Eloy F. Fritsch
O pioneirismo de Frederico Richter e Eduardo Reck Miranda tem continuidade no trabalho de Eloy Fritsch que é responsável por disseminar e fomentar a nova modalidade de composição por computador entre estudantes e compositores rio-grandenses. Entre as contribuições do músico está a realização de concertos de música eletroacústica, edição de um livro e DVD em língua portuguesa sobre Música Eletrônica, a construção do CME na UFRGS e a pesquisa e divulgação de técnicas de composição e do repertório de vanguarda criado no RS.
O professor de música da UFRGS compôs música instrumental para sintetizadores, música popular e eletroacústica. O repertório eletroacústico de Fritsch é formado basicamente por música acusmática. Entretanto possui também composições nas modalidades paisagens sonoras, música interativa e algorítmica.
Em 1981, aos 13 anos, Fritsch começou a trabalhar com seu pai na Rádio Caxias, na serra gaúcha, catalogando LPs na discoteca. Lá obteve seu primeiro contato com os sons eletrônicos realizando audições dos trabalhos de Gherson Kingsley, Jean Kacques Perrey, Kraftwerk, Vangelis, Jean-Michel Jarre, Isao Tomita e W. Carlos. Em 1983 Fritsch iniciou seus estudos em música e cria o grupo de rock progressivo Apocalypse no qual atua como tecladista e compositor.
Em 1984 Fritsch adquire o sintetizador analógico e monofônico Korg-MS-10. Com este sintetizador analógico e os instrumentos: Poly-800, percussão eletrônica da Roland, piano Rhodes, strings Crumar e gravador de fita, realiza em 1984 seus primeiros estudos autodidatas de música eletrônica experimental gravando uma fita no estúdio do grupo Ego Mecanóide, em Caxias do Sul. Nos anos seguintes dedicou-se ao estudo da Ciência da Computação na UCS enquanto aperfeiçoava-se no piano, cello e canto estudando na Escola da Orquestra Sinfônica de Caxias do Sul, coral e Atelier da UCS.
Em 1992 ingressa no mestrado em Ciência da Computação em Porto Alegre conhecendo o pesquisador Eduardo Reck Miranda que o auxiliou nos trabalhos em suas viagens para o Brasil. Fritsch criou, em 1993, juntamente com a Profa. Rosa Viccari, sua orientadora de mestrado e doutorado, o primeiro laboratório de pesquisa em Computer Music da UFRGS batizado de Laboratório de Computação e Música (LC&M). Lá foram desenvolvidos vários projetos de pesquisa em Computação Musical incluindo sua dissertação de mestrado CAMM – Compositor Automático de Melodias Musicais – um programa em Prolog de inteligência artificial baseado em regras para a produção automática de frases musicais. Fritsch apresentou sua pesquisa no primeiro Simpósio Brasileiro de Computação e Música e ajudou a organizar, juntamente com Eduardo Miranda e Fábio Beckemkamp, o segundo Simpósio Brasileiro de Computação e Música em Canela.
Ainda em 1993 adquire vários sintetizadores e um computador Atari com MIDI criando um estúdio particular para composição de música eletrônica. Logo inicia um projeto de composição em estúdio criando, com o auxílio do computador, um vasto repertório de composições instrumentais para sintetizadores e sons eletrônicos. Através da pesquisa dos recursos dos novos instrumentos eletrônicos, técnicas de seqüenciamento MIDI, o compositor registra suas composições que passam a ser lançadas em CDs no Brasil e na França a partir de 1996. Nesse período continua seus estudos de música no Conservatório Palestrina, Academia Prediger e Conservatório da OSPA, lançamentos de CDs e apresentações com o grupo Apocalypse.
Em 1994, para manter o financiamento de projetos de pesquisa e composição musical leciona informática na UCS e na ULBRA sendo que em 1997 cria o primeiro projeto de extensão na ULBRA para ministrar aulas de música e tecnologia. A pesquisa em Computação Musical continua no LC&M sob orientação da Profa. Dra. Rosa Viccari com foco na educação musical auxiliada por computador rendendo a publicação de artigos e capítulos em livros.
