-estar junto ao mar, que não está nem nos EUA nem na Europa, mas parece unir Miami Beach e o bairro Prenzlauer Berg em Berlim
Sempre em busca do eu autêntico e da otimização de si mesmo, todo consumo, seja ele sexual ou material, requer uma decisão ponderada para Wim. O narrador em primeira pessoa do romance Nevoa translúcida sobre CobyCounty parece ter perdido qualquer sentimento, cada gesto vira pose, ele parece ter se tornado uma citação de si mesmo: “No supermercado, muitas pessoas colocam as mãos na frente da boca. São gestos descontrolados, totalmente gastos, e quando me pergunto que tipo de gesto estou fazendo no momento, fico completamente tenso. Eu cruzo meus braços e me encosto na minha perna esquerda”.
Na cidade de CobyCounty, fundada inicialmente como beautyfarm, Wim leva uma vida autorreflexiva, sem preocupações. Seu “amor bem organizado” com a “talentosa Carla Soderbergh” é limitado a dois ou três encontros por semana. Ele faz seu trabalho como agente literário de maneira extremamente relaxed e, como todos os moradores de CobyCounty, está apenas preocupado, nestes dias de março, com a preparação para a temporada de férias.
Em geral, tudo é soft, leve e sintonizado em uma frequência intermediária. Até o momento em que o teleférico local descarrila, “pessoas com laptops e – HDs externos nos braços fogem para suas vans familiares” e assim o sinal de partida é dado para o derretimento lento dos rituais de um mundo solidificado. Seu relacionamento chega a um fim abrupto e seu melhor amigo Wesley transmite as profecias sombrias de sua mãe neo-espiritualista e deixa a cidade de repente. Wim permanece cool.
Assim as mansões em chamas, a destituição do prefeito popular e as medidas de evacuação da cidade tomadas em função de uma iminente tempestade monstruosa parecem ilustrar as emoções que Wim teria de sentir, se não estivesse constantemente tentando se desfazer de seus sentimentos. “Nós [Wesley e Wim] nunca costumávamos dizer que estávamos apaixonados por alguém. Porque parecia construído, e porque não queríamos ser ingênuos”. Seu desejo de não ser o que a mídia sugere leva a um niilismo que faz de Wim o invólucro funcional que ele quer evitar.
Randt enreda suas figuras em uma densa teia de referências intertextuais. Assim, o nome da professora de economia, com quem Wim entra na banheira numa festa de sua mãe, é justamente Joline Caulfield e, portanto, descendente literária do outsider enfurecido Holden Caulfields, de O apanhador no campo de centeio, de Salinger. Através de detalhes cuidadosamente colocados, o autor satiriza a vontade de seu narrador de se adaptar, tanto formalmente quanto em termos de conteúdo. Seja em sua vida profissional ou privada – Wim não oferece resistência. Somente quando ele vomita ele é “maximamente honesto consigo mesmo” e o vômito se torna um desejo materializado de romper o ego.
Muito mais do que as histórias adolescentes de jovens criativos hip
O novo livro altamente irônico de Randt, por cuja apresentação ele ganhou o Prêmio Ernst Willner, em Klagenfurt, lê-se como uma paródia da nossa sociedade afluente, tratada de forma cosmética, e dos zumbis, inseridos na mídia e vestidos em wash-and-wear, que ela produz. Seu livro não é – assim se espera – um romance de geração, mas muito mais do que histórias adolescentes de jovens criativos hip ou os romances “estilisticamente perfeitos”, de amadurecimento, mas não críticos, que os clientes de Wim escrevem.
Em tom seco e sintaxe simples, Randt associa platitudes publicitárias, frases de telenovela e descrições de condições factuais a uma linguagem cuja indiferença e apatia doem e reflete o estilo de vida supostamente perfeito de Wim e seus amigos.
Nevoa translúcida sobre CobyCounty é a imagem distópica de uma sociedade em que a suposta liberdade da geração Easy-Jet se transformou em uma servidão hiperrefletida e estetizada. O apocalipse ainda não se materializou e Wim ainda parece ser um perpetrador solitário no qual o autor combinou todos os ingredientes do adulto jovem moderno com uma possibilidade venenosa. A questão de em que momento essa ficção poderia se tornar realidade deixa o leitor apreensivo.
Resenha publicada pelo jornal Die Zeit
Traduzido do alemão por Sofia Froehlich Kohl (e-mail: sofia.fk@hotmail.com)
O trecho inicial do romance pode ser acessado aqui. O mesmo trecho em alemão encontra-se neste link.
Aqui um vídeo onde Leif Randt lê trechos, em alemão, do capitulo 20 de seu romance, em Nova York. Em seguida, é apresentada a tradução para o inglês.
Neste link, um artigo de Valéria Sabrina Pereira (USP), chamado Utopia ou distopia? A ansiedade e o vazio em Schimmernder Dunst über CobyCounty de Leif Randt.
