Profa. Dra. Mariur Beghetto

        O risco individual, ou seja, aquele que cada um de nós tem para desenvolver COVID-19 varia entre zero (nenhuma probabilidade) e 100% (certeza).

Mas o que determina essa variação?

       O risco oscila de acordo com características individuais e, principalmente, à intensidade e tempo de exposição ao vírus.  

       De fato, a exposição ao vírus (SARS-COV-2) é um requisito para a doença, uma causa necessária. Sem esta exposição, nossa probabilidade de doença é zero. Tanto mais aumentamos a exposição ao vírus, mais aumentamos nossa probabilidade. Neste sentido, já aprendemos que a prevenção da doença e o controle da pandemia passam pelo comprometimento de cada um e pela adesão às medidas de prevenção:

  • higiene constante e cuidadosa das mãos,
  • manter-se em casa sempre que possível,
  • longe de aglomerações 
  • em ambientes limpos e arejados, preferencialmente sem ar condicionado,
  • uso de máscaras em presença de outras pessoas,
  • não compartilhar utensílios como talheres, copos, bomba de chimarrão, dentre outras.

         Com o emprego dessas medidas estamos tentando evitar adquirir o vírus e, na eventualidade de o possuirmos, de propagá-lo. Assim, a adoção consciente dessas medidas configura-se como contribuição fundamental que cada um pode dar, a fim de que se mantenha a COVID-19 sob controle.

         

Entretanto, quando iniciativas individuais são insuficientes, faz-se necessária a intervenção do estado de modo a fornecer diretrizes de condutas coletivas.

        Devemos lembrar que a vida em sociedade é repleta de interrelações complexas, envolvendo diferentes atores sociais, em uma cadeia de eventos subsequentes, onde uma ação isolada pode impactar em muitas outras vidas. Assim como um castelo de cartas, a articulação entre as partes é fundamental para a estrutura global, o que é, muitas vezes, desapercebido por nós. Neste sentido, apesar de as medidas de distanciamento social terem sua efetividade demonstrada sobre o controle de doenças transmissíveis, resultam em impacto econômico enorme, diminuindo, inclusive, a arrecadação pública que é responsável pelo financiamento de medidas preventivas, de controle e do tratamento da COVID-19.

         Portanto, também para que a pandemia possa ser combatida, o distanciamento social deve ser comedido, dosado, sob pena de que a arrecadação pública seja comprometida e inviabilize qualquer ação governamental.

         Neste contexto, o governo do RS implementou o “Modelo de Distanciamento Controlado do RS”. Trata-se de um plano estruturado que propõe um conjunto de medidas, de modo a aumentar, ou reduzir, a proporção de pessoas que estejam simultaneamente em distanciamento social; um modelo matemático (um escore) atribui pesos (pontos) para 11 ítens (indicadores) de saúde e econômicos, que são aplicados nas cidades gaúchas, agrupadas em 20 macrorregiões. Cada um desses itens tem pesos diferentes e sobre a nota final.

         Há uma avaliação semanal (aos sábados) onde cada indicador, bem como a pontuação final recebe um “rótulo”, expresso por bandeiras coloridas:

Amarela (risco baixo)

Laranja (risco médio)

Vermelha (risco alto)

Preta (risco altíssimo)

         Elas sumarizam a vulnerabilidade naquele item, ou em geral, naquele momento, para aquela macrorregião. A partir daí, a sociedade deve adotar medidas mais ou menos restritivas em termos de circulação de pessoas, refletindo-se sobre a proporção da população em distanciamento social e, consequentemente, sobre a atividade econômica.

O escore é composto por dois grandes agrupamentos de indicadores, cada um com peso de 50% da nota final, que determinará a cor da bandeira: propagação do vírus (sete indicadores) e capacidade de atendimento (quatro indicadores).

       A propagação do vírus envolve os indicadores que medem a:

  1. velocidade de propagação do vírus,
  2. o estágio da evolução da doença e
  3. a incidência de casos novos.

        A capacidade de atendimento, por sua vez, considera:

  1. a capacidade de atendimento, propriamente dita, e
  2. a mudança na capacidade do atendimento.