Fritsch assume como professor de música na UFRGS em 1999 e transfere seu estúdio particular para o Instituto de Artes iniciando as primeiras turmas de síntese sonora. Utilizando o sintetizador modular analógico SYSTEM-700 ensinou os princípios da música eletrônica para os primeiros alunos de composição. Fritsch finaliza seu doutorado com a Tese – MEPSOM – Método de Ensino de Programação Sônica para Músicos – criando um método com vários exemplos em Max/MSP que é amplamente utilizado nas disciplinas de Computação Musical na UFRGS por vários anos para ensino de composição algorítmica. Durante o doutorado, sob orientação de Rosa Viccari e o maestro Antonio Carlos Borges Cunha , compõe em 1999 “Embryo” para sintetizadores e percussão processada. Com o apoio e a orientação dos professores de composição Celso Loureiro Chaves e Antonio Carlos Borges Cunha, Eloy Fritsch torna-se o professor da nova geração de músicos eletrônicos gaúchos e de tantos outros compositores que realizam música eletroacústica. Foi o responsável pela introdução da linguagem Max/MSP e diversas técnicas de composição algorítmica por computador no Rio Grande do Sul. Nessa época realiza apresentação com o grupo Apocalypse no Brasil e exterior executando suas composições instrumentais e progressivas para o grande público.
Em 2001 seus projetos de pesquisa são aprovados e com o financiamento cria os laboratórios AUDIOLAB e LME. Em 2003 é criado o Grupo de Pesquisa em Computação Musical coordenado por Fritsch com o objetivo de integrar os trabalhos de Computação Musical realizados nos Institutos de Informática e Artes. Neste mesmo ano estuda Pinao no curso de extensão da UFRGS e compõe a música interativa Silicon Child para Max/MSP publicando o experimento nos livros do Simpósio Brasileiro de Computação e Música. Fritsch também coordena a reforma dos laboratórios e inaugura o Centro de Música Eletrônica – um complexo de laboratórios para a composição musical por computador. Fritsch promove as primeiras apresentações de música eletroacústica de professores e alunos da UFRGS. Leciona música eletroacústica para os alunos do Programa de Mestrado e Doutorado da UFRGS e promove vários cursos de extensão em música eletrônica. Em 2005 o compositor obtém novos financiamentos para seus projetos de pesquisa e com o recurso cria a Orquestra de Alto-falantes da UFRGS para apresentações das composições de paisagens sonoras e música acusmática.
De 2005 a 2008 realiza o programa de rádio Música Eletrônica divulgando e realizando a estréia de composições de seus alunos na Rádio da Universidade 1080 AM. Posteriormente obtém financiamento para criar o CME-On Line que funciona como uma Web Radio sendo o primeiro repositório de música eletroacústica do Rio Grande do Sul. Em 2008 lança o livro Música Eletrônica – Uma Introdução Ilustrada. O primeiro Livro sobre o assunto feito no RS é acompanhado de um DVD com a produção eletroacústica do compositor entre os anos 2003 e 2006 contendo as obras Synapse 5.1, Synthetic Horizon, Indian Sampler, Mercado Público, Mystery e Silicon Child. Suas composições eletroacústicas foram apresentadas em festivais de música contemporânea, vídeo performances, concertos multimídia, concertos de música acusmática, instalações sonoras e eventos de divulgação científica promovidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Composições Eletroacústicas de Eloy Fritsch (clique no player para ouvir e no ìcone dentro dele para baixar)
Synapse 5.1 - Esta composição eletrônica foi realizada em 2005 utilizando sons produzidos por sintetizadores digitais e amostras de percussão. É uma homenagem ao irmão do compositor, Ruy Fritsch, que possui um estúdio de animação gráfica por computador chamado Synapse 3D Studios. Como a composição foi concebida para o sistema 5.1, então foi intitulada de Synapse 5.1. A composição é dividida em três seções. A primeira tem como característica principal um crescendo de longos eventos ruidosos com o objetivo de provocar expectativa no ouvinte. Na segunda seção vários sons percussivos, com diferentes qualidades espectrais são projetados pelas caixas acústicas produzindo grande atividade espacial. A terceira seção inicia com um estrondo na freqüência subgrave seguido pela reapresentação dos materiais das duas primeiras seções. A obra é finaliza com um ruído crescente constituído por baixas freqüências.
