Profa. Dra. Agnes Olschowsky

Quando o “vírus” chega às ruas: o novo coronavírus e as pessoas em situação de rua

       O ano de 2020 é marcado como diferente dos demais, já em seus primeiros meses, pela população mundial vivenciar uma crise de saúde pública, advinda pela pandemia do novo Coronavírus, responsável pela doença COVID-19 (Coronavirus Disease 19). Uma doença caracterizada por sintomas respiratórios semelhantes à gripe, como tosse, febre e dificuldade para respirar. Pressupõe-se esse novo vírus tenha se originado em um mercado úmido/vivo em Wuhan, na China, ainda em 2019. Este país foi o primeiro a identificar e conviver com problemas relacionados ao vírus, que por ser facilmente disseminado e altamente transmissível, provocou intervenções como a diminuição da mobilidade e o isolamento populacional, medidas consideradas imprescindíveis no combate e enfrentamento da contaminação e alta letalidade mundial, principalmente, para populações em condições de risco e vulnerabilidade. 1

      Ressalta-se que o termo “grupos vulneráveis” é utilizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para se referir a pessoas ou grupos que são expostos às situações e ambientes de vulnerabilidade. Dependendo do contexto local, algumas pessoas podem correr um risco significativamente maior que outras, sendo relacionados aos seus contextos sociais e econômicos, ao apoio social e as suas condições de vida, incluindo, principalmente nesse momento em que vivenciamos,  o acesso reduzido aos serviços de saúde, de assistência social, aos serviços de emergência, a maior probabilidade de morte prematura. 2

Logo, trabalhar com o conceito de vulnerabilidade proporciona mudanças nas práticas de cuidado, sendo substancial pensá-las como sociais e históricas, necessitando a articulação de diferentes setores da sociedade e atuação transdisciplinar. 3

      Nesse sentido, a chegada do “Vírus” na rua, ou mais particularmente, junto as pessoas em situação de rua, exige dos profissionais, dos gestores da saúde, dos municípios, dos estados e da nação, ou seja, da sociedade em geral, acolher, refletir e agir em diferentes cenários. Mas, é necessário reconhecer a rua, enquanto território de vida, espaço produtor de saúde e cuidado, demostrando na atualidade ser preponderante que nossas ações cuidadas devam olhar/estar com este grupo vulnerável.

       Assim como no Brasil, o novo Coronavírus também é um desafio e realidade nos demais países latino-americanos, como Peru, Chile e Argentina. A partir de experiências como a da China, Itália e Espanha intensamente acometidos pela doença, tem-se orientado medidas para prevenção e controle da doença baseadas prioritariamente na higienização frequente e no isolamento social. Palavras de ordem como: “fica em casa” e “lave bem as mãos” são impulsionadas pelas autoridades de saúde e pelas mídias diariamente. No entanto, para quem conhece, observa e se solidariza, há uma população em especial que não consegue seguir isso, pois não tem meios para realizar essas ações de prevenção, são as pessoas em situação de rua, visto que, essas não têm moradia convencional e possuem dificuldades no acesso a higiene pessoal.

       As pessoas em situação de rua já são consideradas vulneráveis e vítimas da desigualdade social através de condições como a pobreza, desemprego, rede de apoio fragilizada, problemas de saúde como maior exposição ao HIV, tuberculose e uso abusivo de drogas. Além disso, o “povo da rua” relata o constante descaso do estado em promover políticas públicas para o acesso a moradia, assistência social e serviços de saúde.4

Diante de um cenário de precarização já existente, a pandemia do novo coronavírus vem a acrescentar maiores problemas e riscos, pois como proteger uma população que normalmente já não é protegida pelo estado? Outra questão, refere-se que essa população trabalha e se alimenta na rua, onde “ficar em casa”, tem levados seus apoiadores do cotidiano a diminuírem sua circulação, ou seja, refletindo nas ações que buscam um cuidados às pessoas em situação de rua seja por doação de alimentos, material de higiene, cobertores, possibilidades para o trabalho informal na rua, entre outros.

       Do mesmo modo, é relevante reconhecer que as pessoas em situação de rua estão associadas a imagens estigmatizadas e são abandonadas pela sociedade, pois representam “perigo”, “doença” e “vagabundagem” e, para tal enfrentamento, é importante reconhecer que sua realidade e sua identidade são permeadas por um contexto de marginalização, os tornando um grupo de maior vulnerabilidade diante da pandemia que vivemos.