         Os itens que compõem cada indicador, os pesos atribuídos e as faixas de classificação podem ser consultados no documento de Metodologia de Distanciamento Controlado Rio Grande do Sul, disponível em: https://distanciamentocontrolado.rs.gov.br/

         Cada um desses 11 indicadores recebe uma pontuação, que, de acordo com uma faixa de classificação, gera uma equivalência em cor de bandeira:

  • amarela = 0
  • laranja = 1
  • vermelha = 2
  • preta = 3

         A bandeira final será o reflexo das bandeiras de cada indicador e do quanto cada um pesa no valor do escore final. Resumidamente, a média ponderada entre as bandeiras de cada um dos indicadores determina a cor da bandeira final.

       Assim, quando a resultante é = 0, a bandeira final será amarela; será laranja caso a média seja = 1; vermelha em total = 2 e preta se a resultante for = 3.

        Adicionalmente, sempre que uma região mantiver por 14 dias até cinco casos, a bandeira é reduzida em um nível.

         O caráter dinâmico da pandemia provocou reavaliação do escore; ele passou por ajuste, incluindo a adaptação dos pontos de corte para indicadores e estabelecimento de gatilhos que permitam a antecipação necessária para o planejamento de leitos hospitalares, especialmente em UTIs. Com essa correção, mais facilmente pode-se atingir a bandeiras vermelha e preta. Consequentemente, medidas mais restritivas (e protetivas à saúde da população) podem ser antecipadas para as regiões nessa situação. 

         Deve-se lembrar que se trata de uma doença cuja história natural cursa em período superior a uma semana. Portanto, a antecipação de medidas é imprescindível para manter o controle e não colapsar o sistema de saúde. Neste sentido, pode parecer exagerado que uma determinada região receba uma bandeira vermelha, ou mesmo preta, apesar de não haver um número considerado por muitos como “expressivo”.  No entanto, todos os esforços são tomados para antever uma situação muito desfavorável, mitigando o surgimento de casos, propiciando acesso aos serviços de saúde a todos que demandarem.

         Sublinha-se, ainda, que o plano de distanciamento controlado visa assegurar condições de responder às demandas relacionadas à COVID-19 de todos os gaúchos, alocando recursos e atenções para as situações específicas. A regionalização, neste contexto, favorece ao cumprimento dessa premissa. Enquadram-se em uma mesma região os municípios com interdependência entre os serviços de saúde, econômica, de transporte, dentre outras. Na medida em que uma região apresenta maior risco (bandeira vermelha ou preta), atenções especiais e protocolos estritos devem ser implementados, incluindo o aumento da restrição de circulação de pessoas, com conseguinte redução de atividades econômicas. Eventualmente, recursos governamentais adicionais e transporte de doentes para outras regiões podem ser necessários.

Seria adequado empregar o mesmo conjunto de medidas a outras regiões que venham em menor risco (amarelo ou laranja)?

       Certamente, uma medida geral, sem levar em conta as especificidades regionais impactaria negativamente sobre a economia que, como já foi dito, em últimos casos, financia as medidas governamentais para o controle da doença.

        Neste sentido, afirma-se que modelos matemáticos de predição, apesar de imprecisos e de demandarem ajustes, fornecem informações preciosas para que os gestores tomem decisões.

       Portanto, o modelo de distanciamento social proposto pelo governo do RS parte de algumas premissas que merecem destaque:

  1. todas as regiões estão em algum grau de risco. Por esse motivo, não há bandeira verde! A cor mais branda já é um sinal de alerta (amarelo);
  2. há uma profunda interrelação entre as cidades que formam uma região. As ações para controle da pandemia em um local afetam todas as cidades da região. Sendo assim, devem aprender a colaborarem entre si;
  3. sempre é sobre salvar vidas, mesmo quando se dá atenção à economia. Além de outros aspectos importantes sobre a vida das pessoas, ela financia as despesas de saúde (muitas!), que se multiplicam nesse período;
  4. estabelecer medidas de contenção embasadas em informações científicas é papel do estado.

 Aderir a elas é obrigação da sociedade.

Descumpri-las é uma demonstração clara de desvalia com a vida.

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