A estréia de Synapse 5.1 foi em 01/06/2005 durante a Primeira Semana de Música Contemporânea da UFRGS, promovida pelo Departamento de Música e realizada no Auditório Tasso Corrêa do Instituto de Artes da UFRGS.
Synthetic Horizon - Sinthetic Horizon foi composta em 2005 com o intuito de exteriorizar, sob a forma de música acusmática, a inquietação decorrente da reflexão sobre o mundo cibernético sintético que vem sendo criado pela humanidade. A intenção do compositor é conduzir o ouvinte a uma viagem por ambientes sonoros artificiais, projetados por texturas eletrônicas.. Nesta composição, Fritsch cria os sons em laboratório e utiliza o computador para organizá-los. Um som confortante e tonal é recorrente na peça. Este tem o importante papel de representar a esperança dos homens. Um som mais humano e acalentador em meio às passagens ruidosas do horizonte sintético que nos aguarda em um futuro próximo.
A obra possui diferentes passagens contrastantes. Aos 3:40 minutos, sons guturais sintetizados são processados por delay. Aos 5 minutos os eventos musicais são contraídos e expandidos criando um ralentando que prepara o surgimento da passagem meditativa aos 5:15 minutos. Esta é constituída por sons que movimentam-se lentamente pelas caixas acústicas. Aos 7:25 inicia o ápice da obra através da sucessão de sons ruidosos impactantes. As granulações sonoras são expandidas e contraídas transformando-se em sons guturais processados por delay.
A estréia de Sinthetic Horizon aconteceu em 18/10/2005 durante o evento Música Acusmática no Museu – Apresentação de Música Eletrônica para Orquestra de Alto-Falantes, no Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS.
Mercado Público - O projeto de composição de paisagens sonoras foi iniciado com a escolha dos marcos sonoros de Porto Alegre e a captação dos sons ambientais. Estes foram registrados no gravador portátil digital M-audio MicroTrack através de um microfone profissional de condensador AKG com possibilidade de seleção do tipo de direcionalidade da captação. Os sons ambientais foram gravados no dia 09/07/2006 das 16:00 às 17:00 pelo bolsista do projeto de pesquisa, Abel Roland de Jesus, enquanto caminhava pelo interior do Mercado Público, Largo Glênio Perez e o camelódromo, que fica próximo ao Mercado Público, na Rua Marechal Floriano. Após o registro dos marcos sonoros de Porto Alegre, foi criado um catálogo com todas as amostras.
Eloy F. Fritsch selecionou amostras do catálogo para compor a obra Mercado Público. O motivo inicial é uma melodia formada por ostinato, criada a partir do som de um aparelho celular gravado no camelódromo de Porto Alegre, junto ao Largo Glênio Perez. Essa melodia foi composta pela reprodução contínua de um fragmento de áudio em duas trilhas sobrepostas. Aos 45 segundos ocorre a apresentação de um evento musical em que sons do mercado público são transformados através de alterações de tempo e afinação. O mesmo ocorre a 1 minuto, porém o desfecho do evento resulta no início da apresentação do som do bonde imaginário, existente no século passado, neste local, criado através de transformações eletrônicas do material pré-gravado. Este som resulta em um ostinato rítmico caracterizando um momento pontual nesta peça. Um novo crescendo, durante a permanência do som do bonde, resulta na apresentação de sons internos ao ambiente do mercado público. O bonde e a serra elétrica, que corta carne no açougue, insinuam uma analogia ao realismo fantástico em que dois elementos distintos surgem numa mesma paisagem em que naturalmente não estariam. O som do bonde é transformado para lembrar o som distante dos sinos da Igreja Matriz (Catedral Metropolitana). A utilização do som dos sinos da igreja, criados eletronicamente, é misturado aos sons ambientes do camelódromo, com destaque para o som do celular. A dificuldade do trabalho formal no Brasil faz com que pessoas busquem alternativas para obter renda, muitos optam pelo trabalho informal tornando-se camelôs. A grande parte dos camelôs vende produtos eletrônicos. Celulares, calculadoras, relógios e despertadores produzem sons eletrônicos O crescimento desordenado dos camelôs no Centro de Porto Alegre está representado na música pelo aumento desordenado (aleatório) de sons eletrônicos criando uma textura densa e crescente que, ao atingir o clímax, relaxa através de um som reverberado resultando em um evento musical semelhante ao mesmo ocorrido aos 45 segundos, no início da peça, repleto de colagens de sons.
