Exames saúde da mulher pandemia

Publicado em 31/03/2021

        Sabemos hoje que a população brasileira é composta majoritariamente pelo sexo feminino, segundo dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) em 2019, com um resultado de 51,8% mulheres e 48,2% homens. 

        A Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher (BRASIL, 2004) tem destacado historicamente que as mulheres sempre tiveram direitos desiguais, quando comparadas aos homens. Esse fator histórico reflete em um forte impacto nas condições de saúde das mulheres, já que a mulher tem seus próprios padrões de sofrimento, adoecimento e importantes avanços em todas as faixas etárias femininas, ressaltando as especificidades de cada faixa etária e dos diferentes grupos populacionais. 

        É relevante considerar as particularidades entre a própria população feminina, com suas vulnerabilidades, por exemplo: negras, indígenas, as que estão em situação de prisão e de rua, as lésbicas, aquelas que se encontram na adolescência, no climatério e na terceira idade, e correlacionar à situação ginecológica, em especial aos cânceres do colo do útero e da mama.

A partir dessa breve reflexão, esse texto vem com o intuito de demonstrar que mesmo com a pandemia da COVID-19 que foi estabelecida em março de 2020, é sim necessário e muito importante procurar estar em dia com seus exames de rotina.  Segundo o INCA (Instituto Nacional de Câncer) no Brasil, excluindo os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama também é o mais incidente em mulheres de todas as regiões. No ano de 2020, foram estimados 66.280 novos casos, ou seja, essa estimativa representa uma taxa de incidência de 43,74 casos por 100.000 mulheres. 

        O câncer de mama, do mesmo modo que outras neoplasias malignas, é resultado de uma proliferação incontrolável de células anormais, que se manifestam a partir de alterações genéticas, podendo ser alterações hereditárias ou adquiridas por exposição a fatores ambientais ou fisiológicos. Estas alterações genéticas podem provocar modificações no crescimento celular ou na morte programada da célula, levando ao surgimento do tumor (INCA, 2021). 

         Considerado um problema de saúde pública, o câncer de mama é composto por um grupo diverso de doenças, com comportamentos desiguais. A heterogeneidade do câncer de mama se manifesta pelas distintas apresentações clínicas e morfológicas, tendo como consequência uma variação nas respostas terapêuticas. O processo de evolução das alterações nas células até que se torne o ‘’famoso’’ câncer de mama é em geral lento, podendo levar vários anos para que uma célula prolifere e dê origem a um tumor palpável (BARBOSA, 2020).

        O câncer de mama não tem uma única causa, ele tem alguns fatores que proporcionam um aumento nas chances de seu desenvolvimento, tendo o fator principal a idade, já que cerca de 4 em 5 casos ocorrem após os 50 anos (INCA, 2020). 

        Existem outros fatores que também irão auxiliar no desenvolvimento do câncer mamário, sendo eles divididos em fatores modificáveis, genéticos ou hereditários e os relacionados à história reprodutiva e hormonal (INCA, 2020; SOUZA et al, 2017).

Fatores modificáveis
Fatores genéticos
Fatores relacionados à história reprodutiva e hormonal

       Devemos lembrar também que não ter amamentado não é um fator de risco para o câncer de mama. Porém, amamentar o máximo de tempo possível é um fator de proteção para a mulher contra o câncer. Logo, não amamentar resulta na perda de um fator de proteção (SOUZA et al, 2017).

       De acordo  o “Documento de Consenso do Câncer de Mama” de 2004, são definidos como grupos populacionais com risco muito elevado para o desenvolvimento do câncer de mama:

        Esse grupo representa cerca de 1% da população, devendo ser acompanhado com um olhar diferenciado, com indicação para rastreamento anual. E deve iniciar os exames de rotina aos 35 anos, com o exame clínico da mamas e a mamografia anual (BRASIL, 2013).

        O exame de mamografia é uma estratégia de rastreamento que tem sido adotada em contextos onde a incidência e a mortalidade por câncer de mama são elevadas, auxiliando na saúde pública. Hoje no Brasil a mamografia é ofertada às mulheres entre 50 e 69 anos, a cada dois anos (BRASIL, 2013).

        Com cobertura igual ou superior a 70% da população-alvo realizando o exame de mamografia, é possível reduzir a mortalidade por câncer de mama em 15% a 23% (USPSTF, 2009b). 

        Mulheres com idade entre 40 a 49 anos, a recomendação hoje no Brasil  é o exame clínico das mamas anual (ECM), caso nesse ECM seja identificado alguma alteração essa mulher será encaminhada para a realização da mamografia diagnóstica  (BRASIL, 2013). 

Onde ir para realizar meus exames de rotina?

        A mulher deve procurar a Unidade de Atenção Básica mais próxima da sua casa e solicitar uma consulta de Enfermagem. A enfermeira da unidade poderá realizar o ECM e se você estiver na idade para realizar o exame de mamografia será encaminhada para a realização. É muito importante que a mulher não pare por aqui e que ela pegue o resultado e converse com a Enfermeira para entender o que significa seu resultado. 

Outro exame de rotina muito importante na vida das mulheres é a coleta de citopatológico, para a investigação do câncer de colo de útero.