       Neste momento, o fortalecimento das redes de solidariedade é fundamental e se trata de uma responsabilidade social. Observa-se que a sociedade, principalmente não governamental, vem se organizando em estratégias de doação de alimentos e materiais de higiene pessoal em campanhas. Além disso, há organização de coletivos incluindo representantes das pessoas em situação de rua que pedem o auxílio de apoiadores para suportar o tempo de crise. Porém, a proteção deste grupo em situação vulnerável é um desafio no cenário brasileiro, necessitando de esforços do estado, olhares de profissionais e serviços intersetoriais, algumas dessas medidas são expostas em matérias pela mídia como já sendo realizadas em algumas regiões do país, como: garantia de higienização através de estruturas provisórias de pias e chuveiros na cidade, aproveitamento de estruturas já existentes como escolas e ginásios para abrigar toda a população, criação de novos abrigos, organização destes abrigos e estruturas para não disseminação do vírus entre os que contraíram com os demais. 5

        Tendo por base a experiência em pesquisa e interlocução com grupos e pessoas em situação de rua é essencial a escuta de suas necessidades e quais são as mudanças em seus modos de vida e cotidianos durante a pandemia. Muito embora, reuniões presenciais devam ser evitadas para não disseminação do vírus, é essencial que se pense um modo de comunicação com os representantes desta população, diálogo com o movimento social, para que as ações não sejam realizadas de forma verticalizada, com intuito de compreensão das realidades do “povo da rua” e promoção de medidas que as contemple.

       Além disso, profissionais da saúde e assistência somado ao acolhimento nos serviços, realização de diagnóstico, notificação e tratamento nos casos identificados, deve ser sensibilizado a uma real postura de acolhida, que precisa desprender-se de estigmas e preconceitos, disseminando informações sobre novo coronavírus e como preveni-lo, pensando em conjunto com a pessoas em situação de rua, de que forma esta prevenção e controle  podem ser adaptadas as suas diferenças e modos de vida.

       As pessoas em situação de rua vivem a rua, a pobreza e desassistência, e para o enfrentamento do vírus e sua disseminação é necessária à atuação do estado e profissionais na rua. Ações como a identificação de parceiros na sociedade civil, estabelecimento de canais de diálogo e planejamento conjunto, dando visibilidade a esse grupo, em um olhar mais singularizado, divulgando informações, mapeando ofertas e acesso de cuidado no enfrentamento da pandemia.

Ressaltamos que os profissionais da saúde e a universidade são um importante veículo de diálogo com a sociedade, necessitando promover espaços de escuta, participação, formação e avaliação do sistema de saúde e cuidado, permitindo que as demandas sociais sejam ouvidas e compreendidas nas suas complexidades. Para Enfermagem, trata-se de um avanço entender o cuidado na relação de sujeitos-cuidadores, a partir das realidades de vida e de contextos socioculturais. 6

Referências:

  1. Xiang Y, Yang Y, Wen L, Zhang L, Zhang Q, Cheung T, Ng CH. Timely mental health care for the 2019 novel coronavirus outbreak is urgently needed. Comment. Published Online, February 4, 2020.
  2. Organización Mundial de la Salud. Salud mental y desarrollo: poniendo el objetivo en las personas con problemas de salud mental como un grupo vulnerable.
  3. Santos I.; Silva A. Vulnerability of hiv/aids in patients with mental disorders: an integrative review. Online Brazilian Journal of Nursing, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, p.393-410, 2013.
  4. Silva AB. Narrativas de cuidado de “usuários de drogas”: Um estudo etnográfico na rua e suas territorialidades. Tese de doutorado, Programa de Pós-graduação em Enfermagem. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 2018.
  5. Lima JD, Charleaux JP. Quais medidas para população de rua na pandemia. Nexo jornal expresso. Tema sociedade. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/03/28/Quais-as-medidas-para-a-popula%C3%A7%C3%A3o-de-rua-na-pandemia
  6. Olschowsky ET all. O processo de cuidado de pessoas e grupos em situação de vulnerabilidade no campo da saúde mental na perspectiva da intersetorialidade. Programa de Pós-graduação em Enfermagem. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 2019.