
Publicado em 07/05/2021
Tudo começou, quando nos foi solicitada a primeira vaga para paciente pediátrico com suspeita de COVID-19 em nossa unidade de terapia intensiva pediátrica. Naquele momento, muitas dúvidas e questionamentos pairavam sobre o ambiente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP):
Como assim? Essa doença “pega” em criança?
Trabalho em um Hospital referência no Sul do Brasil para atendimento pediátrico e não seria diferente para o atendimento da COVID-19, sendo um serviço de excelência e que tem além de espaço físico, um grupo de profissionais altamente qualificados. Nosso primeiro paciente com suspeita da doença foi um menino de 9 anos, admitido em um box de isolamento, onde tínhamos os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) mas não tínhamos treinado a paramentação e a desparamentação, não sabíamos ao certo como coletar os swabs, sem contar o medo do contágio da doença. E ficamos aliviados quando o resultado do exame deste paciente foi negativo.
Com o entendimento que a pandemia também poderia ser uma realidade na população pediátrica e que no mínimo teríamos que estar preparados para esta realidade, as chefias médica e de enfermagem da UTIP, apoiados pela equipe assistencial da UTIP, realizaram a definição da área física para separar pacientes com suspeita ou confirmados dos demais, formularam protocolos assistenciais específicos baseados nas poucas evidências científicas e nas experiências dos países que estavam passando pela pandemia. Então, definidas as áreas para pacientes COVID-19, foram realizadas capacitações para paramentação e desparamentação dos EPIs, com apoio de muitos grupos como Comissão de Controle de Infeção Hospitalar (CCIH), psicologia e serviço médico, para entendermos o porquê de não usar tal máscara, porque de não usar tal avental, e os pacientes começaram a chegar.
E, é incrível que ainda hoje, depois de 1 ano do primeiro caso suspeito ainda descobrimos coisas que precisamos ajustar, pesquisar e entender.
O paciente que quero trazer neste relato trata-se de um menino de 9 anos, que aqui vamos chamar de Carlos e sua mãe de Maria.
Carlos é autista, tem diagnósticos prévios de epilepsia e transtorno opositivo-desafiador, com histórico de várias internações anteriores à chegada na UTIP, inclusive tinha tido alta há poucos dia da unidade de internação do nosso Hospital. Em casa começou a apresentar febre e redução de força nos membros inferiores, chegando a ter quedas ao solo após tentativas frustradas de caminhar.
Maria levou o filho a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) que acabou transferindo a criança para o Hospital da sua cidade, devido a piora clínica e por ter vínculo com o nosso Hospital foi transferido direto para a UTIP, pois tinha um esforço importante para respirar e apresentava saturação de oxigênio baixa com sinais de hipoxemia.
Na chegada a UTIP Carlos ficou na área destinada aos pacientes suspeitos da COVID-19, também ficamos sabendo que havia sido coletado o exame para o coronavírus no Hospital de origem e encaminhado para o LACEN-RS. Como o resultado demorava alguns dias, foi optado por coletarmos um novo material e processarmos no nosso próprio laboratório. No final daquele mesmo dia recebemos o resultado negativo e deslocamos Carlos para a área destinada a pacientes não COVID-19.
O quadro clínico de Carlos piorava a cada dia, a ventilação mecânica por si só já causa danos, mas aquela infecção pulmonar parecia não responder aos tratamentos usuais. Em torno de 4 dias após a criança sair da área COVID-19 da UTIP, a Mãe chega com o resultado positivo para o coronavírus feito pelo LACEN-RS. E agora? Foram dias atendendo sem a paramentação específica, sem restrição até mesmo para realizar aspiração do tubo endotraqueal em sistema aberto, enfim, exposição dos profissionais de saúde e da própria Maria que retornava para sua casa e convivia com seus familiares.
Após este momento vários funcionários foram testados, mesmo assintomáticos e todos resultados deram negativos.
De volta a área COVID-19 a criança não apresentava melhora, era pronado constantemente, a febre nunca cedia, chegou a utilizar cloroquina por alguns dias, mas nada parecia fazer efeito.
A Páscoa estava chegando, fazia dias que Maria não saia da beira do leito do filho, em casa tinham duas filhas e uma neta “abandonadas”. A resistência de sair do lado do filho foi grande mas após muita conversa com a equipe e com muita insistência da enfermagem Maria decidiu ir passar o final de semana em casa.
Depois de uma longa conversa ao pé do ouvido do filho, Maria beijou-lhe o rosto, desparamentou-se, lavou as mãos, colocou nova máscara e saiu da UTIP com a dúvida de que o filho estaria ali quando retornasse.
Precisamos fazer uma pausa na história, para discutirmos um ponto muito importante no cuidado à criança, a permanência do familiar.
E agora? Deixar ou não o familiar de uma criança com suspeita e, pior com COVID-19 confirmado permanecer ao seu lado?
Quem trabalha diretamente com crianças doentes sabe que é impossível deixar uma criança sozinha, principalmente se ele não tiver nenhuma restrição.
Quem será responsável se a criança cair do berço?
Temos número de pessoal suficiente para garantir a segurança das crianças nas nossas unidades?
Como separar uma mãe do seu filho num momento de angústia e medo para as duas partes?
