Saúde do Homem: Possibilidades e desafios na busca do cuidado no território

Resumo: O objetivo do trabalho é estudar e propor ações frente à seguinte problemática: baixa adesão dos homens aos cuidados ofertados na Atenção Primária à Saúde, relacionados a agravos prevalentes nessa população. A atividade tem como intuito identificar e incentivar os estudantes de enfermagem e profissionais de saúde a ampliar seus conhecimentos e visão sobre o público masculino, buscando evidenciar e entender melhor suas especificidades, e a partir desses dados, elaborar estratégias para aumentar o acesso da população alvo nas unidades de saúde. O trabalho foi elaborado entre novembro de 2023 e fevereiro de 2024 na disciplina de Integradora III do currículo de ensino da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Neste estudo foram seguidas as cinco etapas do projeto de conhecimento: observação da realidade concreta; determinação de pontos-chave; teorização; hipóteses de solução para a situação problema e aplicação à realidade. Foram teorizadas as seguintes temáticas: Aspectos socioeconômicos e culturais e a influência na não adesão; A desinformação e o papel da enfermagem na promoção de saúde no território; Formação acadêmica pouco voltada para a saúde do homem; Horários de atendimento e a dinâmica dos serviços de saúde. O trabalho apresenta hipóteses de solução a partir do letramento de usuários e da sensibilização dos estudantes de enfermagem como proposta de solução.

Destacam-se alguns pontos-chave do problema, também estudados e divulgados na literatura sobre o tema:

  • A ausência do público masculino nos serviços primários de saúde pode ser justificada pela crença cultural de autocuidado estar relacionada a fragilidade e ao gênero feminino, fazendo com que muitos homens demonstram dificuldade em expressar suas necessidades e seus problemas de saúde, além de se considerarem responsáveis pelo sustento da família, levando-os a temer um possível prognóstico médico.¹
  • A falta de incentivo aos profissionais de saúde ao visibilizar o público, evidenciado pela baixa divulgação da PNAISH levando a falta de sistematização do atendimento a população masculina, afastando estes da rede pelo sentimento de pouca efetividade na resolução dos próprios problemas.²
  • O alto índice de profissionais do sexo feminino no atendimento à saúde é considerado uma das causas da baixa busca dos homens por atendimento.
  • A dificuldade está ligada a timidez, a falta de confiança e acolhimento por parte do profissional que o atende.³ A timidez e a vergonha podem estar associadas a questões históricas e a inexistência do hábito de expor-se a um profissional de saúde, visto que no campo da medicina, durante muito tempo, as mulheres eram as que mais tinham seus corpos expostos.⁴
  • A saúde da população masculina é trabalhada de forma frágil e genérica na formação em enfermagem, e há uma grande necessidade de inclusão de uma disciplina específica sobre a Saúde do Homem incluídas nos projetos pedagógicos dos cursos da área da saúde, principalmente, na Enfermagem.⁵
  • As Unidades de Saúde têm um papel importante na promoção de saúde e prevenção de doenças. O horário e a dinâmica de atendimento dessas unidades influenciam no acesso aos serviços pela população masculina, visto que essa é muitas vezes a provedora do sustento familiar tendo isso como uma prioridade. Em muitos casos o seu horário de trabalho coincide com o horário de atendimento dos serviços de saúde, dificultando ainda mais o alcance dessa população.¹

A Política Nacional de Atenção integral à Saúde do Homem, foi criada em 2008, com o objetivo de promover a melhoria das condições de saúde da população masculina brasileira, contribuindo de modo efetivo, para a redução da morbidade e da mortalidade dessa população, abordando de maneira abrangente os fatores de risco e vulnerabilidades associados.⁶

Atingir esses objetivos ainda é um grande desafio para as equipes de saúde, pois apesar dos quinze anos de vigência da portaria, muitos homens ainda não frequentam com regularidade a Unidade Básica de Saúde, resultando muitas vezes em complicações de doenças que se fossem prevenidas ou tratadas adequadamente, poderiam reduzir de maneira significativa os dados de morbimortalidade masculina.¹

 

Papel da enfermagem

O papel da enfermagem é fundamental para a construção de um espaço mais acolhedor e acessível para a população masculina dentro do território. A equipe de saúde deve estar atenta às demandas deste público e, a partir disso, criar estratégias para que os homens percebam a importância de cuidar de si e enxerguem as Unidades Básicas de Saúde como um espaço deles também, promovendo a desmistificação da crença de fragilidade em relação ao autocuidado.