Ao soar o último eco da voz, a paisagem muda dos camelôs para o largo Glênio Perez, lugar no qual se encontram artistas de rua. Neste trecho da obra é possível ouvir uma música folclórica peruana ao fundo enquanto a paisagem sonora é transformada. Por meio de um procedimento de Pitch Shift, o andamento da paisagem sonora é reduzido pela metade a cada nova iteração, enquanto que a música folclórica é mantida ao fundo. Novamente, o evento, apresentado aos 45 segundos do início da obra, aparece no sentido direto e reverso. Aos 3 minutos e 55 segundos temos o primeiro descanso da obra. Este silêncio marca o início da seção final. Esta inicia com o som dos equipamentos eletrônicos dos camelôs sendo acelerado até a entrada das vozes. Este aumento na velocidade das amostras remete o ouvinte novamente ao som do bonde acelerando. Os sons do interior do mercado público tais como, a serra elétrica, que corta a carne, são intercalados com sons fragmentados. Os sons fragmentados foram criados a partir dos sons internos do Mercado Público. Três pequenos trechos de áudio foram selecionados aleatoriamente e reproduzidos 150 vezes. Este grande conjunto de partículas foi embaralhado pelo compositor criando ritmos acelerados e randômicos. A mudança da paisagem para o som fragmentado produz um contraste súbito entre um trecho prolongado de menor atividade musical para um trecho de maior atividade musical, em que os sons são projetados individualmente a partir de diferentes pontos do ambiente. A peça termina com os sons internos do Mercado Público sendo drasticamente desacelerados até transformarem-se no som da brisa do Guaíba que ultrapassa o muro da Av. Mauá, próximo ao Mercado Público.
Mercado Público é uma das composições resultantes do projeto de pesquisa, Composição Eletroacústica de Paisagens Sonoras, financiado pela FAPERGS e CNPq. Sua estréia foi em 19/10/2006 na apresentação da Orquestra de Alto-falantes da UFRGS, intitulada Paisagens Sonoras no Cinema, como atividade do Salão de Iniciação Científica da UFRGS em 2006, no Cinema Universitário, em Porto Alegre, RS. A obra foi concebida e projetada no sistema 7.1. Para este DVD foi realizada a redução para o sistema 5.1.
Spectral Noise - Spectral Noise foi realizada em 2007 no estúdio particular do compositor Eloy Fritsch sob encomenda do grupo a-paralelos para a apresentação de uma videoperformance ocorrida em 29/09 na rua de Eventos do DC Shopping, em Porto Alegre. No evento foi realizada uma projeção da imagem de bailarinos sobre uma "parede" de fardos de papel reciclável da empresa Norpel. Os bailarinos atuaram em tempo real com as imagens e a música. O material sonoro inicial que originou a composição é constituído apenas por ruídos de duas máquinas: a picotadeira e a prensa de papéis para produção de fardos. Os sons foram gravados pelo grupo a-paralelos. A composição foi realizada através de técnicas de processamento e colagem dos sons. A maior atividade rítmica e espacial está presente no início e no final da obra com sucessivos eventos de característica percussiva. A passagem central da obra é de caráter místico e ambiental, composta por sons reverberados que servem de sustentação para a apresentação dos ruídos das máquinas na passagem central da obra. Fritsch retoma a atividade rítmica através da elaboração em computador de um ostinato formado por “golpes” obtidos pelo processamento do som das máquinas realizado com efeito Doppler. Para finalizar a obra o compositor reutiliza parte do material processado na introdução com modificações.