
Estamos vivendo um momento de inigualável incerteza e sofrimento, talvez um dos mais difíceis da história da humanidade. Em tempos de pandemia, em que um inimigo invisível adentrou o mundo do hospital, todas as energias são canalizadas para a proteção de vidas humanas. Quem está à frente dos processos assistenciais pode melhor do que ninguém sentir as consequências disso em suas vidas!
Mas, existem momentos na história da Enfermagem Pediátrica deste hospital-escola que merecem ser enaltecidos, pois objetivam modificar modelos de cuidado e impactam de modo significativo, na vida das crianças e de seus familiares, e dos próprios profissionais que fazem acontecer o cuidado. Em pleno contingenciamento da Covid – 19, vivenciamos a transição da Unidade de Enfermagem Pediátrica para o Serviço de Enfermagem Pediátrica.
O Serviço de Enfermagem Pediátrica (SEPED) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) tem como premissa norteadora a filosofia centrada no cuidado à saúde da criança – respeitando seu ciclo de desenvolvimento e crescimento, preservando a identidade do Ser criança e a família. Inclui a equipe de cuidadores no foco do cuidado.
Organiza-se em 5 unidades:
A UEP constitui a primeira linha de atendimento à criança que chega à instituição. Atende crianças de zero a 13 anos 11 meses e 29 dias de idade, cuja trajetória de cuidado é definida conforme a evolução de saúde de cada criança, em resposta às ações de assistência instituídas pela equipe assistencial da área.
Crianças chegam com diversos agravos:
Estas situações podem levar à parada cardiorrespiratória, e que impõem risco de vida iminente.
A UEP passou a integrar a “Linha de Cuidado para a Atenção Integral à Saúde de Crianças, Adolescentes e suas Famílias”, de forma a desenvolver além do cuidado à gravidade da doença, o cuidado com base na Prevenção. A prevenção inserida na “Linha de cuidado” pode ser entendida como:
uma estratégia de promoção da saúde, na medida em que previne e controla os agravos, por meio de condições de proteção e defesa de indivíduos e grupos que se encontram em situações de riscos e vulnerabilidades específicas. Atua no campo da identificação de doenças e agravos, do diagnóstico, tratamento e cuidados, sem prejuízo da assistência na readaptação e reabilitação (BRASIL; 2012, p. 13).
A UEP teve origem, em 1979, ano em que foi inaugurada a Pediatria do HCPA. A gestão era desenvolvida pelo Serviço de Enfermagem Materno-Infantil (SEMI), junto às outras unidades pediátricas.
Em 1985, passou a integrar um novo Serviço de Emergência. Em 1997, houve o desmembramento do SEMI, e as unidades pediátricas passaram a constituir o Serviço de Enfermagem Pediátrica (SEPED), porém a UEP permaneceu vinculada ao Serviço de Emergência. O fato de as unidades pediátricas passarem a ser congregadas por um Serviço, deu visibilidade à especificidade do mundo da criança com suas peculiaridades explicitadas no marco filosófico do modelo da Permanência Conjunta (ISSI; MOTTA, 2020).
Em 2019, com a criação de um Grupo de Trabalho denominado “Novos Rumos da Pediatria”, com apoio da administração central, em especial da Coordenação do Grupo de Enfermagem do HCPA, iniciaram-se estudos para a efetivação do retorno da UEP para a Pediatria. Em abril de 2020, houve sua reintegração ao Serviço de Enfermagem Pediátrica (SEPED) de forma que a Unidade de Enfermagem em Emergência Pediátrica passou a integrar este Serviço junto com as demais unidades pediátricas. Essa atualização já está no organograma do GENF do HCPA.

No dia 18 de Agosto de 2020, houve a Inauguração da nova área da UEP que passou a atender no prédio novo (Prédio B) do HCPA, num espaço reestruturado e dimensionado para a qualificação do cuidado à criança, adolescente e família, em sua missão de acolhimento e integralidade do cuidado.


Além de estarmos diante deste momento de mudanças organizacionais e administrativas, vivenciamos os desafios para enfrentamento ao novo coronavírus de 2019 (SARS-CoV-2) que está causando a doença denominada COVID-19.
Assim, a UEP e as Unidades de Internação Pediátricas, reorganizaram seu fluxo de atendimento:

