Você está aqui: Música Eletroacústica do RS/Eduardo Reck Miranda



Eduardo Reck Miranda

Eduardo Reck Miranda, PhD, (nascido em 1963), é um compositor gaúcho de música eletroacústica e música de câmara que atua como cientista na Inglaterra na área de computação musical. O compositor contribuiu para o surgimento da música eletroacústica no Rio Grande do Sul sendo um dos principais pioneiros a utilizar o computador na música contemporânea.

Desenvolvimento da Música Computacional em Porto Alegre nos Anos 80:

Texto extraido do artigo de Carlos Palombini entitulado The Brazilian Group for Computer Music Research: A Proto-History, publicado em Leonardo Vol. 10, pp. 13–20, 2000 (MIT Press), e adaptado por Eloy Fritsch.

Em 1986, Moysés Lopes Filho, um aluno de composição de Frederico Richter na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), transferiu-se para o programa de violão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde Eduardo Miranda já frequentava o curso de Licenciatura em Música. Encontraram-se pela primeira vez nas aulas de filosofia da arte, onde ambos tiveram a oportunidade de discutir assuntos relacionados a música contemporânea brasileira e o papel dos compositores gaúchos no cenário nacional. Compartilhando admiração pelo escritor Qorpo Santo e pelos textos de Mário de Andrade, e um descaso em relação aos grupos do Música Viva e Música Nova, Lopes Filho e Miranda juntaram forças e criaram em 1986 o Tupiniqarte, um laboratório para a pesquisa e prática da música contemporânea. O Tupiniqarte não era afiliado a nenhuma universidade ou instituição. Foi uma iniciativa privada. Em uma entrevista concedida a Carlos Palombini em 1999, Miranda mencionou: "Nós queríamos inovar os valores musicais nacionais que haviam sido ignorados pelos movimentos "Música isso ou aquilo" do Rio de Janeiro e São Paulo. Moysés, por exemplo, procurou resgatar o trabalho iniciado por Villa-Lobos, mas usando novas tecnologias. Quanto a mim, tive uma posição mais independente – estava simplesmente interessado em experimentar.” Ambos tinham a ambição de avançar a linguagem musical contemporânea brasileira através da experimentação com novos sons e novas abordagens composicionais.

O Tupiniqarte ficava localizado em cima do Cinema Cacique, na Rua da Praia, antigo centro político e intelectual de Porto Alegre. Eles tinham consciência que em termos de tecnologia seria praticamente impossivel competir com os centros Europeus, Americanos ou até mesmo com o laboratorio de computação sônica de Aluizio Arcela na Universidade de Brasília. Então eles tiveram que trabalhar com o que tinham na mão: um orgão eletrônico, um computador Sinclair ZX-81, um computador MSX, geradores de audio caseiros, circuitos reciclados e varios outros equipamentos de áudio obsoletos. Criaram uma estética o qual costumavam chamar de “estética do pobre”. De certa forma, naquela época o Tupiniqarte já fazia o que hoje é chamado “circuit bending”, uma prática que está muito na moda na Europa e América do Norte.

Em 23 de abril de 1987, o Tupiniqarte apresentou um concerto multimídia no lançamento da nona edição da revista anarcopunk “Cobra ”, no teatro da Companhia das Artes, na Rua da Praia. O concerto de 40 minutos foi chamado Apokalipse, uma referencia ao vírus do ano 2000 – que aparentemente iria afetar todos os computadores do mundo na chegada do ano 2000; no fim, o ano 2000 chegou e não aconteceu nada. Miranda fez a difusão sonora do material gravado em fita e Lopes Filho cuidou da projeção de computação gráfica gerada em tempo real pelo computador MSX e da iluminação. Elton Scartazzini, um dos editores da Cobra, tocou violino. Ele havia desenvolvido sua própria técnica de tocar violino de cabeça para baixo. Ele tomava o centro do palco: foi o solista.

Em setembro de 1987, Miranda e Scartazzini aterrissaram em Brasília para apresentar o Apokalipse no primeiro Festival Latino-Americano de Arte e Cultura. Na noite de 21 de setembro, o auditório de música da Universidade de Brasília mostrava em seu palco uma tela branca ladeada por duas colunas de som; de um lado em frente à tela, uma cadeira e um microfone (onde sentou o solista Scartazzini); e no centro da platéia o equipamento de difusão sonora. O concerto foi um sucesso. Mais tarde, membros da platéia comprimentavam os artistas atrás do palco. Dois dias depois, o Correio do Brasil trazia a seguinte crítica: "Poucos tiveram a audácia de inovar ou deixar de lado a linguagem pré-estabelecida que define o que é ou não é arte. O concerto fugiu de todas as regras e certamente permanecerá como o evento mais comentado, dado a ousadia com a qual ele procura se desvencilhar da tradição.”