        O câncer de colo de útero tem uma incidência de aproximadamente 570 mil novos casos por ano no mundo inteiro, sendo o quarto tipo de câncer mais comum entre as mulheres. Detém a responsabilidade de 311 mil óbitos por ano, sendo a quarta causa mais frequente de morte por câncer em mulheres (INCA, 2021). 

        Assim como o câncer de mama o câncer de colo de útero é caracterizado por uma proliferação anormal e desordenada de células, no colo de útero essa proliferação ocorre no epitélio de revestimento do órgão. Existem duas principais categorias de carcinomas invasores do colo do útero, dependendo da origem do epitélio comprometido: o carcinoma epidermóide, é o tipo mais comum e acomete o epitélio escamoso (representa cerca de 90% dos casos), e o adenocarcinoma, tipo mais raro e que acomete o epitélio glandular (cerca de 10% dos casos) (INCA, 2021).

        Diferente do câncer de mama, o câncer de colo de útero não tem ligação genética, ele está diretamente ligado ao vírus HPV (papilomavírus humano) que é transmitido por meio do contato sexual sem proteção. A infecção pelo HPV em muitos casos acaba sendo assintomática, ou seja, a pessoa infectada pelo vírus não tem nenhum sintoma. Quando ocorrem sintomas eles podem incluir prurido, hiperemia variável e descamação local, sendo que o sintoma mais comum é o surgimento de lesões únicas ou múltiplas, granulares e verrugosas (ABREU et al, 2018).

        No Brasil já se tem no SUS desde 2014 a vacina contra o HPV (HPV sorotipos 6, 11,16 e 18), sendo o HPV 16 e 18, os maiores responsáveis pelo câncer de colo de útero. A vacina está disponível para meninas a partir dos 9 anos até os seus 13 anos (BRASIL, 2014). 

        Existem alguns fatores que aumentam o risco de infecção, esses fatores são (ABREU et al, 2018):

          A idade de rastreio para o câncer de colo de útero tem início aos 25 anos de idade para as mulheres que já tiveram ou têm atividade sexual e se prolonga até os 64 anos. A periodicidade no rastreamento se dá a cada três anos, após dois exames normais consecutivos com intervalo de um ano. No entanto, mulheres com risco (HIV positivo, imunodeprimidos, com lesões prévias de alto risco) devem realizar o exame anualmente e mulheres histerectomizadas por outras razões que não o câncer ginecológico, não precisam realizar o exame de rastreamento (INCA, 2016).

Referências: 

ABREU, Mery Natali Silva et al. Conhecimento e percepção sobre o HPV na população com mais de 18 anos da cidade de Ipatinga, MG, Brasil. Ciência & saúde coletiva. 23 (3) Mar. 2018.  Doi:  https://doi.org/10.1590/1413-81232018233.00102016. 

BARBOSA, Michael Gabriel Agustinho et al. Alterações citológicas e marcadores tumorais específicos para o câncer de mama. Braz. J. of Develop.Curitiba, v.6, n.8,p.59977-59992 aug. 2020.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher: princípios e diretrizes. Brasília, 2004.

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderno da Atenção Básica: Controle dos cânceres de colo de útero e mama. Brasília – DF. 2013. 

BRASIL. Ministério da Saúde. INFORME TÉCNICO SOBRE A VACINA PAPILOMAVÍRUS HUMANO (HPV) NA ATENÇÃO BÁSICA. Brasília, fevereiro de 2014. 

IBGE. Conheça o Brasil – População quantidade de homens e mulheres. Disponível em <https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18320-quantidade-de-homens-e-mulheres.html>. Acesso em 05 de mar. 2021. 

INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER (INCA/MS) PRÓ-ONCO. Câncer da mama, Disponível em <https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-mama>. Acesso em: 3 mar. 2021.

Instituto Nacional do Câncer (INCA). Conceito e Magnitude do câncer de mama. Disponível em <https://www.inca.gov.br/controle-do-cancer-de-mama/conceito-e-magnitude>. Acesso em 05 mar. 2021. 

Instituto Nacional do Câncer (INCA). Conceito e Magnitude do câncer de colo de útero. Disponível em <https://www.inca.gov.br/controle-do-cancer-do-colo-do-utero/conceito-e-magnitude>. Acesso em 06 mar. 2021. 

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Instituto Nacional de Câncer. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero. 2ª Ed. Rio de Janeiro. 2016.

SOUZA, Nazareth Hermínia Araújo et al. CÂNCER DE MAMA EM MULHERES JOVENS: ESTUDO EPIDEMIOLÓGICO NO NORDESTE BRASILEIRO. SANARE, Sobral – V.16, n.02, p.60-67, Jul./Dez. – 2017.

Como citar:

DAVI, R.L; YAMAMOTO, A.O; CRUZ, R.S.S; PEDRON, C.D. A importância da realização dos exames de rotina para a saúde da mulher em tempos de pandemia. (online). Blog LEVi@enf2021(viewed 31Março2021) Avaliable from: https://www.ufrgs.br/levi/exames-saude-da-mulher-pandemia/#page-content