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Como hipótese de solução e plano de ação

Elencamos algumas estratégias prioritárias que podem ser implementadas nas Unidades Básicas de Saúde com o objetivo de proporcionar uma maior adesão do público masculino a esse serviço de saúde: Acolhimento e atendimento humanizado; Ampliar o horário de atendimento das Unidades de Saúde; Planejar, divulgar e executar atividades de promoção e prevenção de saúde para população masculina; Sempre que possível proporcionar a representatividade masculina no atendimento; Busca ativa para acompanhamento de demandas relativas a saúde masculina e masculinidades e Educação continuada para a equipe da Unidade de Saúde.

Além dessas hipóteses de solução citadas acima, propomos uma atividade educativa no ambiente acadêmico, voltada para a população masculina, porém trazendo a reflexão para todos os públicos presentes, sendo aplicado aos alunos e profissionais da Escola de Enfermagem da UFRGS. Trata-se de uma Tenda Educativa, a ser realizada no dia 26 de janeiro de 2024, onde abordaremos temas pertinentes à saúde do homem, com o objetivo de desmistificar e trazer informações sobre a temática, além de proporcionar aos participantes um ambiente acolhedor e educativo, fomentando a necessidade do conhecimento destes temas e trazendo a percepção da carência desse assunto na formação dos profissionais de saúde. Abordaremos temas como a Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), Diabetes Mellitus (DM), Obesidade, Dislipidemias, Tabagismo, Câncer de Próstata e Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), além de aferição de pressão arterial, verificação de medidas antropométricas e realização de dinâmicas.

Considerações Finais: Enquanto acadêmicos de enfermagem do 7° semestre de Enfermagem, percebe-se a importância do incentivo dos professores para uma melhor abordagem do assunto em sala de aula e de uma melhor preparação dos profissionais de saúde para atender ao público na atenção primária. O trabalho foi de extrema importância para a construção do nosso conhecimento e a provocação sobre o assunto, buscando ampliar o olhar dos alunos de enfermagem quanto às especificidades do público masculino, e também promover a desmistificação da crença de fragilidade e autocuidado.

REFERÊNCIAS:

  1. Moreira RLSF; Fontes WD; Barboza TM. Difficulties of the man in primary healthcare: the speech of nurses. Escola Anna Nery – Revista de Enfermagem, [S.L.], v. 18, n. 4, p. 1-7, dez. 2014. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20140087. Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.scielo.br/j/ean/a/L3xtvr9GSMGK4YxMgGhMTZd/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 01 jan. 2024.
  2. Vaz CAM, Souza GB, Filho IMM, Santos OP, Cavalcanti MMFP. Contribuições do enfermeiro para a saúde do homem na atenção básica. Revista de Iniciação Científica e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 2, p. 122–126, 2018. Disponível em: https://revistasfacesa.senaaires.com.br/index.php/iniciacao-cientifica/article/view/60.. Acesso em: 1 jan. 2024.
  3. Rodrigues AA. Ressignificando a saúde do homem com a extensão universitária. Revista Panorâmica online v. 2, 2019.
  4. Santos PHB. Saúde do homem: invisibilidade e desafios na atenção primária de saúde. Seminário nacional de serviço social, trabalho e política nacional. Universidade Federal de Santa Catarina, 2015. Disponível em: https://seminarioservicosocial.paginas.ufsc.br/files/2017/05/Eixo_3_084-2.pdf.
  5. Souza LVSA, Gonçalves TSC, Costa BMS, Silva AJ, Silva SHGM, Vasconcellos RMA. CONGRESSO DE ENSINO DE GRADUAÇÃO, VII., 2021, UFPEL. Saúde do Homem: Ideia para Disciplina Curricular no Curso de Graduação Em Enfermagem […]. [S. l.: s. n.], 2021. Disponível em: https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwjh69WVwb2DAxWTFLkGHbh0CLEQFnoECBMQAQ&url=https%3A%2F%2Fcti.ufpel.edu.br%2Fsiepe%2Farquivos%2F2021%2FG1_03762.pdf&usg=AOvVaw1GSG_2evEeUOvqVa98qFSC&opi=89978449. Acesso em: 1 jan. 2024.
  6. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas – Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem: Princípios e diretrizes, Brasília, 2008.