Eduardo Reck Miranda e Moysés Lopes Filho no laboratório Tupiniqarte trabalhando na obra "Apokalipse".
Elton Scartazzini tocando no concerto na Companhia das Artes, em april de 1987, onde a obra Apokalipse foi tocada pela primeira vez.

O fato do proprietario ter requerido a devolução da sala da Rua da Praia, somado ao alto custo para a manutenção do laboratório e outros fatores logísticos, o Tupiniqarte teve que encerrar suas atividades em 1987. Enquanto Lopes Filho iniciou uma carreira no Direito, Miranda associou-se a Carlos Guerra, um engenheiro elétrico recém formado, com muito interesse em música eletrônica, para criar um laboratório de pesquisa em música computacional no Instituto de Artes da UFRGS – o primeiro laboratório do gênero em uma universidade da região sul do Brasil. Miranda estabeleceu uma valiosa parceria com Centro de Processamento de Dados (CPD) da UFRGS, cujos engenheiros contribuiram para a manutenção do laboratório. Naquela epoca, o Instituto de Artes havia comprado um Apple II+ para a biblioteca. Uma vez que os funcionários da biblioteca aparentemente não tinham interesse em usá-lo, Miranda requisitou a máquina para o laboratorio e o diretor do instituto, Raimundo Martins, aprovou sua tranferência sem criar impecilhos. Os engenheiros do CPD desenvolveram e montaram uma interface MIDI para o Apple II+. Miranda e Guerra desenvolveram toda a programação operacional. Tendo em vista o progresso que o laboratório vinha apresentando, o diretor do instituto continuou apoiando a iniciativa e possibilitou a compra de um PC. Outra interface MIDI foi construída pelo CPD e varios trabalhos foram desenvolvidos. Foi nesta epoca que Miranda iniciou experimentos com gramáticas musicais para composição algorítmica, usando a linguagem PROLOG. Nestas alturas Miranda cursava o Pós-Graduação em Ciências da Computação da UFRGS, onde estudou Inteligência Artificial com Rosa Vicari e lógica formal com Rocha Costa. Nesta ocasião, Miranda fez amizade com um outro aluno do mesmo pós-graduação, que embora não fosse músico, tornou-se um importante protagonista da música computacional gaúcha: Marcelo Pimenta.

Miranda’s Labirinto (1987), para sons electroacústicos (gravado em fita magnetica), piano e ferro-velho, é talvez a peça mais significante que ele compôs no laboratório do Instituto de Artes. Labirinto foi executada em 23 de setembro de 1988 no Primeiro Encontro de Compositores da Região Sul, em Porto Alegre. A mídia local detestou a obra: "O artista anunciou uma peça de 20 minutos e ficou 40 no palco, tocando piano e os sons dos 6 computadores e do sampler que eram gravados e gerados por um gravador de fita de um quarto de polegada, enquanto vários colegas seus batiam em latas e pedaços de ferro e até usaram uma serra elétrica para cortar canos de ferro, produzindo assim um barulho insuportável". Poucos ficaram sabendo que o problema da duração da obra na verdade foi causada pelo fato do gravador disponibilizado para o concerto ser incompatível com a velocidade da gravação – a velocidade do aparelho era muito menor que a velocidade da gravação. Por isso a fita demorou mais para terminar. O escândalo causado pela Labirinto foi comentado pela imprensa local em contraste com "a tradicional e prazeirosa Sonatina A...", "a boa Sonata B...", "a madura Sonata C...", "o belo Divertimento D...", "a mais bela Sonata E...", "o excelente Duo F..., "a bela Sonatina G...". Meses mais tarde, Miranda embarcou para a Inglaterra para continuar suas pesquisas e apresentar sua música na Europa, e dali para o resto do globo.

Composições musicais:
As composições musicais de Miranda tem sido tocadas e transmitidas em vários concertos e festivais mundiais, incluindo o Festival Latino-Americano de Arte e Cultura (Brasília, 1987), o Encompor (Porto Alegre, 1988-89, 1995), o Simpósio Internacional de Arte Electronica (Minneapolis, 1993), o Festival Elektronischer Frühling (Viena, 1993-94), e o Ciclo Acusmático (Bogotá, 1995). Suas músicas ganharam prêmios e distinções na Europa e na Ámérica do Sul, tais como Concours Internationaux de Musique Électroacoustique de Bourges (França 1994), Concurso de Composição de Londrina (Brasil, 1995) e Concorso Internazionale Luigi Russolo di Musica Elettroacustica (Italy, 1995, 1998). Uma resenha sobre seu ultimo CD, Mother Tongue, na revista The Wire, diz: " Estas são peças imensamente sofisticadas que constituem uma música global eletrônica de convincente simplicidade orgânica".