Você deixaria seu filho sozinho com pessoas desconhecidas?
Aceitaria informações por telefone e chamadas de vídeo?
Todas essas dúvidas nos atormentaram por dias, nosso grupo de enfermeiras foi contra a retirada do familiar e a enfermagem assumiu o compromisso de orientar, alocar e acompanhar estes familiares. Com isso, foram feitas novas rotinas, como por exemplo, local para o familiar realizar suas refeições separado dos demais acompanhantes e o uso de avental e máscara durante todo o tempo que permanecesse ao lado da criança. Ensinamos paramentação e desparamentação, a higienização das mãos e, principalmente, a restrição de ficar circulando pelo Hospital desnecessariamente.
E foi no domingo de Páscoa que Carlos começou a melhorar, a febre reduziu e desapareceu, os parâmetros ventilatórios foram reduzidos com sucesso, a saturação de oxigênio era satisfatória, as imagens do raio-x de tórax estavam “menos brancas” e dez dias após estávamos prontos para extubá-lo. Com muito medo, pois não tínhamos tido esta experiência ainda, mas prontos e felizes.
Foi um sucesso, e graças ao intenso trabalho em equipe após a extubação Carlos só apresentou melhoras. Ver o sorriso no rosto de Maria não teve preço, ver que você não perdeu para esse vírus mortal não teve preço e ver Carlos dando alta do Hospital abraçado a sua Mãe é uma imagem que ficará em nossas memórias.
Mas agora isso tudo é história e com um final feliz…
Acredito que você ficou com algumas curiosidades, tipo: Como ocorreu um resultado do exame diferente entre o LACEN e o Hospital referência de COVID-19? ou O que será que a Mãe falou no ouvido de Carlos antes de ir para casa do feriado de Páscoa? ou A mãe foi coletada para saber se tinha COVID-19 em algum momento da internação do filho?
Começaremos pelo resultado diferente dos exames, o que aconteceu? Ocorreu o que chamamos de evento adverso, do tipo incidente com dano; pois foram trocados os resultados entre o do paciente e de um funcionário do hospital. O evento foi encontrado pela Gerência de Risco do Hospital que trabalha com a Segurança dos Pacientes. A Gerência de Risco, após as notificações necessárias, realizou um trabalho com todos os setores envolvidos e modificou o processo interno de recebimento e de retorno dos resultados dos exames, os novos protocolos foram criados e listas de verificação (dupla checagem) foram estipuladas dentro do laboratório de exames.
Mas o que a Mãe falou para Carlos ao pé do ouvido? Ela nos contou…
“Fui à beira da cama dele e falei: Meu filho se for a tua vontade partir, vai tranquilo. Vamos sentir, mas você não ficará sofrendo. Mas se for a tua vontade ficar entre nós, luta! Não dormi aquela noite com medo de que me ligassem com uma notícia ruim.”
Durante, os 35 dias de internação Maria foi informada de que só coletaria o exame para o coronavírus se apresentasse sintomas da doença e que não poderia acompanhar o filho nestas condições. Então, quem dera que todas as Mães fossem tão cuidadosas e disciplinadas quanto Maria, seguindo todas as nossas orientações, auxiliou outros familiares que estavam na mesma área, auxiliou em todos os cuidados com o filho e nunca apresentou nenhum sintoma respiratório, inclusive nunca se queixou de nada, acima de tudo por estar ali. Deixamos registrado aqui que após alguns dias da alta hospitalar Maria coletou o COVID-19 pelo seu município e o resultado veio negativo.
O que se aprende com toda essa história?
Acreditávamos que estávamos preparados para ver pessoas morrerem em nossos leitos, porque isso acontece constantemente dentro de uma UTI, mas na verdade não estamos e nunca estaremos prontos para ver pessoas morrerem de uma maneira precoce, sem explicação e sozinhas. Isso tudo traz a nossa sensação de finitude, sendo impossível não ser empático e pensar que pode ser com você ou algum familiar amado.
Nos mostra também, que mesmo com muito conhecimento técnico-científico e com todas as tecnologias disponíveis não podemos garantir a sobrevivência de outra pessoa, existe uma força maior que nos tira este poder.
Nos ensina a lição de sermos humanos, de mantermos as relações afetivas e de nunca separar uma mãe de um filho, porque temos a certeza de que uma mãe prefere o risco do contágio a abandonar o seu filho.
E o melhor, com esta experiência mostramos que é viável e possível manter o familiar junto na internação sem ele se contaminar.

Sabrina dos Santos Pinheiro. Enfermeira Assistencial UTIP/ SEPED/HCPA. Enfermeira Titulada Especialista em Terapia Intensiva Pediátrica/ABENTI. Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente-FAMED/UFRGS. Membro do Departamento de Enfermagem AMIB 20/21 e da ABENEURO 21/22. Sócia proprietária Nursesped: Consultoria e Educação em Enfermagem Ltda.
Como citar: Pinheiro. S. S. PACIENTE PEDIÁTRICO COM COVID-19. (online). Blog LEVi@enf2021(viewed 07mai2021). Avaliable from: https://www.ufrgs.br/levi/paciente-pediatrico-com-covid-19/
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