O quadro clínico da COVID-19 em crianças pode ser leve, moderado, grave ou crítico (FMRP-USP; 2020). Embora a maioria das crianças apresente quadro leve a moderado é necessário que os serviços de saúde estejam preparados para atender crianças em todas as suas demandas de saúde.
O Fluxo atual de atendimento segue de acordo com a gravidade do quadro clínico, conforme descrito a seguir, com base no “Protocolo Assistencial – Manejo Covid – 19” (HCPA, 2020); “Protocolo de Manejo Clínico do Novo Coronavírus (Covid 19)” (BRASIL, 2020); e “Protocolo de Diagnóstico e Manejo de Pacientes Pediátricos com COVID-19” (FMRP-USP; 2020):
Sintomas de síndrome gripal aguda com provável etiologia viral, sem disfunção ventilatória e Sat O2 > 94%
Sintomas de síndrome gripal aguda e Sat O2 < 93% e/ou sinais de disfunção respiratória. Observar batimentos de asa de nariz, cianose, tiragem intercostal, desidratação e inapetência.
Os pacientes podem evoluir rapidamente para Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) ou falência respiratória e podem apresentar choque, encefalopatia, lesão miocárdica ou insuficiência cardíaca, alteração da coagulação, lesão renal aguda e disfunção de múltiplos órgãos.
Este cenário requer especial atenção às necessidades dos familiares cuidadores, por meio de abordagens educativas, voltadas ao momento existencial que se configura na prática.
Intervenções de enfermagem incluem procedimentos técnicos, cuidado humano à criança e seu familiar cuidador como elemento primordial da linha de cuidado; além de ações de educação em saúde para acolher, apoiar, orientar e explicar as especificidades de cada projeto terapêutico em particular e os procedimentos inerentes a crianças e seus acompanhantes (HILL; KNAFL; SANTACROCE, 2017).
Para a gestão de pessoas o SEPED utiliza o modelo do “cuidado baseado no relacionamento” (KOLOURUTIS; GEROLIN, 2012), com a convicção de que a transformação para uma práxis segura e qualificada perpassa a perspectiva das relações interpessoais, humanas, éticas e compassivas, na perspectiva de gerar comprometimento à filosofia e às premissas norteadoras do Serviço. Nesta época de pandemia, esforços redobrados têm sido empregados pelas lideranças para manter a equipe na maior harmonia possível diante das adversidades enfrentadas no dia-a-dia.
A equipe de enfermagem conta com técnicos de enfermagem, enfermeiros, professores e estudantes da UFRGS que desenvolvem atividades de integração docente assistencial.
Neste momento de transição, a UEP recebe o apoio e parceria da Unidade de Enfermagem em Emergência Adulto, bem como auxílio de todas as outras Chefias das unidades do SEPED para uma gestão compartilhada de recursos humanos, a fim de garantir a força de trabalho da Enfermagem. Tais iniciativas articulam-se em prol da segurança do paciente, família e da própria equipe, em defesa à linha de cuidado preconizada nessa área.
Acadêmicos de Enfermagem em estágio curricular obrigatório e não obrigatório desenvolvem atividades sob orientação de um docente da Escola de Enfermagem da UFRGS, e supervisão de um enfermeiro da Unidade. Estes têm a possibilidade de aprofundar conhecimentos técnicos e teóricos ao realizar diversas atividades de enfermagem, incluindo participação e acompanhamento no planejamento, organização, e execução da assistência de enfermagem, tendo como premissas o Processo de Enfermagem (diagnóstico de enfermagem e intervenções de enfermagem). Por tratar-se de uma unidade crítica com cuidados complexos, o acadêmico realiza cuidados diretos a pacientes graves.
Confira o depoimento do estudante de enfermagem Maicon Douglas Torely.
Destaca-se que o atendimento em situações de emergência requer recursos materiais e humanos especializados e capacitados para garantir a segurança da criança/adolescente e sua família. E, para isso o cuidado de enfermagem ofertado na UEP está alinhado às demais unidades de internação pediátrica.
Busca-se construir cotidianamente estratégias para estabelecer o cuidado integral, sensível e seguro às crianças, aos adolescentes e suas famílias neste contexto de pandemia.
A Enfermagem Pediátrica do HCPA segue a Linha de Cuidado para a Atenção Integral à Saúde de Crianças, Adolescentes e suas Famílias!
REFERÊNCIAS:
BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programadas Estratégicas. Linha de cuidado para atenção integral de crianças, adolescentes e suas famílias em situação de violências: orientações para gestores e profissionais da saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2012.
BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Protocolo de Manejo Clínico do Novo Coronavírus (Covid – 19) Na Atenção Primária à Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2020.
DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA DE EMERGÊNCIA; CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM; COLÉGIO BRASILEIRO DE ENFERMAGEM EM EMERGÊNCIA. Recomendações para o Atendimento de Pacientes Suspeitos ou Confirmados Covid-19, pelas Equipes de Enfermagem de Serviços de Emergência (Pré-Hospitalar Fixo e Intra-hospitalar). Belo Horizonte, 2020.
HILL, C; KNAFL, KA; SANTACROCE, SJ. Family-centered care from the perspective of parents of children cared for in a Pediatric Intensive Care Unit: an integrative review. J Pediatr Nurs. 2017. doi: https://doi.org/10.1016/j.pedn.2017.11.007
HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE. Protocolo Assistencial – Manejo Covid – 19: Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Porto Alegre, 2020.
HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO; INSTITUTO DA CRIANÇA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FACULDADE DE MEDICINA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Protocolo de Diagnóstico e Manejo de Pacientes Pediátricos com COVID-19. São Paulo, 2020.
HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Manejo Novo Coronavírus (Covid – 19): Hospital Israelita Albert Einstein. São Paulo, 2020.
ISSI; Helena Becker; MOTTA; Maria da Graça Corso. Cuidado e temporalidade: a enfermagem pediátrica em Sistema de Permanência Conjunta de um hospital-escola. Rev Gaúcha Enferm. 2020; 41(esp):e201901
YANG, Chao; LI, Changchun; WANG, Shan. Clinical strategies for treating pediatric cancer during the outbreak of 2019 novel coronavirus infection. Pediatric Blood & Cancer. The American Society of Pediatric Hematology/Oncology, 2020. Periodicals, Inc. 1 of 2 https://doi.org/10.1002/pbc.28248
KOLOURUTIS, Mary; GEROLIN, Fátima Silvana Furtado. Cuidado Baseado no Relacionamento: um modelo para a transformação da prática. São Paulo, Ed. Atheneu, 2012.
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