Dados Epidemiológicos

          No que se refere a COVID-19, grande parte da população parece ter compreendido a importância de que haja um surgimento lento de novos casos, ainda que por um período mais prolongado de tempo. Isso é fundamental para permitir aos serviços de saúde uma organização capaz de prover recursos materiais e humanos, de modo continuado, para atender a população. Diferentes ações vem sendo propostas para minimizar a velocidade do surgimento de novos casos: adoção de distanciamento social, a divulgação de informações sobre a importância da higienização das mãos, do domicílio, de utensílios, o uso de máscaras caseiras para reduzir a disseminação comunitária, enfim, comportamentos sociais coletivos que impactaram no cotidiano das pessoas. Após cerca de um mês da adoção dessas medidas, uma pergunta é recorrente:

“Estamos conseguindo achatar a curva?”.

          Sistematicamente, as autoridades sanitárias vêm fornecendo informações sobre a evolução da COVID-19, geradas a partir notificação de novos casos. Nesses relatórios, dados do Brasil, do estado do RS e da capital são demonstrados por meio de gráficos coloridos. Nosso olhar pode ser rapidamente atraído na expectativa de verificar a “inclinação da curva”. No entanto, precisamos atentar para alguns aspectos importantes na interpretação desse conjunto de informações. Tenhamos como exemplo uma apresentação do Boletim diário de casos em países selecionados, Brasil e RS, divulgado pelo Departamento de Economia e Estatística – DEE/SEPLAG, dia 09/04/2020 às 22h. O documento apresenta dados agrupados em subcapítulos:

(1) Cenário Mundial: o Brasil nesse contexto;

(2) Cenário Brasileiro: os Estados no contexto mundial a partir do 100º caso;

(3) Taxa de Letalidade no Brasil;

(4) Novo calendário para o RS Secretaria Estadual da Saúde;

(5) Os casos do RS;

(6) Os casos do RS: por município.

          Dentre os aspectos a serem considerados, para além do formato e inclinação da curva, estão as legendas do eixo x (horizontal) e do eixo Y (vertical) do gráfico. Faz-se necessário que os “rótulos” de cada eixo, que identificam cada tipo de dado, sejam observados.

           Atentemos ao exemplo da apresentação do referido Boletim. Na Figura 1 (abaixo), o eixo x retrata o número de dias após se atingir o 100º caso, nos diferentes cenários. Já o eixo Y mostra o total de casos confirmados (logaritmo) nesses mesmos cenários. Ao olharmos exclusivamente essa figura poderíamos imaginar que o cenário da pandemia no RS, por exemplo, apresenta uma velocidade de disseminação lenta, com uma curva atenuada, achatada.

Figura 1 – Casos confirmados (log) ao longo dos dias após confirmação diagnóstica do 100º caso.

Fonte: Departamento de Economia e Estatística RS, 2020

          No entanto, o próprio Boletim apresenta um dado adicional que assume relevância central: a partir de 23/03/20, o RS atingiu a 100 casos e o critério de testagem mudou (Figura 2). Até então, todos os casos considerados suspeitos e seus contatos próximos eram testados; a partir dessa data, somente casos graves (hospitalizados) e seus contatos passaram a ser testados. Essa decisão, ainda que tomada para otimizar os testes disponíveis, impacta diretamente sobre o formato da curva. Sabe-se que há um grande número de pessoas com sintomas leves e moderados, não hospitalizados e, portanto, não testados. Além deles, há os assintomáticos. Estima-se que cada pessoa portadora transmita o vírus para outras duas ou três. Sendo assim, considerando o enorme número de não testados, podemos estimar que o número de casos, expressos no eixo y da Figura 1, seja muitas vezes maior do que o documentado, o que modificaria a forma do gráfico substancialmente.

Figura 2: Calendário de número de casos confirmados de COVID-19 no RS.

Fonte: Departamento de Economia e Estatística RS, 2020

         Mas qual a relevância disso? Ainda que os serviços de saúde, neste momento, estejam absorvendo a enormes custos, a demanda adicional gerada pela pandemia, este grande número de portadores do vírus pode estar contribuindo para a disseminação rápida da doença. Isso fará com que, em breve, os serviços de saúde atinjam sua capacidade máxima de operação.

          Sublinha-se, portanto, a necessidade de acompanharmos as informações fornecidas pelos órgãos oficiais de saúde e interpretá-los com cautela e criticamente. Não é momento de relaxamento de ações de higiene e de distanciamento social. Aglomerações, mesmo que ao ar livre como as identificadas em praças da capital durante o final de semana de Páscoa, configuram-se como um risco severo à saúde da população.

Sendo assim, #FiqueemCasa, sempre que puder.