Discografia de músicas eletroacústicas:

# Olivine Trees, electroacoustic, track 1. In the accompanying music CD of the book Evolutionary Computer Music, Springer, 2007. [ISBN 978-1-84628-599-8]

# Electroacoustic Samba II, electroacoustic, track 1. In CD Mother Tongue, Sargasso, UK, 2004. [SCD28051]

# Le Jardin de Jerome, electroacoustic, track 2. In CD Mother Tongue, Sargasso, UK, 2004. [SCD28051]

# Requiem per una veu perduda, electroacoustics and mezzo-soprano, tracks 3, 4, 5, 6. In CD Mother Tongue, Sargasso, UK, 2004. [SCD28051]

# Goma Arabica, electroacoustic, track 7. In CD Mother Tongue, Sargasso, UK, 2004. [SCD28051]

# Robotapithecos, electroacoustic, track 9. In CD Mother Tongue, Sargasso, UK, 2004. [SCD28051]

# Grain Streams, piano and electronics, tracks 1, 2, 3. In CD Plural, Fumproarte, Brazil, 2003. [389.726.04-7]

# Samba Eletroacustico IV, electroacoustic, track 1. In accompanying CD of book Ainda Orangotangos, by Paulo Scott. Porto Alegre: Livros do Mal, 2003. [ISBN 85-89966-01-01]

# Kyrie, electroacoustic, track 11. In accompanying CD of book Ainda Orangotangos, by Paulo Scott. Porto Alegre: Livros do Mal, 2003. [ISBN 85-89966-01-01]

# From electroacoustic 2, electroacoustic, track 13. In accompanying CD of book Ainda Orangotangos, by Paulo Scott. Porto Alegre: Livros do Mal, 2003. [ISBN 85-89966-01-01]

# Deciphering Images, sound track for CD-ROM produced by Laurent Gervereau, imagesmag and La ligue de l'enseignement, France, 2001.

# Aquarium, electroacoustic, track 19. In CD Virtual Zoo, Studio Forum, France, 2001.

# Electroacoustic Samba I, electroacoustic, track 4. In CD Southern Cones: Music out of Africa and South America, part of Leonardo Music Journal, Vol. 10. The MIT Press, 2000. [EMF CD 027 - ISSN 0961-1215]

# Electroacoustic Sambas II and III, electroacoustic, disc 1 - track 6. In CD Cultures electroniques, No. 12, IMEB - UNESCO - CIME, France, 1999. [LCD 278068/69]

# Requiem per una veu perduda (excerpts Sanctus-Benedictus and Agnus Dei), mezzo soprano, live electronics and electroacoustics, tracks 11 and 12. In CD accompanying Organised Sound, Vol. 3, No. 3, Cambridge University Press, 1998. [ISSN 1355-7718]

# Electroacoustic Samba X, electroacoustic, track 1. In CD Desde el otro Lado, O.O. Discs, USA, 1998. [OO45]

# Goma Arabica, electroacoustic, track 3. In CD of Sociedade Brasileira de Musica Eletroacustica, No. 1, Brazil, 1996. [CD SBME 001]

# Olivine Trees, electroacoustic, track 6. In CD of the proceedings of the II Brazilian Symposium on Computer Music, Brazil, 1995.

Composições Eletroacústicas de Eduardo Reck Miranda (clique no player para ouvir e no ìcone dentro dele para baixar)

Fluxus 1

Fluxus 3

Cellular Automata Study - Composta em 1991 nos estúdios de música eletroacústica da Universidade de York. Esta peça foi gerada automaticamente por um programa gerador de música inventado pelo compositor, rodando em um computador Atari 1040 conectado a um sintetizador MIDI. O programa, chamado CAMUS, utiliza uma teécnica de programação chamada Autômatos Celulares, para gerar sequencias musicais. Os Autômatos Celulares são bastante usados para modelar sistemas dinâmicos, particularmente sistemas biológicos.

Deep Resonance - Composta entre 1992 e 1993 no ZKM, em Kalshure (Alemanha) e nos estúdios da Universidade de Edinburgh. A maioria dos materiais sintetizados são simuladores de instrumentos tipo Gamelão, que são gerados usando algoritmos de síntese FM, programados no "Common Lisp Music" rodando em um computador NeXT. A voz, perto do final da música, diz traduções em inglês de um Haiku, do poeta japonês Basho.

Gestures - Gravada ao vivo nos estúdios de música da Universidade de Edinburgh em 1992. Esta é uma peça para 2 intérpretes: um humano (neste caso o compositor) e o computador. O computador toca um sintetizador digital e o humano toca um oscilador analógico conectado à uma unidade de efeito de áudio. O computador gera a música usando o programa musical CAMUS, mencionado acima. O CAMUS gera gestos musicais e o intérprete humano improvisa em tempo real com gestos contrastantes. O CAMUS possui um certo grau de aleatoriedade dentro de um âmbito musical definido pelo compositor. Portanto, os gestos do intérprete humano são também inesperados até um certo ponto.

Study for an Opera - Composta em 1994 nos estúdios da Universidade de Edinburgh. Este é um breve estudo eletroacústico, parte de uma série de estudos encomendados pelo compositor situado em Edinburgh,Nigel Osborne, para um projeto de ópera.